Gelza Rocha -Os descaminhos dos caminhos turísticos na Paraíba
Os descaminhos dos caminhos turísticos na Paraíba
Por Gelza Rocha

Por Gelza Rocha

A primeira vez em que me aventurei pelo Cariri paraibano foi ainda aluna do Curso de Graduação em Geografia, da UFPB (então Faculdade de Ciências e Letras), em meados da década de 60, sob a orientação de ilustres mestres paraibanos, sulistas, e um francês, dentre eles Lauro Pires Xavier, Abelci Daniel de Assis, Bernardo Issler, Gil Toledo, Beatriz Soares Pontes, Maria Thereza Prost e Gérard Prost. Era tempo de muito estudo, muita responsabilidade e de muitas descobertas. Na época, os acessos à região possuíam obstáculos quase intransponíveis; a maioria dos caminhos compreendia estreitas trilhas pedregosas; a secura, a mesma de sempre; a vegetação, de caatinga espinhenta; o espaço, uma imensidão desocupada; a água, um produto raro e a de beber, não tratada. Mas, tudo, para nós alunos, estava ótimo, porque em tempo de juventude, mesmo na tarefa mais árdua “a vida é um doce”...

Aprendemos muito sobre o Cariri paraibano, nesta primeira pesquisa in loco, porém não fomos apresentados ao, hoje famoso, Lajedo de Pai Mateus, no município de Cabaceiras.

Tive a oportunidade de conhecer este monumento cristalino, somente nove anos atrás, ou pouco mais do que isso, e ainda em viagem de estudo, mas desta feita, já, eu própria, professora de Geografia, juntamente com outros colegas geógrafos da UFPB e, todos fazendo parte do quadro de pesquisadores da Fundação Casa de José Américo, dentre eles, Janete Rodriguez, Gislaine Telles, Celeida Bezerra, Valdenora Maciel. Realizamos, então, os levantamentos preliminares para elaboração do Relatório de Pesquisa sobre a região do Cariri e do vale do Piancó, de interesse do MEC. E, também, adquirimos informações que haveriam de compor mapas e textos do Atlas Geográfico da Paraíba, atualmente em sua 4ª Edição. As estradas, tanto quanto antes, continuavam precárias e as condições gerais de infraestrutura dos municípios não eram muito melhores do que aquelas da minha época de discente. Nesta excursão de nove anos atrás, já se falava da construção de uma pousada, com vistas a implementar o turismo na, até então, desconhecida área do Lajedo Pai Mateus. Ainda que na condição de mestres e não mais de alunas, e já sem a eterna doçura dos tempos de juventude, mas tomadas pelo espírito encorajador do fazer pesquisa de campo, uma aventura surpreendente e agradável, nenhuma das intempéries, naturais ou proporcionadas pelo homem, nos tirou o prazer da viagem.

O leitor deve estar se perguntando: “o que isto tem a ver com o título do texto?”

A partir de agora compreenderão a causa desta introdução.

Sábado passado, dia 28 de abril de 2012, realizei a minha primeira viagem na condição de mera turista, mirando a paisagem sem relacionar formas e processos com tempos geológicos, condições climáticas ou outros quaisquer elementos que remetessem aquela contemplação à minha formação acadêmica. O espírito corajoso de pesquisador, eu esqueci.  O esplendor da juventude que, mesmo nas tarefas árduas, deixa a vida doce ficou lá atrás. Olhos, disposição e esperança de turista caracterizavam minha pessoa, naquele instante.

A van, bem confortável, estava com lotação completa de 15 pessoas, todas felizes e ansiosas para visitar o tão decantado recanto.

De João Pessoa até Campina Grande, com parada no Cajá, tudo maravilha! De Campina Grande até Queimadas, nem tanto, mas suportável. O inferno para nós turistas começaria a partir de Queimadas... E, também, eu começaria a perceber com mais clareza, que nada, ou muito pouco, fora realizado nestes quase 10 anos, para minimizar os graves problemas da região.

O trecho de estrada asfaltada (!) tem mais buraco do que o famoso queijo suíço. Os solavancos são tantos que nem os cintos de segurança nos seguram. Por fim, aos trancos e barrancos, literalmente, chegamos a Cabaceiras, cidade sede do município que se diz hoje a Ruliude Nordestina. Seu espaço urbano e rural tem sido utilizado para cenários de filmes (O Auto da Compadecida), documentários e novelas (Aquele Beijo- cujo belo cenário só serviu para mostrar ao Brasil o que Falabela e outros sulistas preconceituosos pensam do povo paraibano; foi um deboche travestido de propaganda, tema que abordei neste Portal, em janeiro passado, sob o título “seria cômico se não fosse trágico”). A cidade é limpa, praça bem cuidada, Igreja bonita, povo simpático, guia muito legal, roteiro urbano bem organizado; esta parte da estrutura turística pode ser considerada boa. Não se pode dizer o mesmo nem da comida do restaurante recomendado, nem do seu animal mais representativo: o bode (festejado com pompas na Festa do Bode Rei), em termos de produção artesanal. Minha filha Mayra, colecionadora de animais, procurou em todas as lojas de artesanato e não encontrou um bode de couro ou de cerâmica, saindo frustrada da cidade.

Deixando Cabaceiras rumo ao Lajedo Pai Mateus começa o real pesadelo. Torna-se visível, e sofrido, o total descaso das autoridades, municipal e estadual, por um dos seus mais famosos roteiros turísticos, propagandeado via internet para o mundo todo. Estrada é um eufemismo utilizado para denominar os caminhos estreitos, esburacados, de barro e pedregulhos. Mais grave ainda, é a ausência de qualquer tipo de sinalização, sejam grandes placas indicativas com o nome do ponto turístico, sejam simples setas, ao longo dos caminhos, norteando os motoristas. O nosso, um dos mais responsáveis que conheço, acabou perdido no meio das encruzilhadas de veredas idênticas, com a vegetação de caatinga, visualmente, homogênea por todos os lados, sem saber o rumo a seguir. Perdemos um bom tempo voltando, até encontrarmos alguém (um morador solitário, talvez caçador) que indicou a rota certa. E não era a que percorrêramos. A sinalização adequada teria ajudado bastante. Esse descuido, devo lembrar, não é privilégio de Cabaceiras, pois ocorre em muitos outros municípios paraibanos, a exemplo do acesso para a Cachoeira do Roncador, em Pirpirituba.

Após uma verdadeira via crucis, chegamos ao Hotel Fazenda Pai Mateus, nas proximidades do Lajedo, onde outros turistas se encontravam. É um local aprazível, rústico e, aparentemente, confortável; não posso afirmar por não ter pernoitado no local.

A exploração econômica do bem turístico Pai Mateus é de caráter privado, efetuado por proprietário da região. Sente-se a filosofia do capitalismo a partir do alto custo da diária do hotel, até o preço cobrado para chegar ao Lajedo. Mesmo em transporte alugado para toda a viagem, os turistas, hóspedes ou não do Hotel, estão obrigados a esperar pelo horário definido pelo guia da pousada para se deslocarem até o ponto objeto do passeio, situado dali uns vinte e poucos minutos, creio. E, também, obrigatoriamente, têm de pagar, cada um, a quantia de CR$10,00 para ir até o Pai Mateus, mesmo aqueles que, por alguma razão, não desejem subir o lajedo (e não foram poucos). Este fato foi veementemente reclamado por todos.

Outro aspecto da organização turística que nos parece deficitária é a falta de qualquer estrutura para venda de água gelada, no sopé do lajedo, ainda que fosse um isopor com gelo. Aliás, não tem qualquer tipo de água, e a subida e descida das pedras consomem energia suficiente para deixar as pessoas com muita sede.

O Lajedo Pai Mateus é, sem dúvida, um belo monumento natural. Vale o sacrifício?

Do meu ponto de vista de turista, saliente-se que paraibana e acostumada com condições adversas, eu aconselharia aos turistas, daqui ou de alhures, sobremaneira aos mais exigentes em termos de conforto e organização, que, enquanto as autoridades responsáveis não realizarem as obras de infraestrutura condizentes com a fama do roteiro, busquem outros locais do estado mais bem aparelhados turisticamente.

O estado da Paraíba possui belezas incomparáveis, em todas as suas regiões, do Litoral ao Sertão. Potencial turístico tem de sobra. Faltam políticos, que, no lugar de promessas, realizem de verdade o que é necessário para o desenvolvimento de um turismo urbano e rural de qualidade, capaz de proporcionar crescimento econômico e melhores condições de vida para as populações. De preferência, sem desvio de verbas públicas, tais quais os descaminhos dos caminhos turísticos na Paraíba.

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