Museu de Dona Inês - Espaço da Memória: uma importante obra cultural à espera de ser concluída



18/02/2016


 

O Museu de Dona Inês - Espaço da Memória - é um dos mais importantes projetos culturais do interior da Paraíba. Ainda não está concluído, mas funciona parcialmente, alguns dos seus espaços já são visitados e o Museu vai se integrando na vida cultural da cidade e da região. A estrutura principal do Museu fica na zona urbana, é uma construção muito bonita e funcional, que recebe muitas visitas, especialmente de grupos de estudantes de escolas de Dona Inês e de cidades próximas. Estruturas menores estão instaladas na zona rural. O projeto do Museu de Dona Inês é tão inteligente quanto modesto. E tinha de ser modesto, pois recria e resguarda, principalmente, a memória do povo trabalhador. Esse projeto foi acolhido na primeira gestão do Prefeito Antonio Justino, que o tem tocado com recursos próprios, sem qualquer ajuda do governo estadual ou do governo federal. Talvez por isso, a conclusão da obra tenha sofrido seguidos adiamentos. A esperança é que esteja pronta para inauguração até o fim deste ano de 2016, que é o último da administração de Antonio Justino, prefeito reeleito. Cerca de 80% da obra já foi feita, concluí-la é uma questão de descortino administrativo e político. Um vez pronto, em pleno funcionamento, o Museu de Dona Inês terá papel de grande destaque na cultura da região, além de incrementar o turismo da cidade, que tem grande potencial nesta área. Politicamente, o prefeito Antonio Justino tem todo o direito de receber os louros de tão relevante obra na festa de inauguração, não devendo colocar a sorte de tal empreendimento nas mãos do próximo prefeito.

Esse projeto tão feliz do Museu de Dona Inês - Espaço da Memória é da lavra do intelectual, educador, ativista ecológico e poeta cordelista Mariano Ferreira da Costa; que é também o diretor do Museu, que como vimos, embora inacabado, funciona parcialmente. Natural de Dona Inês, Mariano estendeu sua ousadia cultural pela Paraíba; isto desde os anos 70. E tem servido de exemplo para o Brasil, como registrou até mesmo o programa Fantástico, da TV Globo. Mariano é, ele mesmo, um ser humano fantástico. A sua vida é completamente tomada pela atividade cultural-ecológica e comunitária. Apresentamos aqui um resumo da trajetória cultural de Mariano, amostras da sua bela e variada poesia, e uma entrevista com o mesmo. Ao final da entrevista, as fotos que ilustram essa reportagem dão ideia da dimensão e importância do projeto.

 

 Mariano Ferreira da Costa 59 anos, nasceu em Dona Inês  PB, milita na cultura desde a década de 70 quando participava dos eventos promovidos pela igreja.  Em meados da década de 70 estudou no Colégio Marista de Natal; em 1978, como postulante a Irmão Marista, estudou no Colégio Marista de Recife; em 1979 foi aluno do Colégio Arquidiocesano Pio XII de João Pessoa, nesse período fez parte do Seminário de João Pessoa sob a coordenação de Dom José Maria Pires.

Tornou-se um ativista cultural e ambiental a partir dos anos 80 quando passou a frequentar a UFPB. Nesse período foi Diretor de uma escola estadual, a Escola Machado de Assis, em Santa Rita-PB. Durante a sua gestão na Escola Machado de Assis, empenhou-se no ativismo ambiental, implantando a Coleta Seletiva dos Resíduos Sólidos, trabalho que teve destaque na mídia, sendo divulgado no programa Fantástico, da Rede Globo .

      Em 2005 foi convidado para dirigir a Esc. Sen. Humberto Lucena, em Dona Inês-PB. Nessa ocasião procurou desenvolver um trabalho voltado, também, para a cultura em toda a cidade, criando a Noite Cultura do Lucena,  cujo projeto vem até os dias atuais, uma noite cultural todos os anos.

Participou da 2º Conferência Nacional de Cultura como Delegado pelo Estado da Paraíba, sempre defendendo a cultura popular, os repentistas, os emboladores, boi-de-reis, os folguedos em geral.

Retornando a Dona Inês, sua terra natal, foi Secretário de Educação, Secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente. Atualmente está  na coordenação do Espaço da Memória, espaço este que está destinado a guardar a memória do povo; através do Memorial do Homem do Campo, Memorial da Farinha, Memorial Lajedo da Serra, Memorial do Sisal.

Na   área cultural implantou no município de Dona Inês a Arca das Letras em 06 comunidades rurais, participou do Prêmio Patativa do Assaré, com o projeto Implantando Cordeltecas nas Escolas, que atendeu 05 escolas na Rede Municipal e uma na escola do Estado.

Este ano foi  ganhador de 02 editais do Fic. Tecendo uma Nova Consciência Ambiental  Através das Artes, um projeto que circulou em 05 municípios: Dona Inês, Solânea, Areia, Belém e Guarabira. Uma nova versão do Implantando Cordeltecas nas Escolas, sendo que desta vez está implantando em 10 novas escolas e ampliando o acervo das 06 escolas que foram contempladas com o 1º edital.

     É autor de 37 títulos de cordéis,  sendo que as cordeltecas foram instaladas com cordéis de sua autoria, dentre os títulos destacam-se: O Luxo de Vem do Lixo, Educação Ambiental é Cidadania, Convite a Pedagogia do Sucesso, O Velho Chico, Fantasma de Rodam o Ser, Manifestação da Violência, Mãe África, Feira de Interior, Levanta Jovem, Recicla Dona Inês,  A Natureza,  e tantos outros que se encontram nas escolas para reforçar  o universo da leitura.

 

 

Estrofes exemplares da poesia de Mariano Ferreira da Costa

 

Do cordel "NORDESTINAÇÃO"

 

No falar Euclidiano:

O nordestino é um forte,

Resiste ao sofrimento,

Engana até a morte.

Mas não perde a dignidade,

Mantém a serenidade,

A verdade é seu suporte.

 

Aprendeu com a natureza

A conviver neste chão,

Tirar do útero da terra

O seu precioso pão.

Se dobra, mas não se quebra,

É mais duro que a pedra,

Os calos de suas mãos.

 

 

Do cordel "FEIRA DE INTERIOR"

 

Qualquer assunto se fala

Qualquer palavra se diz

É um território livre

Onde o povo é feliz.

Tudo que é conversado

O sujeito pede bis...

 

Todos falam ao mesmo tempo

Mas não falta compreensão

Uns perguntam o preço da carne

Outro o preço do feijão

Uns dizem fica fiado

Não tenho no bolso um tostão...

 

 

Do cordel "DONA INÊS, FILHA DE UMA PAIXÃO"

 

Dona Inês tem um legado

Para toda geração

O turista que aqui vier

Terá muita satisfação

Verá que nossa beleza

Tem como base a natureza

Seja inverno ou verão.

 

Escrita no Anda Brasil

Caminhadas na natureza

No segundo sábado de julho

Cachoeiras em correnteza

Venha conosco caminhar

Nossas belezas apreciar.

Em cada canto uma surpresa...

 

Temos a trilha do vaqueiro

Cem por cento na caatinga

Onze quilômetros de aventura

Ponha água na moringa

Ouvir o aboio e o chocalho

O pássaro cantando no galho

No rosto o suor pinga...

 

 

Do cordel "BRINCADEIRAS DE CRIANÇAS"

 

Fui criança e bem sei

Fantasiar o real

Brincar com o caramujo

Lá no fundo do quintal

Dizendo ser o meu gado

Muito caro foi comprado

Está preso no curral...

 

Assim quando criança

Vivi minha fantasia

No mundo de faz de conta

Toda coisa tem valia

E com uma baleeira

A bala era certeira

Atirava no que via...

 

Dia de chuva era festa

Para toda criançada

Tomar banho de biqueira

Correr, pular pelas calçadas

Deitar no meio da rua

Seja vestida ou nua

Sem me preocupar com nada...

 

 

Do cordel "LEVANTA JOVEM!"

 

Vós que estais cansado

Sai da beira do caminho

Vem comigo caminhar

Receber o meu carinho

Vem ao encontro da luz

Sou o Cristo, sou Jesus

Na mesa eu sou o vinho.

 

Vós que estás sofrendo

Vem que eu tiro tua dor

Sou o bálsamo que alivia

Sou a brisa, o frescor

Sou o teu colo materno

Que te livra do inferno

Da solidão e terror.

 

Levanta-te e vem comigo

Que sacio tua fome

Mato a sede e o cansaço

É só chamar-me pelo nome

Sou Jesus de Nazaré

Alimento a tua fé

Sou o verdadeiro homem.

 

Levanta-te desse tédio

Pois estou bem junto a ti

Venci a morte na cruz

Pra fazer o mundo rir

Sou o homem nazareno

Faço grande o pequeno

Por isso estou aqui.

 

 

Entrevista de Mariano Ferreira da Costa ao Portal 100 Fronteiras

 

Qual a importância do Museu de Dona Inês no contexto cultural da Paraíba?

O homem é a sua cultura, é a sua história, daí a importância do Espaço da Memória: registrar, catalogar, divulgar, incentivar para que o homem se eternize no que fez, no que falou ou escreveu.

Já foi dito que o homem é eterno enquanto sua obra permanece. A  obra do homem é muito mais que cimento e cal, o patrimônio imaterial perpassa, ultrapassa e permanece vivo, esse espaço é para que o homem do povo, de história simples, possa permanecer, hoje e amanhã.

 

Acha que o Museu será concluído e inaugurado este ano que é o último da administração do prefeito Antonio Justino?

Não sei, mas acredito que sendo ou não concluído ficará registrado na memória do povo, que o homem permanece junto de sua obra.

Que este espaço possa marcar a presença dos nossos antepassados, relembrar aos presentes que morrer é ser esquecido, não esqueçamos dos que partiram, porque ao partir não levaram tudo, deixaram o melhor de si; o legado, o exemplo, o patrimônio material e imaterial. O homem é esse misto do transitório e imanente.

 

Ainda que incompleto o museu tem estrutura para receber as visitas?

A estrutura é modesta, mas os visitantes se identificam com sua história, encontram-se com sua infância, sentem-se tocados quando encontram um ferro de passar, um rádio de pilha, uma cama de mola, um oratório. Simples objetos que reportam a um passado, e faz compreender cada vez mais esse presente.  

 




Fonte: Redação/internet/e-mail - fotos: Glória de Oliveira
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