Iremar Bronzeado -3 - O COCHILO DO GÊNIO
3 - O COCHILO DO GÊNIO
Por Iremar Bronzeado


 

Errar é humano, afirma apoditicamente a filosofia da vida. Os gênios são homens, e, portanto, também erram. O problema é que, quando tropeçam, seus erros têm um poder tão destrutivo e demolidor quanto a magnitude da racionalidade e criatividade de suas privilegiadas mentes. No caso de Marx, o erro, apesar de aparentemente salvífico e regenerador, tornou-se, destrutivamente apocalíptico. Lembremos que todas as guerras do mundo contemporâneo, com todo o seu cortejo de horrores e genocídios, foram, de alguma forma, suscitadas pelo ambiente histórico-ideológico criado pelo marxismo.

É praticamente impossível compreender como inteligências tão brilhantes, intelectos tão racionais e mentes tão percucientes como as de Marx e seguidores seus como Engels, Lenin, Trotsky, Rosa de Luxemburgo, Gramshi etc. não tenham atentado para o erro essencial contido no fundamento primeiro de sua doutrina, a luta de classes. Marx e Engels tropeçaram feio quando lançaram, na primeira frase do seu famoso Manifesto Comunista o dogma fanaticamente adorado por todos os seus seguidores: “A história da humanidade tem sido a história da luta de classes”. O problema é que eles não perceberam o que qualquer aluno mais inteligente de curso ginasial poderia ter descoberto: que, a luta de indivíduos contra indivíduos precede em muito a luta das classes por eles formadas. Se alguém participa de algum desforço coletivo pela melhoria de sua classe social, não é pelos belos olhos desta abstrata senhora impossível de ser encontrada em qualquer esquina, e sim pela melhor satisfação de suas necessidades concretas e puramente pessoais. O mesmo acontece quando ele participa de qualquer outra coletividade. Ou seja, as coletividades, entes abstratos, existem em função dos indivíduos, entes concretos, e não, ao contrário, os indivíduos em função da sociedade. O único homem que renunciou aos seus próprios interesses em função do interesse dos outros foi considerado blasfemo, louco furioso, endemoniado, e foi, por isso, condenado à morte vil na cruz. “A história da humanidade é a história da luta entre os indivíduos que dela participam”. Esta é o dístico que Marx e Engels deveriam ter colocado no começo do primeiro parágrafo do seu famoso manifesto. Talvez assim tivessem evitado o estrondoso fracasso prático de suas tão bem elaboradas teorias.

Este foi o primeiro grande erro de Marx, e por consequência, do marxismo. O segundo foi se arvorar em se constituir na primeira ciência completa e acabada da história e da sociedade, com princípios axiomáticos e leis universais necessárias, supostamente capaz de, com foros dogmáticos de certeza absoluta, explicar com inultrapassável clareza, todo o passado, todo o presente e até mesmo o futuro do homem e de suas instituições, constituindo-se, destarte. no climax do movimento positivista iniciado por Augusto Comte e, até hoje, venerado por uma inumerável plêiade de abnegados pensadores, sobretudo na academia, apesar dos redundantes fracassos na prática técnica e moral deste desastroso cientificismo social.

A aplicabilidade transformadora de que se quer dotada toda ciência dá lugar a variadas técnicas e engenharias, que, no caso das ditas "ciências sociais", traduz-se em manipulação dos indivíduos e das coletividades, pondo-as a serviço de ideologias totalitárias ou de alguma tirania pessoal e caprichosa. Chega-se no mais das vezes ao pavoroso conceito de "engenharia social", que faz o indivíduo se sentir como tijolo a ser assentado, com argamassa ideológica, nas paredes das utopias criadas pelo delírio prognosticante de algum profeta da positividade.

É o que a história tem exaustivamente demonstrado. Todas as vezes em que se pretendeu aplicar o mecanicismo cientificista na solução dos problemas de qualquer grupo social, o resultado foi o subjugamento da sociedade ao totalitarismo comandado por tiranos, tiranetes e oligarquias burocráticas, levando-a a resultados trágicos, beirando muitas vezes a plena barbárie. Foi o caso de todas as experiências fascistas deste e de outros séculos, aí incluídas as tentativas do sedizente "socialismo científico", bem como a atual tecnocracia social-democrática, que, na falta de uma democracia liberal mais fortemente participante e representativa, retarda e desencaminha o desenvolvimento dos chamados países emergentes, infelicitando suas populações no purgatório das incertezas e no receio estressante de barbáries apocalípticas.

Há uma ressalva a ser feita antes de continuarmos nossa árdua tarefa de dissecação de um cadáver já em estado de putrefação. Seria uma concessão aos remanescentes marxista, que protestam veementemente quando o profeta de seus dogmas é associado ao positivismo. Contudo, ninguém pode negar que, tanto Comte quanto Marx, eram melioristas teleológicos e acreditavam no progresso como algo inerente à natureza da espécie humana. Ambos também acreditavam que uma ciência social com a mesma exatidão das ciências da natureza, poderia levar a uma engenharia social, que permitiria a construção imperativa de uma "sociedade científica" harmoniosa e sem conflitos, como conflitos não há entre os tijolos de um prédio edificado seguindo as técnicas científicas da engenharia civil. A única diferença entre Comte e Marx , conceda-se, é que o primeiro pretendia que o uso de que liderarama física social permitiria o progresso cientificamente controlado, dentro da ordem, pacificamente, sem as revoltas e conflitos sociais que tantos prejuízos trouxeram aos povos nos séculos XXVIII e XIX. Daí a palavra de ordem “Ordem e Progresso”, adotada por Comte, e transcrita, com muito mau gosto, para o véu estrelado da bandeira nacional, pelos positivistas que lideraram a proclamação de nossa república. Marx, ao contrário, queria usar sua “ciência”, que ficou conhecida como “materialismo dialético”, para acirrar ainda mais os conflitos através de uma feroz “luta de classes”, que levaria finalmente à grande revolução social dos trabalhadores e, por consequência, à sociedade cientificamente estabelecida e controlada, rica, equilibrada, sem guerras, sem conflitos, fraterna, igualitária, sem pobreza, sem miséria, sem classes sociais. Esta estratégia se constitui num grande calo ético do marxismo: a imoral e ilusória justificativa do uso de meios violentos para a obtenção de bem-aventuranças; a semeadura do ódio e da guerra para se obter a paz. Ambos, contudo, apontavam para o fim da história numa sociedade perfeita, construída e controlada pelo rigor das técnicas científicas.

A segunda disfunção errônea e nefasta do marxismo se deu no plano de seu paradigma pretensamente científico, ao tomar como fundamento de sua doutrina política e econômica a teoria do valor trabalho, emprestada, como já mencionamos, de Smith e Ricardo. A criação de valor e a formação do preço das mercadorias foi tomada, desde o início da moderna análise econômica, como a chave para a compreensão de todo o processo econômico. Era a resposta às perguntas: O que é que faz crescer a riqueza de um indivíduo ou de um país? Qual a origem do valor a mais, que se acumula? O que determina a variação nos preços das mercadorias? Os mercantilistas supunham que a riqueza provinha do acúmulo de metais preciosos, uma vez que acreditavam que o valor era a estes intrínsecos; já os fisiocratas, liderados por François Quesnay (1694-1774), primo prógono da moderna Economia Política, viam na terra, ou seja, na agricultura, a fonte de todo o valor, que, ao exceder às necessidades básicas de sobrevivência, acumulava-se em forma de riqueza dos indivíduos e das nações. Smith e Ricardo foram, enfim, os primeiros a considerar as mercadorias em geral como as verdadeiras portadoras de valor, sendo este determinado pela quantidade de trabalho social necessária à fabricação daquelas. Assim, podemos dizer grosso modo, foi criada a famosa teoria do valor trabalho, adotada por Marx como o fundamento, a verdade primeira, o cogito, ergo sum de toda a sua doutrina.

Surge assim a possibilidade ovocomlombiana de se quantificar algo que tem existência objetiva mas cuja magnitude depende diretamente das subjetividades individuais. A faca e o queijo para o arrebatamento positivista, que fazia a Europa delirar sobre o futuro esplendoroso, prometido pela ciência a toda a humanidade. Do valor-trabalho se foram deduzindo, num encadeamento lógico perfeito, conceitos como os de mais-valia, acumulação capitalista, exploração do trabalho, luta de classes, alienação do trabalho, modo de produção e todo o imenso instrumental sistêmico em que se transformou o marxismo. Os mistérios do mundo se simplificaram e todos os problemas do homem foram equacionados no traçado revelador de uma nova geometria social. O problema é que a base, o fundamento, o princípio primeiro de todo esse edifício conceitual, em que pese sua aparente clareza na explicação dos fenômenos sociais, continha em si um deslocamento do ponto de distância da perspectiva do conhecimento, que introduzia uma distorção perversa em todos os detalhes da paisagem perspectivada, e ainda ocultando em cones de sombra aspectos fundamentalmente relevantes para a compreensão da totalidade desejada.

A teoria do valor-trabalho teve para a doutrina marxista o mesmo significado que as órbitas supostamente circulares dos corpos celestes em torno da terra como centro do universo tinham para a astronomia ptolomaica. Simplificações de uma parte de um todo bem mais complexo, ambas tiveram, por isso mesmo, um forte apelo explicativo, que, dentro de suas limitações parametrais, responderam satisfatoriamente à maioria das indagações gnosiológicas à época em que apareceram e serviram como fundamento de onde foram deduzidos os princípios e leis pretensamente representativas de uma realidade última. A ciência ptolomaica trouxe uma compreensão bastante avançada do movimento dos astros. Chegou a estabelecer um mapa bastante preciso do movimento dos astros, que permitia a previsão de eclipses, estações do ano. Havia, no entanto, órbitas irregulares e comportamentos excêntricos e totalmente imprevisíveis, que fugiam ao alcance explicativo de suas leis. Da mesma forma que as forças produção e do mercado apresentavam ocorrências intrigantes e inusitadas, que se constituíam em verdadeiros buracos negros em relação à lógica do valor-trabalho.

Copérnico, deslocando o centro do universo, até então conhecido, da Terra para o Sol, e colocando lá o observador, ampliou exponencialmente o poder explicativo da astronomia e, com exatidão matemática, tornou inteligível os muitos fenômenos celestiais que Ptolomeu e seus discípulos não conseguiam explicar. Desde então, a Revolução Copernicana foi tomada como exemplo maior da mudança de paradigma nas chamadas Revoluções Científicas (Kuhn, 1975), emprestando o seu nome para tal mudança em outras áreas do conhecimento. É o caso da Revolução Copernicana em Filosofia, realizada por Kant, quando deslocou a matriz do conhecimento do objeto para o sujeito, demonstrando a transcendentalidade do processo cognitivo. Este novo paradigma marca o início de toda a modernidade filosófica. Do culminância hegeliana do idealismo alemão ao logicismo lingüístico dos analíticos contemporâneos.

A teoria econômica, um dos principais pontos de apoio na alavancagem da razão no mundo moderno, não poderia prescindir, em seu evoluir, também, de uma revolução copernicana, que iluminasse os buracos negros e as limitações cognitivas da doutrina do valor-trabalho.
 

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