A MORTE DE COMPADRE JOHN KENNEDY Ou O DESAMPARO DA VIÚVA JACKELINE
Por José Bezerra Filho


A MORTE DE COMPADRE JOHN KENNEDY
Ou
O DESAMPARO DA VIÚVA JACKELINE


Para os doutores Chico e Aliane,
amigos que escolhi para a primeira
leitura desse conto e que disseram
tê-lo adorado.

JOSÉ BEZERRA FILHO
Quando estava consertando um poleiro de galinhas colado a sua casa, Gerôncio soube que iria ser pai. A partir daí começou sua aflitiva peregrinação pela redondeza, à procura de alguém que soubesse inglês. Precisava escrever, urgente, uma carta convidando John Fitzgerald Kennedy, então presidente dos Estados Unidos, para ser padrinho de seu primeiro filho. Onde chegava e expunha sua intenção, provocava risos porque a todos parecia loucura, ver um matuto nascido, criado e ainda residente nas profundezas do sertão paraibano, alimentar tão extravagante sonho. Em verdade, não era apenas sonho. Tratava-se de uma admiração tão profunda que ultrapassava os limites da idolatria. Basta dizer que até o nome do menino ele já tinha escolhido: John Kennedy da Silva Filho!

Por aquelas bandas, Gerôncio era o único a possuir um rádio de válvulas, enorme, diante de que ficava a maior parte do tempo ouvindo a Voz da América, o Repórter Esso e programas afins, decorando tudo que se relacionava com a vida de John Kennedy.

Aos sábados, ia à feira na cidade mais próxima e, com o apurado das vendas de seus produtos agrícolas, comprava pacotes de revistas e de jornais atrasados, guardados para ele pelo dono da banca, todos contendo imagens do Presidente. Como não sabia ler, contentava-se em recortar as figuras e com elas decorar as paredes de sua casa de taipa e de chão de barro batido.

A tal ponto chegava sua obsessão que se lhe perguntassem algo sobre o suicídio de Getúlio Vargas; sobre a renúncia de Jânio Quadros; a construção de Brasília; o talento de Pelé; os dribles de Garrincha...ele pouco ou nada saberia responder.

A respeito de John Kennedy, entretanto, conhecia mais do que muita gente de anel no dedo. E todos os seus conhecimentos ele exibia, com enorme orgulho,diante das pessoas abordadas, tentando justificar a racionalidade de sua intenção. Agindo dessa forma, foi ao Colégio Diocesano e, num papo com um professor que, além de barba comprida, usava uma boina contendo a imagem de Che Guevara ,conquistou, durante alguns minutos, uma muda e suspeitosa atenção. Quando, porém, perguntou se ele poderia redigir uma carta em inglês convidando o Presidente dos Estados Unidos para ser padrinho de seu menino...
- O quê, rapaz? ‘Tá me achando com cara de idiota, é? Primeiro, eu não sou professor de inglês. E, mesmo se fosse, eu não faria essa carta porque isso é uma tremenda imbecilidade! Você, em vez de aprender os fatos de nossa história, valorizar as coisas e as pessoas de nosso país , fica aí endeusando esses caras que só trabalham para nos manter na condição de colônia! Isso é negócio de doido, de quem levou uma lavagem cerebral ou você ‘tá querendo frescar com a minha cara?

Gerôncio desmanchou-se em inúmeras outras tentativas de explicações, e o professor, por educação ou para se ver livre dele, admitiu que iria pensar no caso. No outro dia entrou de férias e viajou antes de fazer a carta.

A gestação caminhava para o segundo mês.

Já quase perdendo as esperanças, Gerôncio entrou na agência recém-inaugurada do Banco do Brasil. Os funcionários, todos oriundos de outras cidades, não o conheciam, e talvez por isso, tenham ficado deveras impressionados quando ele elogiou a nomeação de negros para altos cargos da administração americana, coisa nunca vista antes de John Kennedy. Ainda mais quando informou que ele, além de ser o mais jovem, era também o primeiro presidente católico dos Estados Unidos. Entusiasmado, Gerôncio defendeu com unhas e dentes o bloqueio militar imposto a Cuba, cuja finalidade era evitar a instalação, em continente americano, de uma base de mísseis soviéticos. Dominou ainda mais a platéia quando falou sobre os partidos Democrata e Republicano dos Estados Unidos como se falasse da UDN e do PSD do sertão paraibano. Entretanto, no momento de explicar o motivo de sua visita, a gargalhada foi geral.

Gerôncio irritou-se e foi saindo para pedir ajuda noutro lugar, ameaçando que iria botar a boca no trombone e dizer que aqui nessa merda desse Banco só tem incompetentes e moleques, todos metidos a importantes mas nenhum sabe falar inglês! O gerente, temendo que a repercussão do ocorrido pudesse arranhar a imagem da “Família Satélite” na cidade, decidiu ajudá-lo, mesmo só conhecendo meia dúzia de palavras no idioma de Shakespeare. Levou-o a seu gabinete e, numa máquina Remington , datilografou a carta ditada por Gerôncio, certo de que ela jamais chegaria ao destino. Ele pediu que o gerente acrescentasse, além do convite, o fato de que o Presidente não deveria preocupar-se com as despesas de passagens, nem de vinda nem de volta, porque eu vendo, na folha, minhas safras de algodão e de feijão de dois ou três anos, vendo umas vaquinhas e umas ovelhas e pago tudo. Eu sei que o Presidente é muito rico e não precisa disso.Mas eu sei também que, quanto mais rico, mais amarrado. E depois, eu tenho que fazer minha parte porque o interesse é meu, não ‘tou certo, senhor Gerente ? Talvez para se redimir do esculacho que dera nos funcionários, informou a John Kennedy que, graças a Deus abriram aqui, agora, uma agência do Brasil. O pessoal é tudo gente boa. O gerente sabe um inglês da gota serena!

Quanto à hospedagem, não esquente a cabeça. A cidade não tem um hotel apropriado mas o senhor fica lá em casa. É um ranchinho, mas é honrado. Só tem um diabo de um poleiro de galinhas que eu... Não! Não bote isso, não! Antes da chegada dele eu ajeito tudo. Escreva que eu já ‘tou dando uma mão de cal forte na casinha pra ela ficar bem branquinha, igual à sua aí, nos Estados Unidos!

O gerente impacientou-se:

- Pronto, meu amigo! Vamos terminar pois eu preciso atender os clientes!

- Espere aí, homem ! Faltam a data e o remetente. Se não botar isso, como é que ele vai responder?

Escreva aí: Sítio Riacho da Onça e dos Garrotes Adormecidos, Pombal, Paraíba, Brasil, 18 de novembro de 1963. Seu amigo brasileiro e futuro compadre Gerôncio Altino da Silva.

Vibrando de alegria, ele ainda pediu que o gerente botasse a observação: A/C do Gerente do Banco do Brasil, agência de Pombal - PB, porque aqui é mais fácil de chegar do que lá no sítio, não é verdade?
Agradeceu, foi direto ao Correio, despachou a carta registrada e voltou pra casa, aliviado.

Cinco dias depois, dominado pela inquietante expectativa de receber a resposta, Gerôncio estava almoçando, sentado num tamborete “pé-de-periquito”, vidrado no rádio, quando ouviu o Repórter Esso, dando, em edição extraordinária, a notícia do assassinato de John Kennedy. A colher, o prato com feijão, farinha e uma banda de preá assado voaram longe, Gerôncio deu um berro mais feio do mundo e caiu de costas, desmaiado.A mulher gritou por socorro e os vizinhos ajudaram a levá-lo para o hospital, atravessado na sela de um cavalo.A notícia do desmaio ganhou mais importância do que a morte de John Kennedy.

O gerente do Banco do Brasil foi visitá-lo e teve que abrir caminho entre a pequena multidão que se aglomerava, à procura de notícias, em frente à casa de saúde.
No quarto, Gerôncio, já refeito da vertigem, chorava copiosamente, sendo consolado pela mulher. O gerente do BB aproximou-se:

- Tenha calma, Sr. Gerôncio! Morrer é o caminho de nós todos!
- Eu sei, senhor gerente! Mas eu não estou chorando somente porque ele morreu. Da morte ninguém escapa. Meu choro é de preocupação porque eu não sei como é que vai ficar a situação de comadre Jackeline, viúva, coitada, sozinha no mundo! Eu preciso fazer alguma coisa para ajudá-la porque eu sei que, nesses momentos, toda a riqueza dela vale menos que um abraço de apoio dado por um amigo. Mesmo que esse abraço seja de um pobre compadre como eu. E sabe o que é que dá certo ? Vou fazer um empréstimo com o senhor, lá no Banco, e vou construir uma puxada logo depois da cozinha, no lugar de um poleiro de galinhas que só serve pra encher a casa de “pichilingas”. Faz tempo que eu ‘tou querendo acabar com aquela porcaria porque as bichas cagam que só a bexiga e fica, além da catinga, uma moscaria horrorosa dentro de casa..

Pronto!

Pode escrever outra carta dizendo que, mesmo sem compadre Kennedy, ela pode vir batizar o menino.O senhor faz as vezes dele, ‘tá certo ? Diga que, se ela não tiver onde se hospedar, fica morando na minha casa, nessa puxada que eu vou construir só para ela.. E é melhor não falar nesse negócio do poleiro das galinhas pra não espantar comadre Jackie! Fale também que eu ensino português a ela.

(FIM)
 

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