A CADEIRA Ou MEU VIZINHO PÉ-DE-GALO
Por José Bezerra Filho


José Bezerra Filho

Um cidadão que mora numa rua paralela à minha, diariamente, bota uma cadeira em sua calçada, senta-se para ler o jornal e tirar prosa com quem passa para fazer suas caminhadas matinais.
Nunca tive com ele oportunidade de debulhar fraseados muito longos. Por esse motivo incomodam-me as lérias que ele me dirige ao me ver passar, trazendo para casa um tijolo, um pedaço de vidro, de madeira, de ferro... encontrados nos lixos, hábito que cultivo desde a infância.

- Eita! Todo dia levando um pedacinho, vai terminar construindo a casa sem gastar um tostão!

Na primeira vez, até que achei engraçado.
Meses depois, porém, a coisa passou a me irritar seriamente. Primeiro, pela falta de talento que o levava a repetir o mesmo gracejo com a mesma entonação. Segundo, pelo uso que ele fazia de uma intimidade que nunca lhe concedi. Terceiro, por ele emprestar às palavras uma insinuação de que eu estaria roubando aqueles objetos.

Para evitar um desentendimento, resolvi mudar o roteiro das caminhadas optando por fazer o cooper matinal à beira mar.

E na primeira madrugada praieira, saí de casa disposto a chegar à Ponta do Cabo Branco, caminhando primeiro pela Av. Epitácio Pessoa, satisfeito por me sentir livre do rabugento vizinho.
Nesse percurso, com passo acelerado, quase correndo, ultrapassei um grupo de cinco colegas de trabalho que elogiaram minha boa forma física e tiraram uns gracejos bem mais inteligentes dos que eu escutava diariamente.
Mais adiante, passei por outro grupo de conhecidos que também se dirigia à orla marítima em ritmo bem menos apressado que o meu.
Em poucos minutos dei de cara com o marzão, a praia espreguiçando-se num despertar demorado, um bafo de maresia e sargaço saindo da boca da manhã, o oceano como que sendo a bolsa-d’água que se estourava para que o horizonte começasse a parir o sol primogênito das Américas.


Um pouco mais na frente, avistei uma cadeira na ponta da calçada.


Olhei em todas as direções, a praia vazia, as casas fechadas, as ruas desertas, os postes parecendo sentinelas com capacetes luminosos... De vivos, apenas o mar, o vento e uma palha de coqueiro que, no ritmo da brisa, esfregava-se no patamar da cadeira dando a impressão de uma pessoa alisando o cabelo de outra que estivesse sentada, esperando o sol que começava a despontar no horizonte.


Pensei em trazê-la para casa.
Não achei correto.


Enfim, não se tratava de um tijolo, um pedaço de tábua, de madeira... atirado ao lixo.
Indeciso, deixei-a e fui caminhando.
Um pouco mais à frente, olhei pra trás, lá estava a bichinha, tranquila, sentada, assistindo ao nascer de um novo dia.
Parei.Tive a impressão de que ela ganharia vida e começaria a andar com suas próprias pernas.
Interrompi a caminhada e retornei apoiado na conclusão de que se eu não a levasse, um ladrão, com certeza, a levaria.
Botei-a debaixo do braço e vim embora.


Quando dobrei a rua, avistei o último grupo de conhecidos que eu ultrapassara na vinda.
Como eu agora estava acompanhado, certamente iriam dar uma de meu vizinho e procurar tirar gracejos a respeito da cadeira.
Recuei e consegui esconder-me deles.

Optei por caminhar de volta para casa pela rua paralela.

Quando, porém, cheguei ao rio que cruza todo o bairro, não pude ir em frente e tive que retornar à a Av. Epitácio Pessoa.
Lá chegando, pra meu azar, lá vinham, ainda caminhando em direção à praia, o primeiro grupo que eu ultrapassara, e o último, este em sentido contrário, por já ter chegado ao final do percurso e estar retornando. Como não me lembrei dessa possibilidade, tomei um enorme susto e voltei correndo com a cadeira a tiracolo.

Peguei o rumo da Beira-Rio, quase triplicando o tamanho da caminhada.

Cansado, atrasado para o expediente do Banco, o sol começando a castigar inclementemente, andei por ruas e becos nunca “dantes caminhados”, enfrentei ruelas esburacadas cheias de esgotos a céu aberto... e lá fui eu, suando feito se fosse uma tampa de chaleira, cortando caminhos, apressando o passo...quando, de repente, deparei-me com o sacana do vizinho de quem eu tinha esquecido completamente. Pela proximidade, não consegui esconder-me nem evitar o indesejado encontro.
E, como não podia deixar de ser, veio o abominável gracejo:

- Eita! Terminou a casa, agora ‘tá arrumando a mobília, não é?

Fiquei tão desajeitado que resolvi explicar como tudo acontecera. O filho da puta, com um olhar de enviesado deboche, parou de ler o jornal e disse:
- Sim, explique!

E eu, quase gaguejando, disse que tinha trazido a cadeira porque se eu não o fizesse, um ladrão, certamente o faria, não era, não?
- Você quer dizer: OUTRO LADRÃO, não é?
Aí eu engrossei:

- Escute aqui: O senhor tá insinuando que eu roubei, é?
Pois fique sabendo que eu posso comprar cinquenta, cem cadeiras desse tipo sem pedir favor a ninguém, tá ouvindo? Fique com ela pra você!
- Quem, eu? Ficar com uma bosta dessa pra ser preso como receptador? Negativo!

Tive vontade de arrebentar o objeto da discussão no espinhaço dele.
Cisquei um pouco, não consegui encontrar uma ofensa compatível com minha irritação, controlei os nervos e fui embora, levando a cadeira, enquanto ele voltou a ler o jornal mastigando um risinho de gozação nos cantos da boca:

- Amanhã eu vou ler a página policial com muita atenção pra ver se sai alguma notícia com os “artistas” daqui desse bairro!

Algo de positivo restou do pega-pra-capar que encenei com o vizinho pé-de-galo: voltei a caminhar em meu local de sempre, nunca mais ele me dirigiu as piadazinhas porque, também, eu nunca mais trouxe para casa qualquer troço velho encontrado nas ruas.

( FIM )

 

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