Iremar Bronzeado -5. ARREMATE E CONCLUSÃO
5. ARREMATE E CONCLUSÃO
Por Iremar Bronzeado


No breve exame necrológico deste fantasmagórico defunto, não podemos deixar de mencionar outra grave deformação, entre as muitas que levaram o marxismo ao arquivo morto das tantas outras utopias clássicas, que cometeram o pecado de, de alguma forma, tentar desviar a humanidade do luminoso caminho da liberdade e do humanismo subjetivista. A ele demos o nome de “regressismo histórico”. Marx cultivou um curioso paralogismo em que a marcha evolutiva da humanidade se daria na forma de uma espiral ascendente, em que a última espira histórica, embora num mais alto patamar de civilização, voltaria, num passe de mágica, à sociedade primitiva, presumivelmente sem classes sociais e sem excedente econômico. Só que agora, a circunstância de termos alcançado um estágio altamente avançado da civilização tecnológica e organização sociopolítica aponta para o “fim da história” – a bem dizer, da História como práxis teleológica conducente a um regime nos limites da perfeição além do qual não haveria possibilidade de outro melhor: um ambiente social capaz de permitir o desenvolvimento pleno de todas as potencialidades humanas. Para os não marxistas, este estágio final já teria sido alcançado pela Economia Liberal de Mercado, vulgarmente referenciado como Capitalismo. Mas, para Marx, o capitalismo marca apenas o fim da “pré-história” da humanidade, período caracterizado pela sucessão de bárbaros regimes classistas de dominação do homem pelo homem. A História propriamente dita só começaria quando, sobre os escombros da última formação social composta de classes sociais antagônicas, o capitalismo, fosse construída a sociedade sem classes, o socialismo, uma utopia que, pela excelência mística de suas promessas, ficou conhecida como o paraíso aqui mesmo na terra. Em resumo, sendo o capitalismo o último regime composto por classes sociais, e significando o socialismo a ausência delas, aquele se constituiria no fim da pré-história e este no começo da História propriamente dita.


Acrescente-se, ainda, que são evidentes no marxismo, os elementos medievalistas que também apontam na direção deste regressismo histórico. Estão lá: o absolutismo, desta vez, de classe, uma classe ditatorial burocraticamente encastelada nas asas de um Leviatã totalitário; o rígido e quase religioso historicismo finalista; a subsunção do indivíduo à coletividade; o agrarismo anti-industrialista; a substituição do sujeito como centro genético da História e do conhecimento pela objetividade de fatos pretensamente concretos e, por isso, vazios de finalidade e significação humana; a submissão aos dogmas de uma doutrina muito mais profética e salvacionista do que, como se auto pretendia, científica e inserida na tradição da racionalidade laica ocidental. No seio da crítica às ideologias, não são poucas as vezes em que se menciona o arcadismo agrário medieval ínsito no pensamento marxista (viés que o próprio Marx critica nos ditos socialistas utópicos, em seu famoso Manifesto Comunista), bem como o saudosismo do grande pensador em relação às românticas, idílicas e cavalheirescas vinculações de compromisso ético, supostamente não monetárias, entre suseranos e vassalos. Por conta desta falaz volta ao passado, fica, em parte, explicado, o porquê da não comprovação prática do corpo de hipóteses do sistema marxiano. A história não anda para trás. O próprio Marx afirmou que “a história não se repete, senão como farsa”. Não seria, pois, essa profética volta ao primitivismo social um repetição da história, e portanto, um farsa engendrada pelo próprio autor do notório rifão? Marx e os seus seguidores fizeram grande parte da humanidade acreditar que estavam, com suas esporas ideológicas, fazendo correr mais rápido a marcha do progresso, e, com seu fanatismo voluntarista, incrementando a velocidade da roda da fortuna, tendo, com a intensa e insistente propaganda de suas falácias ideológicas, empolgado muitos dos pensadores do Século XX. Ao ponto de o marxismo ter sido alcunhada por um crítico mordaz, o politicólogo francês Raymond Aron, de “ópio dos intelectuais”. Na verdade, intoxicados pelo viés positivista dos séculos XIX e XX, embriagavam-se na ilusão tátil de um efeito perverso, onde sentiam o entusiasmo de estarem correndo celeremente para frente, sem perceber que marchavam da popa à proa sobre o convés de um grande navio que, em relação ás margens, deslizava de marcha ré, numa velocidade ainda maior, levado pela contra-força da corrente irresistível das águas luminosas da liberdade.


A este retrógrado regressismo soma-se o caráter anti-iluminista - antiliberal, antidemocrático, antimercado - que contaminou subliminarmente o cânone ideológico e a prática política de todos os movimentos sociais influenciados pelo marxismo. Mas como? Se Marx é considerado por muitos estudiosos como um dos mais ilustres herdeiros do Século das Luzes? Sim, pode até ser, mas, como já dissemos, um mau herdeiro, um herdeiro fundamentalista, que transformou os supremos ideais do Iluminismo num fanatismo religioso, que, como toda cega paixão fundamentalista, leva os seus seguidores ao trágico mundo do ódio, da violência, da barbárie, do terrorismo. Faz, também, os seus adeptos renunciarem à iluminada racionalidade de suas raízes humanísticas para se dedicarem à mortífera guerra santa da luta de classes, na vã esperança de, com o sacrifício da própria vida e da de inúmeros outros, alcançarem as místicas utopias da quimérica causa que abraçaram.


Passado o furacão fasci-socialista/nazi-comunista, que ameaçou varrer da face da terra a ideia e a prática da liberdade e todo o cortejo das doutrinas liberais e libertárias do Iluminismo, a Democracia Liberal de Mercado volta a se afirmar como o único e definitivo sistema no seio do qual poderão se desenvolver em plenitude todos os anseios e potencialidades do ser humano. Termina aqui a história da busca desesperada do homem pela esperança suprema de alcançar sua suprema felicidade. A democracia liberal iluminista é a verdadeira revolução permanente da humanidade, uma vez que se efetua in the making. Por isso ela continua perpetuamente inacabada e aperfeiçoável ad infinitum, sempre como resultante do embate concorrencial das necessidade, dos desejos e das ambições (sempre crescentes) dos homens. Ao contrário do marxismo, que tenta deter a marcha da história, ao apontar para o fim da dialética social pela eliminação das contradições de classe, sua insuperabilidade advém do fato de ser um sistema que continuará sempre aberto, dialético e dialogante, e, por consequência, auto-regulável e auto-corrigível, renovando-se e superando-se a si mesmo, diante de todas as dificuldades, impasses e contradições produzidas pelos incontornáveis e, muitas vezes imprevisíveis, conflitos, confrontos e transformações sociais. Contrariar as fantásticas e irrecusáveis conquistas do Iluminismo - o individualismo, a autonomia do cidadão, a centralidade humanística da subjetividade, a liberdade, a igualdade, a tolerância, a racionalidade libertária, a democracia política e econômica - é recalcitrar contra os aguilhões da força irreprimível do histórico evoluir do ser humano e da sociedade.


Os importantes e inopinados acontecimentos deste final de milênio levam-nos a crer que os ideais iluministas ressurgirão com força renovada, já num bem mais elevado patamar histórico de racionalidade crítica, com a potência plena das forças irreprimíveis da única e verdadeira revolução social da história, a gloriosa, perene e nunca terminada Revolução Francesa, contidas por mais de um século pela espúria e usurpante contra-força do totalitarismo socialista. A razão e a liberdade são como Fenixes redivivas, que rebrotam com tanto mais força e vigor quanto mais ferrenha e brutal seja, ou tenha sido, a repressão que ameace deter sua marcha insofreável e triunfal.


Trata-se agora de retomar a construção de uma nova esquerda, a verdadeira esquerda, a Esquerda Iluminista, mudancista e transformadora, aberta, transparente, democrática, liberal, e libertária, desagrilhoada do arquidogma da luta de classes como motor da história, aliada ao Novo Iluminismo que desponta no horizonte da humanidade. Trata-se também de radicalizar a luta política pelo ideal supremo de todo os povos e nações, genialmente resumido no lema da Revolução Francesa, LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE. O empenho na reconstrução da montanha jacobina deve ser vivido com tanto mais ardor e paixão quanto foi o dedicado pela moribunda esquerda socialista (leia-se, fascista) à sua inglória e cruenta luta, inspirada em dogmas equivocados e definitivamente ultrapassados.
Nada melhor para encerrar este modesto ensaio do que a citação de Böhm-Bawerk, com que John Fred Bell fecha o capítulo intitulado “A crítica socialista” em seu já mencionado compêndio História do pensamento econômico (p. 347):


“Marx manterá, contudo, lugar proeminente na história das Ciências Sociais pelas mesmas razões e com a mesma mistura de méritos que o seu protótipo Hegel. Ambos foram gênios filosóficos. Ambos, cada qual em seu próprio domínio, exerceram enorme influência sôbre o pensamento e os sentimentos de gerações inteiras, podendo-se dizer que até mesmo sôbre o espírito da época. O trabalho específico teórico de cada um foi uma estrutura concebida de maneira a mais engenhosa, construída por um poder mágico de combinação, com vários andares de pensamento mantidos juntos por uma percepção mental maravilhosa, mas – um castelo de cartas.”

Sanhauá, novembro de 2000 (1ª versão); agosto 2003 (2ª versão); junho 2012 (3ª versão).
 

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