A DEVOÇÃO COM AS ALMAS Ou A ÚLTIMA LUZ DA VIDA
Por José Bezerra Filho



A W.J.Solha, meu mestre e grande amigo,
que me orientou a escrever sobre meu pai!

JOSÉ BEZERRA FILHO

 


Meu pai só conseguia dormir quando fazia uma série de orações e oferecia às almas do Purgatório. Depois fazia outras tantas e ofertava a Cristo Crucificado.
Eu zombava dele por achar tudo aquilo inútil.
Ele sempre retrucava.
- Não zombe,meu filho! Um dia eu lhe provarei que tudo isso existe!
E eu repetia uma meia dúzia de frases decoradas. Falava de livros que nunca tinha lido. Perguntava-lhe se estariam voando no espaço os bilhões, os trilhões... de almas das pessoas que tinham morrido desde que o mundo é mundo....
- Eu não entendo direito essas coisas enroladas que você diz. Só lhe asseguro que a vida não pode limitar-se a essa passagem nossa aqui pela terra.

Foi-se o tempo. Fui trabalhar no sertão.
Certo dia, recebi um telegrama avisando que ele iria fazer uma operação de vesícula.
Tirei umas folgas e vim dar-lhe assistência.
Encontrei-o, sempre risonho, já hospitalizado.

Abraçou-me calorosamente e molhou, com suas lágrimas de alegria, o peito de minha camisa “volta-ao-mundo”. Depois, cheio de orgulho, apresentou aos companheiros de enfermaria, meu filho, funcionário do Banco do Brasil. Já é gerente da agência de Pombal!
Eu controlei seu entusiasmo :
- Não exagere, meu velho! Eu só tenho seis meses de Banco! Diminua a patente e aumente o salário!
- Oxente! Inteligente do jeito que você é, termina sendo até dono do Banco!
Eu brinquei de novo:
- Só se for com ajuda das almas do Purgatório!
Ele não gostou.
- Espere, aí, meu filho! Você ainda não perdeu essa mania de zombar das coisas sérias?
Arrependi-me. Pedi desculpas. Ele repetiu:
- Um dia eu lhe provarei que tudo isso existe!

Como tinha intenção de dormir com ele, e visando a dar-lhe mais conforto, paguei as despesas excedentes e providenciei sua transferência para um apartamento.
Entramos pela noite, batendo papo.
Na hora de dormir, repetiu seu ritual de rezas.
Mesmo sem eu dizer nada, ele deu boa noite, e acrescentou:
- Vai chegar o momento em que lhe provarei que tudo isso existe!
Na tarde seguinte, entrou na sala de cirurgia, de onde saiu muito tempo depois do esperado.
O médico explicou que a operação fora complicada porque a inflamação da vesícula tinha gerado aderências hepáticas.
À noite, só eu fiquei a seu lado, contemplando aquela massa anestesiada, uma sonda no nariz, o braço injetado pelo soro que minutava o tempo...Um verdadeiro contraste com o homem dinâmico e forte que sempre fora.
E comecei a conversar sozinho, fazendo-lhe perguntas, arquitetando as respostas que ele me daria e, imitando sua voz, eu mesmo respondendo...
Acho que ele escutou tudo.
Disse-lhe que estava ali em sua companhia, disposto até a rezar uma Ave-Maria, um Pai-Nosso, um Credo e dedicá-los às almas do Purgatório, a Cristo Crucificado. E assim procedi, fazendo questão de ressaltar que a oferta era dele.

Adormeci a seu lado, segurando-lhe a mão presa à mangueira do soro que, em tempo hábil, pedi à enfermeira para trocar.

De madrugada, despertei com ele vomitando, enchendo os lençóis de uma substância fedorenta, parecida com picado de porco. Como se fossem pedaços de seu fígado apodrecido.
Com um olhar mais trêmulo do que a mão e a voz, balbuciou:
- Meu filho, eu estou morto!
Eu que até ali acreditava em sua recuperação, destampei-me num choro incontrolável, certo de que estava escutando suas despedidas.
Mas o momento derradeiro só ocorreu à boquinha de noite daquele mesmo dia, a cama rodeada de familiares e amigos, como se ele desejasse uma platéia para emitir sua última palavra, talvez tentando provar-me que não eram inúteis suas rezas e devoções
Ele, que permanecera desacordado durante todo o dia, inesperadamente, arregalou os olhos de uma maneira descomunal, fixou-os num ponto e tentou erguer as mãos como se quisesse segurar ou abraçar alguma coisa. Vi que seu olhar direcionava-se para uma cruz de madeira com a imagem de Cristo Crucificado que havia na parede. Precipitei-me, subi numa cadeira, arranquei- a e trouxe para ele.
No momento exato em que lhe juntei as mãos para segurá-la, faltou energia. Dentro da escuridão, que só durou um segundo, meu pai murmurou apenas uma palavra, de uma forma que arrepiou todos os presentes:
- Existe!
A luz voltou.
Ele estava morto, o Cristo Crucificado caído sobre o peito.
Assim como se a luz da vida tivesse apagado na terra e acendido noutra dimensão.

Mesmo forçando para enquadrar tudo aquilo no rol das coincidências,e sem abrir mão de minhas convicções materialistas, nunca mais zombei de quem reza porque tem devoção com Cristo Crucificado e com as almas do Purgatório.

( FIM )

(NOV./ 02)
 

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