Por: | 11/02/2025
Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Os livros
Gosto desta frase de Artur Rubenstein: Como conceber o mundo sem a música? Valendo- me da paráfrase, faço-me uma pergunta parecida: Como conceber o mundo sem os livros?
Desde menino pequeno que gosto dos livros. Gosto de tê-los, de ler e reler suas páginas como se seguisse um sagrado ritual. Gosto de tocar seu dorso, examinar as capas, frequentar suas alamedas cheias de sentido,
bolinar esta ou aquela passagem como se manipula uma erva erótica que nos incita ao prazer e ao milagre.
Sou de pegar neles, os livros, como se pegasse uma pepita mágica, um utensílio raro e sedutor, uma pequenina lâmina que corta os artelhos da sabedoria, um artefato real e intangível que se faz memória da fauna, da flora e dos elementos que nos configuram.
Gosto de sublinhar suas palavras, anotar comentários ao pé da página, grifar aquilo que me assusta ou me comove. Principalmente o que me deixa perplexo, doído, alucinado. Gosto de rasurar, tomado pelo encanto de certas verdades ou pelos tormentos de certa beleza, seus enormes vazios, sua elástica indeterminação.
Os históricos me jogam na fábula do passado, esta estranha experiência que nunca passa. Como me pesa o solo do passado! Os filosóficos parecem estrumar a terra venturosa do pensamento. Os poéticos me põem dentro do reino especular que aviva o mistério e atiça os signos dos fenômenos vitais.
Como gosto dos livros, tenho muitos. Gosto de possuí-los, de acumulá-los, de colecionar suas edições, de procurá-los nas livrarias e nos sebos, atento a seus temas, formatos, valores e raridade. Vivo procurando brochuras e alfarrábios. Não saberia viver sem os livros.
Vivo sempre de olho na estante. Arrumar meus livros me conforta e me alimenta. As vezes, os contemplo, em silêncio, como entidades únicas que me fazem o que sou e a que, certamente, a mim, irão sobreviver.
Sinto que em cada livro há um tiquinho de imortalidade refletindo suas luzes de outro tempo e de outros lugares. Os livros me dão a doida sensação da ubiquidade. Como um Deus desgovernado hábito o interior dos seus capítulos e parágrafos, estando ali, aqui, acolá, respirando a aragem multifacetada de desconhecidas geografias.
Neste, percorro o Egito e me banho, solitário, nas águas do Nilo. Naquele, escalo os cumes do Himalaia, recupero as lições de vetustas dinastias. Já num outro, adentro as cavernas da primeira poesia e falo o idioma de anjos seculares. Os livros contém tudo. A vida e a morte.
Meus livros são a minha casa, o meu lar, a minha vida. Eles me dão memória, sensibilidade, pensamento, linguagem e imaginação. Quando estou triste, eles aceitam e acolhem a minha tristeza. Na alegria sorriem comigo. Estão onde estou. Em meio da travessia, na rua, na praça, no bar, no carro, na praia, na pedra, nas locas, nas furnas, na utopia.
Por eles, para eles, com eles, vou vivendo.
(Texto publicado ontem, 09 de fevereiro de 2025, em A União).