Iremar Bronzeado -2. KARL MARX: UM GÊNIO EQUIVOCADO
2. KARL MARX: UM GÊNIO EQUIVOCADO
Por Iremar Bronzeado


Ninguém melhor do que genial pensador judeu-alemão Karl Heinrich Marx (1818-1863) encarnou com tal perfeição esse messianismo positivista, iniciado pelo filósofo francês Augusto Comte (1789-1857), e continuado por uma plêiade de estudiosos, que, até hoje tentam sem sucesso enclausurar a ontológica imprevisibilidade das ações humanas nos dogmas "científicos" de uma pretensa física social, hoje mais conhecida pelos eufemismos menos chocantes de sociologia ou ciências sociais.

Marx, levando o positivismo ao paroxismo de uma seita dogmática, tentou aplicar ao desenvolvimento histórico da sociedade o mesmo rigor metodológico das ciências naturais, estabelecendo axiomas, premissas e corolários aparentemente evidentes por si mesmos, para daí deduzir racionalmente todo um travejamento teórico que explicaria o passado, o presente e o futuro de toda e qualquer formação social, situando-as hegelianamente na totalidade de um processo histórico universal, evolucionista e teleológico. Tomou como fundamento primeiro a teoria do valor-trabalho, haurida como verdade apodítica, na fonte da chamada economia clássica inglesa (Smith e Ricardo), e dela inferiu os principais princípios axiomáticos de sua doutrina: a mais-valia, a luta de classes, a exploração e alienação do trabalho, que, por sua vez, se constituíram nas vigas mestras sobre as quais se desenvolveu o gigantesco arcabouço teórico da ideologia marxista, na formulação de seus fanáticos seguidores, em parte, ironicamente rejeitada pelo próprio Marx.

Na verdade, o que Marx fez foi - com o honesto desejo de explicar o inexplicável - simplificar algo extremamente complexo, diria mesmo, infinitamente complexo, como são o pensamento, as ações, as emoções e as relações humanas. Seguindo os padrões da física e da matemática, como era comum aos positivistas da época, tentou estabelecer, no campo do comportamento humano, verdades apodíticas intuitivas, aquelas que, por serem completamente claras e evidentes, podem ser tomadas como obrigatoriamente consensuais quanto à sua necessidade e universalidade. A partir delas, deduziu todas as outras “verdades”, que deveriam servir como guiamento para a ação dos homens sobre a natureza, sobre a sociedade e sobre si mesmos, bem como para a obtenção de novos conhecimentos necessários à satisfação de sua nata curiosidade e de seu permanente desejo de superar os padrões de atualização (sempre incompleta) de sua situação de vida.

Nada de errado em se buscar tendências, permanências, continuidades causais, ou mesmo leis (melhor dizendo, quase leis) que possam indicar o melhor caminho na tarefa sisifeana de melhor compreender o fenômeno humano, na infinitude de sua complexidade. Tentativa de satisfazer a inarredável compulsão de caminharmos em direção à conquista de algo mais, sempre mais, muito mais, até cairmos no glorioso abismo de uma inefável transcendência, que nos é dada pela clara percepção da necessidade vital de termos finalidade e sentido para a vida. Mas, por conta desse afã explicativo, dessa paixão em conquistar um fim, não se pode incorporar impunemente à errância hipotética da analítica social a dogmática dura e determinista das ciências naturais, no vão propósito de transformá-la em ciência positiva, com leis, equações e relações universais e necessárias de causa e efeito. Qualquer tentativa de confinar o fenômeno humano num sistema de leis e axiomas pretensamente científico da realidade social termina por se constituir numa simplificação grosseira de fatos infinitamente complexos, dos quais podemos apenas, por intuição, divisar alguns fatores de continuidade e hipotéticas relações de causa e efeito, assim mesmo, apenas naqueles fenômenos mais próximos à parte física e biológica do homem, necessariamente subsumida às leis universais da natureza.

Mas o homem não se define pela sua dimensão material, somática, biológica, senão como ser pensante, metafísico, espiritual, cultural, consciente, racional (que nome se lhe queira dar), produtor das ideias e dos conceitos que organizam e condicionam o conhecimento, e, por consequência, possibilitam, através do logos e da razão, existência e sentido aos entes e seres do mundo objetivo, dito real e concreto.

O espírito tudo pode em sua dimensão imaginativa. Nada pode deter a liberdade da imaginação. Daí dizer-se que espírito e liberdade tem a mesma dimensão. Daí a afirmação kantiana de que a liberdade é um conceito negativo, ou seja, algo cuja aproximação fenomenológica se dá muito mais pelo que não é do que pelo que é. Algo que, pela infinitude de sua dimensão, fica em sua quase totalidade, além da compreensão finita do homem. Em linguagem kantiana, ela estaria inserta entre as "ideias regulativas da razão", que estão além da experiência possível, "conceitos racionais de perfeições, dos quais é sempre possível se aproximar, mas nunca alcançar completamente".

Assim, não incorre em falso juízo quem afirma ser a liberdade a essência do ser humano e, a conquista desta, seu fim último e supremo, a razão de ser de sua venturosa saga sobre a face da terra. Podemos não ter uma definição clara e definitiva de liberdade. Mas sabemos que o ser livre é aquele que só obedece à lei que ele próprio racionalmente elabora em sua mente e em seu coração, ou seja, não tem sua autonomia constrangida por qualquer tipo de heteronomia. O ser livre não domina nem é dominado. Contudo, como sua sobrevivência depende da sobrevivência da espécie - e vice-versa - ele se junta aos outros seres para, através do dialogamento das inevitáveis contradições de interesses individuais e grupais, definir, em comum acordo, caminhos, sonhos e objetivos possíveis. Como resultantes consensuais desse exercício espontâneo da livre vontade de cada indivíduo, surgem os costumes, as normas, a Lei, a "vontade geral" e o "contrato social", consubstanciados no conceito formal de Estado.

O que move os indivíduos, em grupos ou isoladamente, não são apenas os interesses vitais, materiais e biológicos, mas, preponderantemente, as paixões, as crenças, a fé, o sonho, a utopia. Estes são produtos da livre imaginação e fazem parte do esforço permanente de superação do ser por um dever-ser, criado a partir da insatisfação com o próprio ser, e cuja realização está sempre aquém das aspirações humanas. Está no fundamento da natureza consciente do homem querer sempre ir além do que é. A chama do dever-ser é como que o alimento do seu eu espiritual, do seu ethos. É o que o faz caminhar permanentemente em busca do melhor. É o que o faz modificar a natureza e a si mesmo, em busca da perfeição, sempre almejada mas nunca alcançada em plenitude. A ideia meliorista de progresso se confunde portanto com a própria temporalidade da natureza do homem, o que a faz, nele, perpetuamente presente.

Tudo que é livre é imprevisível. Uma vez que ser livre significa, em primeira instância, seguir, ao bel-prazer, a espontaneidade de seus próprios interesses e impulsos subjetivos, a maioria deles insubmissos e impermeáveis à compreensão de outros sujeitos. Justifica-se, assim, falar da errância e da incoerência comportamental deste ser, único privilegiado com o usufruto da razão e da liberdade. Mas tais interesses e impulsos tornam-se já, por si, condicionantes da liberdade humana, uma vez que, para fugir ao choque mortal de vontades antagônicas, eles se subsumem ao interesse maior de preservação da vida dos indivíduos e da espécie, pelo respeito à liberdade do outro. Perscrutando e relacionando entre si condicionantes desse tipo, é que os teóricos ou analistas sociais - os historiadores, os sociólogos, os politicólogos - podem estabelecer alguns princípios e modelos regulativos que lhes permitem encontrar caminhos, inclinações, tendências, algumas poucas permanentes, outras de curta ou média duração, e até chegar a leis e relações de causa e efeito, sempre brandas e portadoras de um acentuado grau de incerteza, nada comparável à universalidade e à necessidade mecanicista dos princípios e leis das ciências exatas e da natureza.

Querer, pois, encurralar as ações e o destino humano na rígida previsibilidade de leis científicas é no mínimo uma inconsistência lógica decorrente da presunçosa negação da transcendentalidade metafísica do sujeito do conhecimento, do sentido e do significado da vida, bem como do desconhecimento desdenhoso do papel da liberdade, da imaginação e das livres determinações do espírito, como guia e motor maior das ações humanas, das instituições sociais e do movimento da história.
 

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