Gelza Rocha -Festa Junina e Estiagem
Festa Junina e Estiagem
Por Gelza Rocha

Por Gelza Rocha

Neste ano de 2012, o Nordeste está passando por uma seca, considerada, pelos estudiosos, como uma das piores. Provavelmente semelhante a seca ocorrida em 1982, de fato, de grandes proporções, atingindo o meio físico/biológico com fortes consequências danosas ao homem e à sua produção agropecuária. Antes de 82, evidentemente, outros períodos de prolongada estiagem ocorreram no chamado semiárido nordestino, momentos em que famílias inteiras abandonaram a região, em busca de áreas, no Nordeste ou fora dele, onde pudessem sobreviver. Lembro da seca de 1952, porque ela alcançou o Curimataú e serras locais (Tacima e Dona Inês, respectivamente), onde meu pai possuía fazendas, e os transtornos advindos do fenômeno respingaram na nossa qualidade de vida. Existiram secas terríveis, sendo exemplo dentre as mais conhecidas e propagadas, através de gerações, a de 1877 ou, simplesmente “a seca de 77”, uma das mais antigas registradas em compêndios científicos. Muitos morreram; gente e bicho. Não registradas existiram outras.

 Desta forma, cientificamente falando, o processo formador da estiagem prolongada, é cíclico e, ao longo do tempo, com os mais diferentes estudos realizados sobre o tema, adquiriu-se um conhecimento profundo referente, não apenas ao fenômeno em si, a seca, mas, principalmente no que diz respeito às causas e aos mecanismos que dão origem e movimento às secas do Nordeste. Os estudos climatológicos dispõem, atualmente, da mais alta tecnologia para desenvolver suas pesquisas. Portanto, pode-se afirmar que, observada uma circunstância x, uma situação y (condições de clima, temperatura oceânica, massas de ar, etc.) a seca pode ser prevista com antecedência, podendo-se, pois, utilizar-se de meios adequados para amenizar seus efeitos devastadores, sobremaneira, na produção agrícola e pecuária, esteios da economia regional e sobrevivência dos habitantes mais pobres do árido Nordeste.

O Ministro José Américo de Almeida em A Paraíba e seus Problemas, e, mesmo em seus romances, tratou da questão à luz de suas idéias inteligentes e utilizando parâmetros de então. Foi o grande planejador e executor dos açudes salvadores, o incentivador de técnicas avançadas como a irrigação. A transposição do rio São Francisco, como questão vital, para a solução de problemas relacionados à seca é uma teoria defendida desde o império de Pedro II, que somente no Governo Lula viu-se concretizado em obras, que prosseguem no atual governo Dilma, devagar; sem parar, mas ainda sem a prioridade que demanda. O fenômeno da seca é um processo natural típico da região nordestina, e não pode ser extinto por vontade política ou por decreto. No entanto, por vontade política e, se necessário, mesmo por decreto, pode-se e, deve-se, adotar políticas de enfrentamento às conseqüências da estiagem, alcançando soluções capazes de melhorar as condições econômicas e sociais do chamado polígono da seca, que engloba os estados nordestinos e o norte do estado de Minas Gerais. Ao se olhar para a população do semiárido apenas quando acontece o fenômeno, repete-se o mesmo erro de sempre: decreta-se estado de calamidade pública, repassam as verbas federais, abrem-se frentes de trabalho, ofertam-se cestas de alimentação aos mais carentes... E nada mudará até a próxima estiagem prolongada. Assim tem acontecido há décadas e décadas. A “Indústria da Seca” sempre tem retorno garantido para alguns “privilegiados”. 

As festas que celebram os Santos Antônio, João, Pedro e Santana, coincidem com o tempo de fartura de milho e feijão verde, o mês de junho e julho. O plantio do produto símbolo dos festejos juninos, o milho, se dá com a chegada das chuvas de março, em muitas das regiões. Quando estas chuvas não chegam ou escasseiam ao mínimo, o plantio é afetado, e pode nem ser efetuado se a seca se estabelecer plenamente. Evidentemente, as comemorações típicas da região, dentre elas a mais tradicional, a festa de São João, não apresentam o mesmo vigor dos tempos de bonança. Entretanto, não há seca que apague o fogo das belas fogueiras nos terreiros de sítios e fazendas, e nas ruas das cidades interioranas. Porque a fogueira é vida! Retrata a alma do nordestino forte, destemido, teimoso... Tanto quanto são o Carnaval e suas escolas de samba para o carioca, são o São João e suas fogueiras para o nordestino. Anos atrás, em nome da saúde do planeta, surgiram alguns movimentos ambientalistas (!), alguns deles do eixo sul/sudeste, tentando proibir as fogueiras. Não conseguiram, felizmente. Não vou adentrar nesta questão, pois, existem tantos excessos e tão pouca informação científica em certas afirmações (de ecologistas e outros istas) sobre a ação do homem favorecendo o “aquecimento global”, o “derretimento de geleiras”, o “avanço do mar”, que só em espaço pertinente é possível considerá-la. Fiquemos com nosso São João e com nossa seca, ambos, arraigados no nosso universo semiárido, como tradição cultural o primeiro, e fenômeno natural, o segundo.

Se antes, os ecologistas (!) pretenderam nos privar das belas e mágicas fogueiras, agora são os políticos que travam uma batalha, com discursos demagógicos, para desfigurar nossos festejos juninos, alegando que com uma seca castigando a região, será um descalabro gastar dinheiro com festa de São João, e de outros santos. Além do caráter eleitoreiro da propositura, há de se perguntar: por que o nordestino, além se sofrer com a seca, ainda tem de amargar um São João de tristezas? E essa verba pública que será negada aos festejos será mesmo usada em benfeitorias que minimizem os efeitos da seca? Porque, se até agora, mesmo tendo consciência de que o fenômeno da seca é cíclico e previsível, os políticos não se mobilizaram, de fato e de modo contínuo, para acelerar as obras de transposição das águas do São Francisco (na Paraíba está mais lento que tartaruga), e sequer, pelo menos, estenderam os benefícios da irrigação pelas áreas secas, como posso crer que agirão neste sentido? Considere-se, ainda, que verbas oriundas de um Ministério de Turismo, por exemplo, não podem ser desviadas para outro fim. A empresa privada também pode ajudar. O que é completamente dispensável é o gasto exorbitante com estrelas de fora, quando na nossa região o que mais existe é artista de primeira qualidade, ligado às raízes profundas do nosso forró e baião. Gonzagão não deixou seu Nordeste órfão de sanfoneiros, forrozeiros, zabumbeiros, cantores, compositores; eles seguem seus passos e nos deixam orgulhosos com a boa música que nos tem presenteado. O rol de nomes é imenso...

A seca sempre foi, e continua sendo, um balcão para negociar voto e angariar apoio de prefeitos e deputados, em tempos de eleição. E, para encher os bolsos dos desonestos, elemento abundante na seara política, pelo que temos visto e ouvido diuturnamente, na mídia.

O nordestino não tem medo da seca. É capaz de enfrentá-la com destemor. As autoridades responsáveis têm a obrigação de oferecer-lhe as ferramentas imprescindíveis para que ele possa sobreviver com dignidade, seja em tempo de inverno bom, seja em tempo de estiagem prolongada.

O que não podem, jamais, é atrelar o problema da seca às suas tradições de fé e de cultura. Santo Antônio, São João, São Pedro e Santana, iluminados pelas fogueiras ardentes, são venerados nas novenas das Igrejas, e também festejados nas ruas, nos palanques, nas tendas, ao som de muito forró e de muita alegria. Debaixo de chuva grossa ou sob o céu azul e estrelado dos tempos secos.

A seca e as festas juninas são do nordestino. Que as tratem com o devido respeito.

Viva São João!

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