Iremar Bronzeado -AUTÓPSIA DO MARXISMO
AUTÓPSIA DO MARXISMO
Por Iremar Bronzeado


AUTÓPSIA DO MARXISMO
Iremar Bronzeado

“Dá-se por vezes, crédito a Karl Marx pelo expurgo dos elementos inúteis do pensamento e materiais socialistas (que previamente caracterizavam esse pensamento e esses materiais) e por colocar de uma vez por todas o dogma socialista em um plano científico igual ao de qualquer outra ciência. O fato de ele ter realizado esse feito depende do roconteur da história, pois, na realidade, Marx significa tudo para alguns e absolutamente nada para outros.

                        John Fred Bell

 


1. INTRODUÇÃO: O POSITIVISMO E A LIBERDADE

Assim como se faz com os seres humanos, quando morre um sistema filosófico, uma ciência, uma ideologia, uma civilização, sobrevêm ondas periódicas de curiosidade sobre os motivos e as causas que determinaram o decesso. O cadáver é mil vezes exumado, dissecado, esquadrinhado, até que se chegue a conclusões relativamente seguras sobre a causa mortis, informação importante para dirimir especulações históricas e disputas jurídicas, enriquecer a etiologia, aperfeiçoar a farmacopéia e prevenir contra as causas sinistras de tais fatalidades. E quando morrem tais coisas? - Quando a prática histórica se desenvolve em sentido diferente, ou oposto, ao previsto e calculado; quando as explicações oferecidas sobre os mistérios do mundo, da vida e da morte já não respondem às impertinentes e obstinadas indagações da inteligência humana; quando dos postulados, normas e leis do corpo doutrinário estabelecido começam a emergir aporias históricas, antinomias lógicas e práticas desumanas cruéis, funestas e desastrosas. Ou seja, começam a produzir barbáries piores do que as que justificaram sua criação.

É a inquirição que pretendemos aqui fazer, numa primeira e perfunctória aproximação, em relação ao marxismo, a última grande ideologia, cujo atestado de óbito acaba de ser passado pelos acontecimentos mundiais deste último meio século, balizado historicamente pela queda do Muro de Berlim, em 1989. A proximidade cronológica do objeto de análise prejudica, com certeza, a precisão e a assertividade das hipóteses levantadas. Contudo, a intensa aceleração histórica a que hoje estamos submetidos reclama diagnósticos cada vez mais rápidos - ainda que sob o risco de alguma imprecisão - sobre as causas dos acontecimentos, uma vez que, para não repetir a farsa da repetição histórica, decisões precisam ser tomadas em períodos de tempo cada vez mais curto.

O marxismo incorpora-se, pela via do cientificismo positivista, ao grupo das várias seitas dogmáticas e totalitárias que fizeram má leitura do racionalismo iluminista e seus ideais libertários, convertendo-se em maus herdeiros do Século das Luzes. A doutrina do sedizente socialismo científico nasceu da preocupação legitimamente humanista com as desigualdades sociais e com as miseráveis condições de vida nas cidades livres, que se formaram com o desmantelamento do regime feudal. A indigência absoluta, dispersa pelas miseráveis choupanas das aldeias feudais, migrou rapidamente para os novos burgos, onde começava a se concentrar a nascente produção industrial. Os servos da gleba, aproveitando o enfraquecimento dos príncipes ante a força impetuosa da burguesia ascendente, fugiam do extorquidor domínio senhorial a que estavam secularmente submetidos, em busca da liberdade de ir e vir, da livre escolha do que fazer, na esperança de uma vida melhor e mais abundante. Contudo, a produção industrial, ainda incipiente, não era capaz de absorver condignamente toda aquela oferta de força de trabalho oriunda da gleba. O resultado foi o inchamento dos burgos, que se transformaram num caldeirão de miséria absoluta, tal como ainda hoje acontece nos países como o Brasil, que, por razões diversas, continuam a resistir aos vitoriosos ditames políticos e socioeconômicos da moderna economia liberal de mercado. No coetâneo contexto liberalizante do Iluminismo, a pobreza e seu cortejo de horrores adquiriu maior visibilidade, transformando-se em núcleos de explosão social, consequência invariavelmente verificada quando de qualquer ameaça generalizada aos direitos humanos de viver, de ser feliz, de ser reconhecido como pessoa, livre, soberana e portadora dos valores supremos na escala da criação.

Entrementes, o progresso vertiginoso das chamadas ciências da natureza - física, química, biologia - que permitiu as maravilhas tecnológicas da Revolução Industrial, levou os pensadores da época a acreditar que todos os problemas do homem seriam resolvidos pela quantificação científica experimental. Inclusive os de ordem política, social e econômica. Um otimismo cientificista de cunho fortemente anti-religioso e anti-metafisico dominou o pensamento de todo o século XIX e em grande parte também do século XX. A promessa de salvação pela via religiosa foi substituída pelas inabaláveis certezas soteriológicas da ciência moderna. Às impalpáveis verdades das especulações metafísicas sucederam os dogmas deterministas das imutáveis leis positivas das ciências da natureza, fundamentados na suposta concretude dos fatos de uma suposta realidade empírica, material e objetiva.

 


Mais de Iremar Bronzeado
Veja mais...
PORTAL 100 FRONTEIRAS
Copyright 2011/2015.
Todos os direitos reservados
João Pessoa-PB
Ideias Multimidia