Iremar Bronzeado -4 - O BARCO FURADO DO VALOR TRABALHO
4 - O BARCO FURADO DO VALOR TRABALHO
Por Iremar Bronzeado


 

Outro erro nefasto de Karl Marx foi o de positivistamente querer transformar a Economia Política numa ciência exata. Para isso, tomou como fundamento de sua doutrina econômica a teoria do valor trabalho, emprestada, como já mencionamos, dos pensadores ingleses Smith e Ricardo. A criação de valor e a formação do preço das mercadorias foi tida, desde o início da moderna análise econômica, como a chave para a compreensão de todo o processo econômico. Era a resposta às perguntas: O que é que faz crescer a riqueza de um indivíduo, de uma empresa ou de um país? Qual a origem do valor a mais, que se acumula? O que determina a variação nos preços das mercadorias?


Os mercantilistas supunham que a riqueza provinha do acúmulo de metais preciosos, uma vez que acreditavam que o valor era a estes intrínseco. Já os fisiocratas, liderados por François Quesnay (1694-1774), primo prógono da moderna Economia Política, viam na produtividade da terra, ou seja, na agricultura, a fonte de todo o valor, que, ao exceder às necessidades básicas de sobrevivência, se transformavam em riqueza acumulada. Smith e Ricardo, os pais da chamada Economia Política Inglesa, foram, por fim, os primeiros a considerar as mercadorias em geral como as verdadeiras portadoras do valor, e que este era nelas medido e determinado pela quantidade de trabalho social necessária à sua fabricação. Assim, podemos dizer, grosso modo, foi criada a famosa teoria do valor-trabalho, adotada por Marx como o fundamento, a verdade primeira, o cogito, ergo sum de toda a sua doutrina.


Surge assim a possibilidade ovocomlombiana de se quantificar cientificamente o verdadeiro valor das mercadorias, algo que, até então, era considerado inquantificável. Algo que aparentava ter existência objetiva, mas cuja magnitude dependia diretamente da imprevisível e imensurável subjetividade das vontades individuais. A faca e o queijo para o arrebatamento positivista, que fazia a Europa oitocentista delirar sobre o futuro esplendoroso, prometido pela nova “ciência da sociedade”. Do valor-trabalho se foram deduzindo, num encadeamento lógico perfeito, conceitos como os de mais-valia, acumulação capitalista, exploração do trabalho, imperialismo, luta de classes, alienação do trabalho, modo de produção e todo o imenso instrumental sistêmico em que se transformou a ideologia marxista.

Os mistérios do mundo se simplificaram e todos os problemas do homem foram equacionados no traçado revelador de uma nova geometria social. O problema é que a base, o fundamento, o princípio primeiro de todo esse edifício conceitual, em que pese sua aparente clareza na explicação dos fenômenos sociais, continha em si um deslocamento do ponto de visada na perspectiva do conhecimento - como veremos logo adiante - que introduzia uma distorção perversa em todos os detalhes da paisagem perspectivada, e ainda ocultando em cones de sombra aspectos fundamentalmente relevantes para a desejada compreensão totalizante do fenômeno social.

A teoria do valor-trabalho teve para a doutrina marxista o mesmo significado que as órbitas erroneamente circulares dos corpos celestes em torno da terra fixa tinham para a astronomia ptolomaica. Simplificações parciais de um todo incomensuravelmente mais complexo, ambas tiveram, por isso mesmo, um forte apelo explicativo, que, dentro de seus acanhados limites parametrais, responderam satisfatoriamente à maioria das indagações gnosiológicas à época em que apareceram, e serviram como fundamento para a dedução dos princípios e leis pretensamente representativas de uma realidade última e verdadeira. A astronomia ptolomaica trouxe uma compreensão bastante avançada do movimento dos corpos celestes. Chegou a estabelecer um mapa bastante preciso da posição e do movimento dos astros, que permitiu a previsão de eclipses, a periodização das estações do ano e outros fenômenos ligados ao mundo da física celestial. Entretanto, alguns astros ainda apresentavam órbitas diferentes, irregulares, e comportamentos excêntricos, totalmente imprevisíveis, que fugiam ao alcance explicativo das leis estabelecidas pela ciência de então. Da mesma forma como, antes da Revolução Marginalista, os mecanismos das forças produtivas e do mercado, apresentavam ocorrências intrigantes e inusitadas, que se constituíam em verdadeiros buracos negros em relação à lógica da “ciência” ancorada no valor-trabalho.


Copérnico, deslocando o centro do universo até então conhecido, da Terra para o Sol, e situando lá o observador, ampliou exponencialmente o poder explicativo da astronomia e, com exatidão matemática, tornou inteligível os muitos fenômenos celestiais que a ciência de Ptolomeu e seus discípulos não conseguiam explicar, além de ampliar ao infinito o campo de estudo em questão. Desde então, a Revolução Copernicana ficou sendo tomada como exemplo maior da mudança de paradigma nas chamadas Revoluções Científicas (Kuhn, 1975), emprestando o seu nome para tal mudança em outras áreas do conhecimento. É o caso, por exemplo, da Revolução Copernicana em Filosofia, empreendida por Kant, quando deslocou a matriz do conhecimento do objeto para o sujeito, demonstrando a transcendentalidade do processo cognitivo. Enquanto, até então, a metafísica admitia que o nosso conhecimento devia regular-se pelos objetos”, agora “devemos experimentar” e “admitir são os objetos que se devem regular pelos nosso conhecimento”. Este novo paradigma marca o início de toda a modernidade filosófica: aa culminância hegeliana do Idealismo Alemão à Fenomenologia husserliana e ao logicismo linguístico dos analíticos contemporâneos.


Também a teoria econômica, um dos principais pontos de apoio para a alavancagem da razão no mundo moderno, não poderia prescindir, em seu evoluir, de uma Revolução Copernicana que iluminasse os buracos negros e as limitações cognitivas da doutrina do valor-trabalho. Esta revolução consistirá também no deslocamento do eixo valorativo do objeto para o sujeito, característica paradigmática que marca todo o pensamento moderno. O valor das mercadorias não mais é dado pela medição objetiva do tempo de trabalho social necessário a sua fabricação, mas pela capacidade que elas têm de proporcionar satisfação (subjetiva) às necessidades humanas, naturais ou criadas pela cultura.


Estamos falando do importante e singular acontecimento que ficou conhecido na literatura econômica como a Revolução Marginalista. Caso único na história do pensamento teórico, em que três pensadores, no começo dos anos setenta do Século XIX, separada e quase simultaneamente, elaboraram, mutatis mutandis, o mesmo fundamento, o mesmo princípio, a mesma base em que se assentou toda a moderna Economia Política, chamada de neoclássica, qual seja, a teoria do valor-utilidade, ou ainda, teoria da utilidade marginal do valor. Tal como Copérnico tomou por base os ensinamentos dos numerosos percursores do heliocentrismo desde a antiguidade, para construir o núcleo fundante da moderna astronomia, foi nas especulações e indicativos lógicos de seus ilustres antecessores que o inglês Stanley Jevons (Theory of Political Economy, 1871), o austríaco Karl Menger (Gründzätze Volkswirtschaftslehre, 1871) e o franco-suíço Léon Walras (Principes d’une théorie mathematique de l’échange, 1873) foram colher os dados que lhes permitiram o feito notável de deflagrar a “revolução copernicana” na teoria econômica, mudando diametralmente sua âncora paradigmatica.


Desde Platão e Aristóteles, passando por Smith, Ricardo e o próprio Marx, o valor de uso sempre foi reconhecido como um componente necessário, mas não suficiente, à determinação do valor de troca, ou simplesmente valor, como queria o ilustre teórico de Treves. Contudo. a tendência sempre foi, graças talvez ao ingênuo empirismo realista do senso comum, a de dar à produção, à oferta, ao custo, o fator decisivo na definição do preço das mercadorias. Tendência que em Marx e nos marxistas se tornou certeza, quase um dogma, como em dogma um dia se transformou a crença empírica, também ingênua e equivocada, de que a terra era e centro fixo e inamovível do universo. Com todo o cortejo de violência, perseguições e barbáries, a que sempre levam os dogmas e as convicções absolutas. Contudo, a partir do Século XVII, vários e importantes pensadores, tais como Nicholas Baron (1640-1698), John Locke (1632-1704), Etienne Bonnot de Condillac (1715-1780), Richard Whately (1787-1863), Mounteford Longfield (1802-1884), William Forster Lloid (1795-1852), muitos outros e, destacadamente, Hermann Heinrich Gossen (1810-1858) provocaram um deslocamento progressivo do centro de gravidade do valor, do custo e da oferta em direção ao consumo, à procura, à utilidade. Ou seja, como acontece em todas as revoluções copernicanas na esfera dos estudos sociais, num deslizamento do objeto para o sujeito.


O Abade Etienne de Condillac (1963) coloca a questão da seguinte forma: “Uma coisa não tem valor por causa do seu custo, conforme alguns supõem; ela tem um custo porque tem valor”. Tal assertiva se completa com o famoso aforismo do oxfordiano Whately (1804) : “As pérolas não alcançam altos preços pelo fato de o homem mergulhar para as colher, e sim o homem mergulha para as colher porque elas atingem altos preços”. Corresponderia, mutatis mutandis, ao famoso dilema atribuído a Agostinho de Hipona: “A coisa é bela porque agrada, ou agrada porque é bela?”


O grande mérito dos já citados Jevons, Menger e Walras, foi o de, indo muito além da noção de utilidade total desenvolvida por seus antecessores, ter introduzido o conceito de utilidade decrescente e o da determinação do valor na margem, isto é, pela utilidade da última unidade consumida, frente a outras oportunidades de consumo e dentro de uma disponibilidade x de renda, num momento dado. Arremataram, assim, com o último toque de rigor lógico - tal como fez Copérnico com o modelo heliocêntrico – todo o desenvolvimento histórico da utilidade como a matriz do valor.
Segundo Arthur Taylor ,


“Consiste a noção de utilidade marginal em admitir-se que um indivíduo que consome várias porções sucessivas de um mesmo bem econômico acha no consumo de cada uma delas uma satisfação decrescente, ora é a satisfação que lhe é proporcionada pela última porção consumida – a menos útil – que determina o valor do bem. É este o princípio que domina a teoria econômica moderna e que renova as perspectivas do pensamento econômico. As controvérsias entre os partidários da noção de valor-trabalho e os da noção de valor-utilidade deixam de ter sentido. Não há lugar, daí em diante, para a discussão de várias noções de valor, dado que o novo conceito é mais amplo e inclui as noções anteriores.”
Quanto à ideia de a Revolução Marginalista ser considerada a mais importante mudança de paradigma de todos os tempos em teoria econômica, Bell (1961, p. 360) menciona o fato de Gossen (1854) , o mais importante teórico do utilitarismo antes de Jevons-Menger-Walras, ter declarado ter ele próprio “feito uma descoberta, a qual teria, nas Ciências Sociais, resultados comparáveis ao trabalho de Copérnico no desenvolvimento das leis físicas do universo”. Na verdade, entre os precursores, ele foi o mais ilustre, e o que chegou mais perto do conceito revolucionário de valor-utilidade. A esse respeito diz, ainda, Bell:
“Não se deve atribuir a Gossen o desenvolvimento de uma teoria do valor. Ele se interessava pelas razões básicas que alicerçam as necessidades humanas e pelas maneiras de o indivíduo reagir a essas necessidades. A esse respeito, ele estava portanto, tentando desenvolver a forma subjetiva de atacar a questão do valor, suas ideias sobre utilidade marginal foram muito precisas, mas quando ele tentou coordená-las com a desutilidade marginal alcançou menos êxito. A falta de inteireza de sua análise e seu estilo pesado e complexo, contribuíram, sem dúvida, para a impopularidade do trabalho. A despeito das falhas, esse trabalho contém os fundamentos da teoria desenvolvida por Jevons e pelos economistas austríacos.”


Difícil é entender como os numerosos intelectuais marxistas ainda retardatariamente existentes em redor do mundo, sobretudo os que militam na Academia, continuam em brancas nuvens, sem tomar conhecimento, ou menosprezando, a importante e decisiva mudança de paradigma, que inverteu por completo e para sempre o fundamento de toda a teoria econômica e, por consequência, de uma grande parte da analítica social. Não viram, não perceberam, ou, como fazem todos os fanáticos, puseram venda nos olhos para não ver o óbvio, ou seja, como essa mudança transformou em cinzas a frágil consistência pseudocientífica de toda a ideologia marxista. É como - se astrônomos fossem - continuassem a elaborar belos, extensos e complicados trabalhos sobre os corpos celestes e suas circunvoluções, tendo como base e fundamento o velho e ultrapassado geocentrismo ptolomaico.

 

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