Gelza Rocha - Brinquedo Criminoso
Brinquedo Criminoso
Por Gelza Rocha

Por Gelza Rocha

Em minhas recordações infantis, o colorido das “corujas” (pipas de hoje) tomava conta do céu, bailavam em movimentos, ora suaves, ora em verdadeiras cambalhotas, até que, não raro, caíam de ponta no chão para alvoroço da garotada.

Construídas em casa pelas próprias crianças, algumas delas verdadeiros azes na feitura do brinquedo, as “corujas”, “papagaios”, ou “pipas” (não importa o nome) utilizando papel seda de cores diversas, talisca de madeira ou gravetos bem lixados, além de linha ursa e retalhos formando a cauda, representavam um dos entretimentos mais significativos, desde a fase inicial do seu feitio até seu instante apoteótico enfeitando o firmamento. No quintal da minha casa em Araruna, presenciei, muitas vezes, reunião dos meus irmãos e amigos, em tarefa solidária enquanto operários desta “fábrica de alegria”...

Alegria, sim! Somente alegria e algazarra. O mais dramático que poderia ocorrer durante a brincadeira, era perceber-se enroscadas umas com as outras, as linhas das corujas, ou mesmo suas caudas, ou então o emaranhado nos ramos das árvores, interrompendo o seu vôo magnífico pelos ares. Como consequência do erro, apenas um muxoxo zangado, um impropério do tipo “êita que merda” tu fizesse, fulano! Um bate boca normal, de meninos chateados logo esquecido, para, pouco tempo depois, juntos, retomarem o folguedo.

Tempos depois, morando em João Pessoa, revivi a época desta brincadeira, vendo outras crianças, meus sobrinhos, fabricando suas pipas para, tendo minha filha como coadjuvante, empiná-las pelos ares da praia do Bessa. E tudo era só alegria!

Creio ter ouvido, pela primeira vez, a notícia de que alguém morreu vítima de uma linha de pipa, há mais ou menos uns dois anos. O fato aconteceu no Rio de Janeiro e não lembro os detalhes. Guardo na lembrança, entretanto, a minha surpresa! Morrer por causa de uma linha de pipa? É que ainda no meu dicionário, a palavra “pipa” significava brinquedo, brincadeira, folguedo... Alegria, alegria! Tal qual canta Caetano.

Naquela ocasião (do acidente no Rio) fui apresentada ao tal “cerol”. As crianças e também os jovens adeptos do brinquedo (!), agora usavam pó de vidro misturado com cola e passavam a mistura na linha. A criminosa idéia foi adotada por muitos e espalhou-se por todo Brasil, continuando até hoje. E outras mortes ocorreram em consequência da brincadeira (!).

A semana passada, uma moça de Santa Rita, que se dirigia, de moto, ao Mercado Central de João Pessoa, em busca de produtos para abastecer a lanchonete de sua propriedade, encontrou, não “uma pedra no meio do caminho” (meu caro Drumond), mas uma linha de pipa enrijecida com o criminoso cerol, que lhe cortou a garganta e a matou na hora. É o tipo de morte mais lamentável que pode existir, especialmente para seus familiares. Uma pessoa com saúde, jovem, trabalhadora, com perspectiva de melhorar a sua e a vida dos seus, segundo afirmou a mãe da mesma, em entrevista na TV, ter a vida ceifada de maneira tão irresponsável!

Além das lamentações, da solidariedade à dor da família, da perplexidade com o fato (não é o primeiro, nem será o último), a sociedade deve fazer valer seus direitos de ir e vir com segurança, e, neste caso concreto, solicitar ou exigir a quem de direito, uma Lei proibindo o uso do tal cerol, que transforma em arma criminosa um brinquedo inocente.

Li em algum jornal sobre a proposta de um vereador da capital, que trata da proibição do uso de pipas na cidade de João Pessoa. A mesma teria sido rejeitada porque não haveria condições de fiscalização. Um absurdo essa desculpa de não poder fiscalizar. Não tenho certeza de que tenha acontecido assim. De todo modo, a meu ver, esta

proposta não é a ideal. Não se deve proibir o uso de pipas, apenas limitar as áreas propícias para elas. O fundamental e urgente é proibir o uso de cerol e punir quem desobedeça. A fiscalização aparece como conseqüência da lei. Ou será que a morte de um ser humano, no Brasil, tem menos importância que a de um tatu? O IBAMA, por exemplo, não tem problemas de fiscalização. Alguns anos atrás, agiu célere, enviou fiscais à caatinga e puniu no rigor da lei (e bota rigor nisso!) com prisão inafiançável, o “seu Zé”, habitante do sertão pernambucano que caçou e matou um tatu. Portanto, o problema não é carência de fiscalização. É carência de prioridade aos direitos do ser humano.

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