Gelza Rocha - Eu cantei “Atirei o pau no gato”. E vocês?
Eu cantei “Atirei o pau no gato”. E vocês?
Por Gelza Rocha

Por Gelza Rocha

Não é mais novidade para ninguém a polêmica gerada em torno dessa chatice que é o “politicamente correto”. Pessoalmente, deixei de falar no assunto por considerá-lo sem qualquer valia no aprimoramento, seja de sentimentos, seja de comportamentos da sociedade. E, minha tolerância para com esse absurdo, se ainda existia alguma, acabou quando soube da proposta indecente de censurar textos do irretocável Monteiro Lobato.

Há alguns dias atrás, em Recife, eu me encontrava na sala de espera de um consultório médico e, ao meu lado duas mães discutiam sobre uma questão que parecia de somenos importância para elas. O filho de uma delas, de apenas oito anos pedira, como presente de aniversário, um revólver de verdade, pois desejava dar um tiro em um coleguinha que lhe tomara o lápis. Ambas sorriam muito com a “astúcia” da criança. E, para meu espanto ouvi a mãe dizer: “Ele brinca desses jogos mortais na internet, para botar pra fora a agressividade. A psicóloga recomendou”. Que me desculpe a psicóloga, se ela não falou a verdade...

Foi então que escutei o que não desejava: menção ao politicamente correto. A outra mulher, deixando o riso de lado, comentou: “Será que na escola do teu filho ainda cantam “atirei o pau no gato? Porque isso é um incentivo à violência! Ensina a maltratar os animais e acaba incentivando a matar gente também! Acho muito correto proibir esse tipo de brincadeira.”

Veio-me à lembrança os momentos descontraídos da minha infância, quando eu e mais um punhado de crianças cantávamos, alegremente, “ciranda, cirandinha...”, “onde está a margarida...” e “atirei o pau no gato...” O meu pensamento andou mais para frente e resgatou o tempo escolar da minha filha, quando também ela e colegas, no curso Jardim de Infância, dentre outras canções infantis mais modernas, ainda entoavam o agora abjeto, pernicioso, violento “atirei o pau no gato”.

Há tempos atrás, os defensores do “politicamente correto” insurgiram-se contra esta cantiga, justificando o alto teor de violência contido na letra, o incentivo a maus tratos aos animais, e outro tanto de besteirol... E, realmente, o “atirei o pau no gato” foi banido de escolas, de festinhas infantis; os pais alertados sobre o poder quase assassino desta cantiga... Ao contrário dos tais “jogos mortais” acessados pela internet, ou adquiridos em lojas, que continuam deleitando a juventude.

Ainda no consultório, enquanto as duas amigas teciam loas aos censores da “violenta” cantiga de roda, voltei ao tempo presente e fiz considerações - para mim mesma- a respeito do que acontece atualmente nas escolas, nas ruas, nos lares... As crianças e os jovens certamente desconhecem essa canção. Nem brincam mais de cantiga de roda... Sabem de cor letra e música funk, hap, rock pauleira... Dependendo das letras as mensagens podem ser inofensivas e também irrelevantes, porque a maioria delas não diz coisa com coisa. Já ouvi algumas violentas, desrespeitosas com a religião, com os pais... Não sei de censura a nenhuma.

Faço uma avaliação do que foi a juventude (e mesmo a infância) daquela geração que cantou livremente, em calçadas, em pátios de escolas, em festas infantis, “atirei o pau no gato”, e a juventude (e a infância também) da geração que nunca cantou, ou sequer ouviu esta cantiga. A conclusão, ao meu pensar, é que a primeira se configura como uma juventude e infância de costumes e atitudes normais, sadias. Dificilmente (nunca tive conhecimento), o surrupio de um lápis, um puxão de cabelo, um empurrão, acabou em tiro, facada, morte, tal qual se vê hoje, quase diariamente, Brasil afora. Os jovens se matando por besteira. Crianças pondo em prática jogos mortais acessados pela internet. Alunos esbofeteando professores por causa de uma nota baixa...

Aí, reflito. Não teria atuado o “atirei o pau no gato” como uma espécie de catarse? Se todo ser humano tem um pouco do instinto animal primitivo, esse lado, as vezes, um tanto perverso acaba se expressando, com maior ou menor conseqüência. Por exemplo, conheço pessoas boníssimas que, quando criança, arrocharam o pescoço de um pintinho indefeso; outras que matavam um sapo para ouvir o estouro... E outras “astúcias” do tipo. Todas estas pessoas que eu conheço- e, certamente, outros milhares que não conheço- cantaram e ensinaram aos filhos “atirei o pau no gato”. E nenhuma se transformou em assassino. Sequer mataram um gato...

Portanto, esta sandice em julgar como de alta periculosidade às crianças, o entoar de “atirei o pau no gato”, não faz o menor sentido. Reflete tão só esta mania que alguns têm de se considerarem donos da verdade, transformadores de costumes e tradições considerados, por eles, perniciosos, preconceituosos... Essa idéia parte de quem imagina que, somente, ao mudar um vocábulo, apaga-se verdades cristalinas, como a existência de pessoas de pele e feições distintas, ou seja, brancos, negros, albinos, pardos, mulatos, mestiços, amarelos, caboclos, índios... Por causa desse politicamente correto, atualmente, é quase crime hediondo chamar um negro de negro, por exemplo; é afro-descendente! Dessa forma, acabam mesmo é incentivando o preconceito racial. Ou o que são as injustas cotas nas Universidades, se não a discriminação pela cor da pele? Politicamente correto seria um ensino básico de qualidade, que proporcionaria iguais possibilidades de ingresso ao ensino superior para todos os estudantes.

Politicamente correto é trabalhar com afinco para que todas as nossas crianças e jovens possam ler Monteiro Lobato, para se encantarem com o seu fabuloso Sítio do Pica Pau Amarelo, em sua edição original, sem cortes, sem censuras. Ler bons autores, isto sim, é fundamental ao aprendizado, à educação, à formação da personalidade.

Em lugar de censurar, proibir, devem é fazer coro com as crianças e cantar, alegre e livremente:

“Atirei o pau no gato, tô,tô

Mas o gato, tô, to

Não morreu, reu, reu...

Dona Chi, c acá

Admirou, c ecé

Do miau, do miau

Que o gato deu... Miau...

Perceba-se que o gato nem morre, nem nada!

Eu, felizmente, cantei “atirei o pau no gato”.

Que volte a criançada a brincar de atirei o pau no gato. Quem sabe, a cantiga tenha mesmo a força de uma catarse, e complementando uma educação de qualidade nas escolas, contribua para que os jovens deixem de matar outros jovens?

E, para concluir este texto, quero deixar claro aos leitores que, naquele dia, no consultório, não me controlei e acabei por entrar na conversa das duas mulheres, deixando para que elas refletissem, duas perguntas simples:

Vocês não acham que brincar de atirar um pau no gato, cantando uma cantiga de roda é bem menos violento do que brincar de matar uma pessoa, visualizando o ato, nesses chamados jogos mortais?

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