O legado nulo da revolução russa


Antonio Carlos Prado
11/11/2017


O medo do autoritarismo do Estado, das perseguições ideológicas e do assassino aparato burocrático foi tudo que o comunismo deixou. Na data do centenário, os russos preferiram nas ruas lembrar da monarquia

O legado nulo da revolução russa

GÊNESE A marcha dos soldados sublevados

Completou-se na terça-feira 7 o centenário da revolução russa, o mais significativo movimento social, político e econômico do século 20 a mudar o mapa geopolítico do mundo – e os muito saudosistas dos “partidões” que nos desculpem, mas isso não quer dizer, necessariamente, que tais mudanças se deram para o bem. É natural que intelectuais tenham novamente se debruçado na semana passada sobre a causas e consequências históricas da revolução. Mas é importante, antes de tudo, darmos uma olhada doméstica: como se desenrolaram as comemorações dos cem anos na própria Rússia? Vamos a uma simples mas esclarecedora analogia: quando os donos da casa já não querem recordar da festa da qual foram anfitriões, é porque descobriram que ela não prestou. Em Moscou, e mesmo na cidade que foi berço da revolução, São Petersburgo (antiga Petrogrado), houve minguados festejos – e, quem diria, quem mais faturou com turistas foram cidadãos que se vestiram de monarcas e ofereciam a estrangeiros passeios a locais referentes aos quatro séculos de domínio da dinastia Romanov. Integrantes do carcomido Partido Comunista fizeram uma manifestação aqui, outra ali, como quem já se resignou com o dobrar do sino.

Outro bom termômetro de como o povo russo tem saudade da revolução (tudo bem, perdoem a ironia) é a forma como na terça-feira ela foi lembrada nas escolas. Foi recordada, na verdade, como vem sendo desde 1991 quando ruiu de vez a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS): todos os anos, no dia 7 de novembro, há aulas nas salas dos colégios e desfiles nas praças porque, nessa data, em 1941, Moscou sofreu o cerco nazista na Segunda Guerra Mundial e resistiu bravamente (a luta e vitória contra Adolf Hitler viria mesmo de Stalingrado, homenageada num poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado “Stalingrado resiste”). Ou seja: nada a ver com o 7 de novembro da revolução bolchevique.

A revolução russa é uma revolução que poderia ter sido… e não foi. Em março de 1917, já quase no final da Primeira Guerra Mundial, a Rússia era governada por Nicolau II, último czar Romanov. Amável com a esposa e os cinco filhos, esmagava os camponeses analfabetos que semeavam as terras e colhiam a miséria. Para os adversários políticos, a morte. Ele cometera a asneira de meter o país numa guerra contra o Japão (1904-1905) e, em 1914, em outra contra a Alemanha e a Áustria-Hungria. Num país atrasado e agrário, ferviam as revoltas no exército, ferviam as revoltas no meio rural, e, com menor peso, ferviam as revoltas nas incipientes fábricas. Nesse clima, forças liberais e republicanas, lideranças da social-democracia e também socialistas se uniram, apearam do poder o czar e criaram o governo provisório. A pena de morte foi abolida, os direitos civis e políticos básicos ficaram preservados e se organizaram eleições para uma assembleia constituinte.

Lênin discursando: a “ditadura do proletário” significava dar todo o poder para ele

Aqui entra em cena uma das mais nocivas figuras da história: Vladimir Lênin. Os mencheviques desejavam compor um regime não radicalmente autoritário, mas o bolchevique Lênin, em sentido inverso, insuflava a população para a radicalização, a guerra civil e a tomada do poder – poder para ele, é claro. Isso Lênin vinha operando desde 1905, mas em março de 1917 encontrou o ambiente propício para afiar mais as garras: retornou da Suíça, subverteu o mínimo de ordem que havia no país, tomou o poder à frente dos bolcheviques. Veio a guerra civil (1918-1921) e diversas matizes políticas, numa barafunda de ideologias, se degladiaram. No risco de os monarquistas levarem a melhor, nada como fuzilar Nicolau II, e assim foi feito. Liberais, anarquistas, mencheviques, bolcheviques, separatistas, todo mundo atirava em todo mundo. Venceu o exército vermelho, os comunistas de Lênin, e assim foi criada a URSS. Gênio da economia (desculpem de novo a ironia), Lênin passou a cobrar impostos sobre o excedente colhido pelos camponeses que começaram, então, a plantar somente o necessário para suas família. A consequência imediata: fome nas cidades (convenhamos, o erro foi tão elementar, que a ironia até caiu bem).

Morre Lênin, assume o comando da nação a sua cria, Joseph Stalin. Aqui é necessário esclarecer um ponto sobre o qual comunistas passaram a vida teimando: “Lênin foi bom, Stalin foi mau”. Mentira. Um tirano sanguinário sucedeu um tirano sanguinário, Stalin foi o prolongamento de Lênin, bem mais corrupto, e com ele a URSS mergulhou num banho de sangue e no obscurantismo burocrático dos regimes que roubam o povo silenciosamente, que matam silenciosamente, que mandam gente morrer de tuberculose na Sibéria silenciosamente. Primeiro ele baniu das fotografias oficiais os seus desafetos (e nem havia photoshop). Depois passou a bani-los da vida real, e o caso mais marcante foi o assassinato de Leon Trótski, no México. A machadadas. Na cabeça. No Brasil, o stalinismo foi seguido por Luís Carlos Prestes, um homem que politicamente interpretou todas as situações de forma equivocada e, militarmente, teve seu nome colocado nos arquivos de Moscou com a seguinte observação: “péssimo estrategista”. Após o fracassado “Levante da Praia Vermelha”, no Rio de Janeiro, em 1935, Prestes é preso pelo então presidente Getúlio Vargas. Responda, leitor, uma questão: se você fosse preso e teu algoz enviasse sua mulher, grávida, para um campo de extermínio nazista, você sairia da cadeia de braços dados com essa pessoa, em nome da ditadura do proletariado? Foi o que Prestes fez. Quem morreu no chuveiro de gás foi Olga Benário. Stalin ficou no poder por 29 anos. Morreu em 1953. A partir daí uma série de mandatários se sucederam, em 1991 a URSS desfez-se, em 1999 Putin foi alçado à presidência do país. Qual o legado da revolução para o mundo?

Aqui é obrigatório nos remetermos ao único legado, o da “guerra fria” (1947-1991), que mergulhou o mundo num clima de tensão permanente logo após a vitória das tropas aliadas contra o nazismo em 1945. Mais uma vez o regime comunista alterou a geopolítica do mundo, disputando poder com os EUA e impondo o seu método totalitário a todos os países que foram por ele “libertados” do nazismo, regime igualmente sanguinário e criminoso. Dois exemplos marcantes da “guerra fria”: a divisão da Alemanha, país separado de seu próprio país por um muro construído pelos comunistas (a “cortina de ferro”). Do lado comunista (oriental) era tão bom viver (ah, a ironia), que o cidadão que tentasse passar para a outra Alemanha (ocidental) era metralhado no muro. O segundo exemplo é a revolução cubana, liderada por Fidel Castro e vitoriosa em 1959, que libertou os cubanos da sórdida ditadura de Fulgêncio Batista e implantou na ilha outra ditadura que perdura até hoje. O escritor e filósofo Alexis-Charles-Henri Clérel, o visconde de Tocqueville, escreveu que as iniquidades das monarquias são destruídas pelos revolucionários que, em poucos anos, tornam-se mais absolutistas que o rei destituído. Tocqueville referia-se à queda do rei Luís XVI. O legado da revolução russa, no próprio país e também onde ela chegou, foi o mesmo: derrubar estúpidas tiranias para impor uma tirania igualmente estúpida. Mas passou. O comunismo morreu vítima de ataque de absurdo.

O erro de Karl Marx

 

Se Karl Marx (foto) vivesse nos dias de hoje, com certeza ele se juntaria aos grupos que em diversos países cantam, abraçados, “Give Peace a Chance” ou “Imagine”, ambas de John Lennon. É o auge do purismo de quem monta castelos de utopias e acha que elas brotam do nada ou caem do céu – são um pouco tolinhos, convenhamos… ou espertalhões demais…

O que? Marx, o ideólogo do marxismo, cantando um beatle roqueiro? Isso mesmo. Marx era um forte sonhador, mas fraco como filósofo, fraco como economista, fraco como sociólogo, e toda essa falta de concretude teórica deve-se ao fato de ele olhar o mundo pelo filtro distorcido da ideologia – e quem faz ideologia não faz ciência, ensinou Max Weber. Quem tornou Karl Marx (1818-1883) um homem gelado foram os tantos dirigentes comunistas que usaram suas teorias de acordo com conveniências. Marx era de carne e osso, tão carne que teve até filho com a empregada analfabeta que para ele trabalhava (é, Marx tinha empregada doméstica!), e tão osso que viveu sustentado por um milionário: Friedrich Engles.

Marx distorceu (porque era um ideólogo) uma das mais maravilhosas formulações da mente humana: a dialética. Dizia Heráclito: “nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. Veio Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) e deu à humanidade uma concepção otimista dessa mesma dialética, mostrando, no plano das ideias, que tudo tem uma tese, uma antítese e uma síntese. A humanidade é outra a partir de Hegel, o banhar-se eternamente no mesmo rio não é mais depressivo nem pessimista: há uma síntese. Marx se apropriou (ou expropriou) Hegel e rebaixou a sua dialética ao chamado materialismo histórico, no qual toda a síntese seria a “ditadura do proletariado”. Não, Marx, ditadura e dialética não se coadunam, são incompátiveis. E é preciso esclarecer: marxistas dizem que Marx foi deturpado. Bobagem. Marx errou mesmo.

 




Fonte: istoe.com.br
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