Gelza Rocha -Seria cômico, se não fosse trágico
Seria cômico, se não fosse trágico
Por Gelza Rocha

Por Gelza Rocha

     Acometida de problema na visão, na fase mais severa do tratamento deixei de lado o computador, e, por esta razão, somente agora volto a publicar texto no Portal 100 fronteiras.

      Durante alguns dias, vez ou outra, dava uma olhada nas novelas do momento... Deparei-me com tramas e personagens variados, que, ao serem bem analisados, mostram-se, quase todos, como repetições de antigos folhetins... Porém, não é esta a questão que pretendo me ater neste momento. Outra, mais intrigante, do meu ponto de vista, mereceu maior reflexão.

    A novela “Aquele Beijo” chamou a minha atenção. Eu já ouvira falar que a mesma teve cenas gravadas aqui na capital e no interior, e este fato, lembro, foi amplamente divulgado como excelente oportunidade de fazer a Paraíba e seu povo tornarem-se cada vez mais conhecidos Brasil a fora, quiçá, mundo a fora, pois que algumas novelas da TV Globo têm sido exportadas, com sucesso... Deste modo o turismo, por fim, ganharia força por aqui, alardearam diferentes programas de rádio e TV...

     Não assisti as cenas gravadas em João Pessoa ou no interior. Tampouco ouvi ou soube de maiores comentários sobre elas.

    Em alguns dos poucos capítulos que acompanhei, entretanto, posso afirmar duas coisas: 1) O belo “cenário” paraibano deve ter servido, apenas, como pano de fundo para os autores identificarem, ao seu gosto, o nosso povo; 2) Este folhetim deve estar fazendo a festa daqueles que olham para os nordestinos de forma preconceituosa.

    O personagem Felizardo Barbosa, nascido em nosso estado, quase nunca é chamado pelo nome, e sim de “o paraíba”, “aquele paraíba”, de forma a lembrar, constantemente, aos telespectadores, a terra de origem do mesmo. Pois bem! Este personagem acumula em sua personalidade, os piores defeitos do ser humano. Além de ter dado o golpe do baú, é péssimo marido, machão e infiel. E, estas são as suas características, digamos assim, menos negativas, diante das demais com que o autor ou autores brindaram o dito cujo. Senão vejamos! É um exemplo de pai da pior espécie, em relação aos nefastos valores que transmite ao filho. Querem mais? É preconceituoso, no caso, homofóbico, uma das atitudes mais condenadas pela sociedade, ultimamente... Enquanto patrão, é ditador, cruel, insensível... E, para fechar com chave de ouro o cofre das “qualidades” do “paraíba”, os autores não esqueceram de mostrá-lo como o mais refinado corrupto, claro!

    Tem mais. A “irmã”, uma moça que tomou o lugar da defunta Damiana, a verdadeira mana de Felizardo, também nasceu aqui na terrinha, lógico! É uma “paraíba” legítima! Uma trambiqueira das boas, caluniadora, mentirosa, e por aí vai... A filha do “paraíba” não deixa por menos! Casa e trama a morte do marido por causa de alguns milhões...

    E o que dizer do herdeiro, fruto deste núcleo familiar de “paraibas”? Só podia ser mesmo um mau caráter de primeira grandeza. E bota mau-caráter nisso! Sem estômago para aguentar o achincalhe travestido de boas intenções, deixei de assistir a novela, portanto, confesso não saber se o filho do “paraíba” é meu conterrâneo ou se nasceu pras bandas do sul. Se esta última situação for a verdadeira, é provável, creio eu, que o mesmo acabe transformado, por seus criadores, em um ser virtuoso e ético. E o pai? O “paraíba”, por certo, terá as “qualidades” aprimoradas. Quem sabe, além de corrupto, não mate alguém (ou mande matar)? Aquele que encontrar paciência suficiente para acompanhar a comédia(!) verá.

    Seria mesmo cômico, se não fosse trágico...

    Se com estes personagens, seus idealizadores pretendem prestar homenagem a Paraíba e ao seu povo, e, se esta é a maneira eficaz encontrada por eles para fazer propaganda do nosso estado para todo país ( e para o exterior), dispenso completamente a boa intenção, pelo menos no que me diz respeito. E, tenho convicção, de ser este o pensamento da maioria absoluta dos paraibanos honrados, honestos e éticos.

    Prazam os céus, que nenhum dinheiro público, ou seja, o nosso, tenha sido utilizado para financiar tão grotesca e falsa imagem do povo paraibano.

 

Mais de Gelza Rocha
PAPAI
Veja mais...
PORTAL 100 FRONTEIRAS
Copyright 2011/2015.
Todos os direitos reservados
João Pessoa-PB
Ideias Multimidia