Iremar Bronzeado -FEST VERÃO E PÃO E CIRCO
FEST VERÃO E PÃO E CIRCO
Por Iremar Bronzeado


IremarBronzeado@gmail.com

 

Se condenarmos à morte essa plebe ignara toda vez que houver um motim ou uma revolta, terminaremos por ficar sem mão-de-obra para o trabalho duro do campo, das oficinas, do artesanato e da construção de nossos palácios. Perderemos o ócio, o conforto, e a elegante distinção que nos dão as condições para pensar, dirigir e construir a glória de nosso grande império. Na verdade morreremos todos de fome, pois nenhum de nós se disporá a trabalhar com as mãos para suprir o de que precisamos para nossa sobrevivência e para manter nossa dolce vita de senhores do mundo. Esses plebeus são como animais selvagens: se a fome lhes corrói o estômago, ficam agressivos, juntam-se em bandos e saqueiam nossos silos e nossos mansões, ameaçando de extinção a nobreza e o patriciado, que são a base da glória e do poder de Roma. A solução, portanto, é evitar que seus estômagos fiquem totalmente vazios, dando-lhes um mínimo do que comer, e fazer com que ocupem suas mentes com muita diversão, bebedeiras e espetáculos, para que não fiquem remoendo sua miséria e traçando planos para destruir nossa civilização e o nosso domínio. Cunhou-se, então a expressão latina Panem et Circenses, pão e circo, para designar a estratégia de desviar o foco da atenção coletiva, sempre que a base tente ocupar o topo da pirâmide social. Esta é a nossa salvação, aclamaram os césares romanos, que passaram a construir grandes teatros, arenas e anfiteatros, onde se desenrolava todo tipo de espetáculo para divertir a ralé, aí incluídos a luta de gladiadores e o martírio de cristãos, estraçalhados por feras famintas. As ruínas, ainda de pé, são até hoje o testemunho desta perversão política.

Dos grandes césares do Império Romano aos raquíticos cesaróides de hoje - os políticos e dirigentes da nossa lastimosa república – pouca coisa mudou na lógica perversa da manutenção do poder a qualquer preço. Educar a plebe ignara, por-lhe muitas letras na cabeça, é dar-lhe a mais perigosa das armas para gestação da revolta e da organização política, que a fará ascender socialmente, tomando o nosso lugar e arrebatando os privilégios de nossas famílias e de nossos amigos, conquista que nos custou muita esperteza e malabarismos, ao longo de várias décadas. Aumentar os anos de escolaridade do povão é buscarmos sarna para nos coçar. O saber, a inteligência, a ilustração sempre trazem consigo o olhar crítico sobre a realidade política e o revolucionário desejo de inversão social: apear do poder as oligarquias tradicionais e colocar em seu lugar os verdadeiros construtores da nação, a massa dos trabalhadores e contribuintes. Para não perdermos nossa posição privilegiada, em vez de letras e sapiência, devemos encher a cabeça do povão é de samba, futebol e carnaval. Em vez de escolas, teatros, salas de concerto, bibliotecas, vamos construir estádios, sambódromos e obras de faixada para turista ver. Em vez de gastar dinheiro com salários justos e boas condições de trabalho para professores, vamos é subsidiar escolas de samba, blocos, folias de rua, times de futebol, basquete, vôlei e outros esportes. Em vez de prêmios Nobel vamos atrás é de medalhas, taças e copas. Esse negócio de botar o povão para

cultivar o espírito, o intelecto, as letras, é um verdadeiro suicídio para nós, que desfrutamos e sustentamos o sistema. Em vez disso, vamos fazê-los cultivar a saúde física, o corpo, a musculação e o gozo dos instintos naturais. Enquanto a grande massa dos nossos eleitores estiver alienada na embriaguez das drogas e da diversão de massa, gritando e pulando, que nem macaco de circo, nos estádios de futebol, chupando picolé de manga ou atrás de algum bloco, charanga, ou trio elétrico, não estarão, com certeza, preocupados em descobrir corrupções, nepotismos, malversações do dinheiro público, efeitos colaterais necessários ao exercício do poder e à manutenção do nosso status quo. E tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes.

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