Vietnã: comunismo não é mais a
Vietnã 40 anos depois: país comunista adota capitalismo e prospera
A Cidade de Ho Chi Minh se tornou símbolo da abertura do Vietnão para o capitalismo


10/05/2015


Há 40 anos, em 30 de abril de 1975, tropas comunistas vindas do norte do Vietnã invadiram a cidade de Saigon, a capital do sul do país, e colocaram um fim oficial ao pior conflito da segunda metade do século XX. A Guerra do Vietnã deixou mais de 2 milhões de vítimas e até hoje assombra o ego militar americano. Quatro décadas depois, Saigon já não é mais Saigon. Desde 1976, a metrópole se chama Cidade de Ho Chi Minh, uma homenagem ao ex-líder comunista do Vietnã que conseguiu o feito de derrotar os americanos e instaurar o comunismo no país. Se estivesse vivo, o homenageado talvez não se orgulhasse tanto da deferência. A sede do Partido Comunista na cidade fica em frente ao segundo maior shopping center do país. A Cidade de Ho Chi Minh se tornou o símbolo da abertura do Vietnã para o capitalismo e para o livre mercado. Tomada por arranha-céus, lojas de grife e carros de luxo, a ex-Saigon é a capital financeira do Vietnã, uma das 100 cidades mais caras do mundo. A Cidade de Ho Chi Minh é a representação da mudança extraordinária pela qual o Vietnã passou nas últimas décadas: um país que está superando seus colegas asiáticos em crescimento, onde a vida das pessoas melhorou por causa dos avanços econômicos, e que respira a dicotomia do liberalismo econômico combinado ao autoritarismo político. O Vietnã é uma das cinco últimas nações comunistas do mundo. As outras são China, Cuba, Laos e Coreia do Norte. Ao mesmo tempo que a riqueza desfila pelas ruas, por todo lado há bandeiras com a foice e o martelo e cartazes exaltando os feitos dos trabalhadores e camponeses. O sucesso do Vietnã é de fazer inveja aos outros emergentes. Desde 2005, o país cresce, em média, 6% ao ano, e o PIB do país saltou de US$ 57 bilhões em 2005 para US$ 185 bilhões em 2014. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o Vietnã será uma das 25 maiores economias do mundo nos próximos dez anos. O Banco Mundial não cansa de usar o país como exemplo e considera o Vietnã uma espécie de garoto-propaganda dos efeitos salutares da economia liberal. Não é para menos. O grande salto adiante do país é perceptível aonde se vá. Ruas sem pavimento se tornaram avenidas largas repletas de telões de LED e arranha-céus; arrozais alagados deram lugar a modernas linhas de produção; charretes puxadas por búfalos foram trocadas por motocicletas modernas. >> A direita com foice e martelo A lista de feitos capitalistas do Vietnã faria corar o alto secretariado do Partido Comunista. O maior paradoxo é que foi a liberalização da economia, e não as ideias socialistas, que reduziu a desigualdade econômica. Em 1993, mais de 60% da população vivia abaixo da linha de pobreza (com menos de US$ 1 por dia). Em 2004, esse número caiu para 20% Hoje, são 10%. O Índice de Desenvolvimento Humano (que vai de 0 a 1) saltou de 0.439 em 1990 para 0.617 em 2013. A renda per capita, de US$ 100 em 1995, hoje é de US$ 1.650. O Vietnã cumpriu todos os objetivos desenvolvidos em parceria com as Nações Unidas para reduzir a pobreza. O caminho para chegar lá foi longo, e o trauma de inúmeras guerras ajudou o país a se reerguer. O Vietnã é o único país periférico na história a derrotar três dos seis membros do atual Conselho de Segurança da ONU: China, França e Estados Unidos. Foram 1.000 anos de dominação da China no primeiro milênio. Em 1847, a Marinha francesa atacou o Porto de Danang, iniciando quase um século de ocupação na chamada “União da Indochina” – Vietnã, Laos e Camboja. Em 1940, os alemães ocuparam a França, mudando a correlação de forças da Segunda Guerra Mundial. Em consequência, em meados de 1941 os japoneses invadiram o Vietnã. Terminada a guerra, em agosto de 1945, o comunista Ho Chi Minh liderou um levante contra os colonizadores e fundou a República Democrática do Vietnã – mas os franceses insistiram em manter seu poder colonial na região. A Guerra da Indochina contra a França durou quase uma década, terminando em 1954 com a divisão do Vietnã em dois países: o Vietnã do Norte, comunista, dirigido por Ho Chi Minh e apoiado pela China, e o Vietnã do Sul, anticomunista, apoiado pelos Estados Unidos. Em 1965, os primeiros soldados americanos desembarcaram no mesmo Porto de Danang. Nos anos seguintes, os Estados Unidos despejaram sobre o país o dobro da quantidade de bombas jogadas na Segunda Guerra Mundial. CONTRASTE Guardas de trânsito se preparam para desfile em Hanói (no alto) e loja de grife em bairro luxuoso da capital. Imagens de dois mundos (Foto: Rob Whitworth/Corbis e Justin Mott/Redux/Latinstock) CONTRASTE Guardas de trânsito se preparam para desfile em Hanói (no alto) e loja de grife em bairro luxuoso da capital. Imagens de dois mundos (Foto: Rob Whitworth/Corbis e Justin Mott/Redux/Latinstock) Antes de descobrir o que a liberalização da economia podia fazer pela situação social do país, o Vietnã foi um laboratório comunista. Pouco depois do fim da guerra e da invasão de Saigon, nasceu a República Socialista do Vietnã, em julho de 1976. Nos dez anos seguintes, o país viveu o período da “economia subsidiada” (Bao Cap), marcado pela coletivização da agricultura, pelos campos de reeducação forçada e pela carestia generalizada. Nesse período, mais de 800 mil vietnamitas deixaram o país – a maioria em pequenas embarcações. Era o “boat people”, vietnamitas que abandonaram a ineficiência e a penúria do “sistema de cupons”, necessários para adquirir de arroz e carnes a roupas e bicicletas. Em 1986, o país estava falido, passava por uma crise alimentar sem precedentes, e com uma inflação que batia os 700% ao ano. Foi quando se iniciou o período chamado de “renovação” (Doi Moi), a substituição da coletivização das terras e controle estatal generalizado pela paulatina abertura econômica do país, com reformas liberalizantes, privatizações e atração de investimentos externos – uma economia de mercado com orientação socialista, seguindo o exemplo da China. A economia deu um salto, e em 20 anos o país se tornou um dos grandes exportadores agrícolas do mundo, de pimenta, café, arroz e castanhas. Com uma indústria pujante, o Vietnã é o terceiro maior país asiático em exportações de manufaturados e o segundo em exportações de têxteis, calçados e produtos eletrônicos. Os investimentos estrangeiros já superam US$ 22 bilhões ao ano. >> Uma universidade privada no regime comunista mais fechado do mundo A bem-sucedida abertura econômica do Vietnã foi a forma que o Partido Comunista encontrou para se autopreservar. “O PC vietnamita tem como objetivo criar 1 milhão de empregos ao ano e manter a população feliz”, afirma Ben Kiernam, professor de história da Universidade Yale e autor de três livros sobre o país. “Além disso, o país vive um babyboom só comparável ao dos Estados Unidos no final da Segunda Guerra.” O padrão de vida das pessoas melhorou, seus horizontes se alargaram e sua ambição cresceu. Esse é o perigo para o Partido Comunista. O casamento entre o controle do Estado e a liberalização econômica, entre o Partido e os interesses privados, causa uma distorção. Os casos de corrupção dispararam, e a população percebe isso. A situação é ainda mais grave porque os corruptos não foram eleitos pelo povo e não podem sair do poder pelo voto. Em 2014, o Vietnã ficou em 119o lugar no ranking de percepção de corrupção da Transparência Internacional (a Rússia ficou em 136o lugar; o Brasil, em 69o). Um grupo de 61 quadros do Partido, entre eles um ex-embaixador em Pequim, divulgou no ano passado uma carta aberta, denunciando a atual liderança do país, acusada de tomar o caminho errado, e pedindo uma “guinada decisiva” de ditadura para democracia, para acabar com a corrupção. PUJANÇA Motocicletas no confuso tráfego da Cidade de Ho Chi Minh (no alto) e uma operária na fábrica de monitores da LG na cidade. Cenas do crescimento econômico (Foto: Justin Mott/The New York Times e Justin Mott/Corbis) PUJANÇA Motocicletas no confuso tráfego da Cidade de Ho Chi Minh (no alto) e uma operária na fábrica de monitores da LG na cidade. Cenas do crescimento econômico (Foto: Justin Mott/The New York Times e Justin Mott/Corbis) O Vietnã de hoje é um país em que metade da população de 91 milhões de habitantes tem menos de 30 anos, não viveu os horrores da guerra e não se lembra do pior período do comunismo. Satisfeita com os avanços econômicos, a população, mais bem-educada, pode se levantar contra o autoritarismo e a corrupção. “A mudança demográfica no Vietnã vai obrigar o Partido Comunista a se mexer”, diz Bill Hayton, ex-correspondente na Ásia por 20 anos e autor de dois livros sobre o país. Quarenta anos depois do fim da guerra que mudou o destino do Vietnã, o Partido Comunista vai ter de lidar com o paradoxo criado por ele mesmo.



Fonte: epoca.globo.com
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