A VIUVINHA
Por José Bezerra Filho


A Viuvinha ligou a sirene e começou a distribuir pavor nas
imediações de onde nós morávamos. Tudo que era menino corria para dentro de casa e se trancava. Menos Tonho, coitado! que tinha ido comprar carvão para mãe cozinhar o almoço. Ele vinha assobiando, coisa que gostava de fazer, com uma bacia de alumínio cheia de carvão na cabeça. Quando ouviu a sirene e viu a camioneta lá no início da rua, arrepiou-se todinho e ficou estatelado, com os olhos aboticados, tendo que ver um desenho animado, daqueles a que a gente assistia, todos os domingos, nas matinês do Metrópole. Fez um esforço enorme, conseguiu destravar as pernas e desabou na carreira pra casa, as pedras de carvão pinotando feito pipocas dentro da bacia de alumínio.
Ele inventou de cortar caminho por dentro dos matos e quando foi atravessando uma cerca de arame farpado de que tinham tirado os arames da parte de baixo e deixado só a primeira fiada de cima – nessa hora ele já vinha com a bacia seca na mão! – o arame farpado enfiou na testa dele e como, por conta da carreira desembestada em que vinha não conseguiu parar, a ponta do arame rasgou-lhe o couro da cabeça e foi esfolando tudo a partir da testa em direção à nuca, o sangueiro maior do mundo ensopando os cabelos, descendo por cima da cara e manchando o macacão cinzento que mãe tinha comprado no Mercado da Torre. Quando se despregou do arame, meu irmão parecia uma bolha enorme de sangue, tentando correr, quase tropeçando...

Quem primeiro o avistou foi mãe, que abriu o berreiro no mundo:
- ME ACUDA PELO AMOR DE DEUS! TONHO VEM ALI, TODO
ENSANGUENTADO!

O grito de mãe foi tão grande que pai levou um susto, a enxó
com que trabalhava arrancou-lhe um pedaço da mão esquerda, onde estava nascendo um panarício.
White começou a latir, confuso com a agonia, pulando em
cima do povo, entre ameaçador e brincalhão, os vizinhos foram chegando, mãe correu com o pano de limpar o chão e começou a retirar o sangue da cabeça de Tonho que dava sinais de não poder ficar em pé. Pai chegou e, mesmo com a mão ferida de onde escorria sangue misturado com o pus do panarício, pegou-o pelos ombros, pediu ajuda, mãe segurou-lhe as pernas, era uma agonia terrível, todo mundo falando ao mesmo tempo, eu comecei a gritar e a passar mal vendo meu irmão sendo conduzido como um cadáver, White pulando pra lamber uma papa de sangue e pus que saía da mão de pai e se misturava ao sangue de meu irmão, Zé Bode dizendo que “se tiver furado a moleira, não tem jeito!” mãe retrucando no desespero“ Vire essa boca pra lá! Vá agourar o diabo!”, Loura, que sofria de epilepsia, caindo no chão batendo e babando, os vizinhos muito nervosos, sem saber a quem acudir primeiro, Cadê Vital com a camioneta pra levar pro Pronto Socorro? Viajou pra Recife! Valha-me Deus! Meu filho vai morrer! Tem calma, Júlia, o que foi isso, meu filho? Dédo gritando, mãe tá morrendo! Nidinha correndo para levantar Loura, Karina chegando, o vestido colado no corpo molhado, e gritando “Meu Deus do Céu! Que desgraceira é essa?” Vanda mandando o povo se afastar de Loura principalmente os meninos! Porque se a baba tocar em alguém, a doença pega! mas Dédo, filho de Loura, coitado! nem tinha medo, abraçado com ela no chão, gritando por socorro!, chamando a irmã, “ Pina, cadê pai? Mãe tá morrendo!...” e Loura com boca torta para um lado, dando tremeliques de vez em quando, como se tivesse levando choques elétricos, a cara toda suja de baba misturada com areia, White latindo constantemente, mãe enrolando Tonho com um lençol furado e fedorento a mijo, ele meio desmaiado tendo que ver um papel de tão branco e de tão mole, talvez mais assombrado com o alvoroço que com o ferimento - Bota um pano com “pó” de café em cima do talho! - Não! É melhor verniz! Loura começando a recuperar-se, Pina enxugando-lhe o rosto com a barra da saia,Karina recomendando um chá de folhas-de-laranjeira, Vanda repetindo que tivessem cuidado com a baba, Zé Bode explicando que isso é doença dos nervos, minha gente, não pega não! É uma espécie de desequilíbrio hegemônico das células palietais em descamação periférica!
- Seu Juvino, intrigado de Zé Bode, comentou com a filha Nidinha.
- O diabo é quem confia nas conversas desse alesado! Faz uma enrolada do bute e a gente não entende nada! Termina matando todo mundo com alguma receita que passar!
O sangue da cabeça de Tonho começou a estancar, nós ajudamos a levá-lo para o banheiro que ficava lá no fundo do quintal, demos um banho de cuia nele tomando o cuidado de não molhar-lhe a cabeça, a coisa foi acalmando, Zé Bode, dando uma de enfermeiro, começou a fazer um curativo na mão de pai, contando a história de um parente dele que tinha tomado Formicida Tatu a semana passada, um caso sem jeito, seu Zé, desenganado pelos médicos, e ele ficou bom com um remédio que eu comprei em seu Mendes.
Pai disse que tinha nojo daquelas garrafadas de seu Mendes, e sentenciou:
- Bota mais verniz aí na cabeça de Tonho que o sangue estanca de vez! Já tá parando! Bota aqui na minha mão também, Zé Bode!
- Vai arder! Mas eu sei que você aguenta porque você é mais forte do que catinga de bosta!
- É o jeito! Eita! Arde que só o “estopô!” Mas é assim mesmo! Eu só acredito em remédio que amarga, arde ou dói. E essa “goma-lacre” misturada com álcool arde e queima por isso é um “arrilique!”
E Zé Bode, com sua incorrigível mania de falar complicadamente, sentenciou:
- Mesmo com esses primeiros socorros, acho conveniente que vocês vão a um nosocômio emergencial!
Mãe estranhou o nome do lugar aonde deveriam ir:
- Que diabo é nosocômio emergencial, Zé Bode? É o cemitério, é? Por que não manda a senhora sua mãe na frente?
- Não, minha amiga! É o que o vulgo popular chama de hospital, casa de saúde. Eu acho que deveria ser casa de doença. Enfim, a gente só vai lá quando está doente. Associado ao adjetivo emergencial, passa a significar Hospital de Emergências!
Mãe, retrucou, enquanto tirava, com Água Rabelo, o resto de sangue coagulado dos cabelos de Tonho:
- Olhe, eu sou ruim porque sou positiva! Mas que demência cachorro da moléstia é essa sua, seu Zé Bode! Não é mais fácil dizer Pronto Socorro?
- “Perhaps”, minha “lady.”
Pai decidiu:
- Não, Zé Bode! Em vez de levar pro Hospital e gastar o dinheiro da feira com carros de praça e remédios...
- E não tem a Caixa de Pensão, Zé?
- Caixa e cocô, Júlia, tudo começa com C. O melhor é chamar Jacó! Manda chamar agora que ele já tirou o leite e deu ração ao gado. Aí a gente aproveita, termina de “sarjar” esse meu panarício com aquele canivete amolado dele, e faz a castração de White, pra ver se o bichinho engorda mais um pouco.
Falou estalando os dedos da mão sadia para o cachorro que começou a balançar a cauda numa alegria sincera, visceral e orgânica, incompatível com a sentença que pai lhe tinha determinado.
 

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