Renato Uchoa
Renato Uchoa
Renato Uchoa

UMA QUESTÃO DE HONRA

Por: | 01/06/2025

 


Gonzaga da Cacimba, morador da cidade de Princesa Isabel, na Paraíba, agiu baseado no Código de Honra do Nordeste, em 1979, que salteia e ainda faz morada no coração e na mente de milhões de nordestinos e brasileiros. Gonzaga matou sete pessoas de uma mesma família, tornando-se o Mata Sete de Princesa. Daí a origem do apelido dado pela imprensa. Pelos relatos de quem conviveu com ele, Gonzaga foi um homem bom e pacato até na pisada. Cobria o corpo com um terno branco, batia pernas nos cumprimentos às pessoas e comprava doces para as crianças, no ponto principal das cidades pequenas do interior: a feira do mercado. É lá que ainda hoje se encontra a tapioca, a macaxeira, o arrumadinho de charque, o inhame, o porco assado, a buchada de bode, o sarapatel, a carne de sol e o cuscuz de milho ou de arroz.

 E, dependendo da região, com o perfume da manteiga da terra (manteiga de nata). Foi lá onde, no período imperial, a revolta popular conhecida como o Ronco das Abelhas fez morada, entre dezenas de outros/as que aconteceram. Um movimento de revolta que se alastrou, principalmente, pelo Nordeste. Nas feiras e nos mercados, o povo reagiu contra o poder imperial, nos idos de 1851 e 1852, com destaque para Pernambuco e Paraíba... Vai com a graxa ou sem? Capricha, Dona Paixão, Mercado da Piçarra em Teresina/PI. 

Luiz Gonzaga Pereira dos Santos acolheu de corpo e alma, no Sítio Caldeirão, Fernando Alves de Almeida, já com 23 anos no espinhaço. Batizado e criado para não cometer crimes. Educação que não tem endereço na escola da elite, mas dança na sala, cozinha, terraço e quintal nos tempos bons ou ruins, no seio das camadas subalternas. Ensinamentos herdados dos ancestrais na formação do caráter, na prática da solidariedade e na convivência de respeito a si e aos outros. Não roubar o que é do povo, como o usurpador Temer, Eduardo Cunha, todas as cunhas nos bolsos do PSDB, PMDB, DEM... Milhares delas desde que Cabral pisou na Terra de Santa Cruz, para cravar na moleira dos índios, mulheres, negros...  Fernando se apaixonou por Vera Lúcia, que tinha 12 anos; romance secreto que motivou posteriormente a tragédia.  Fernando farejou o perfume da morte quando “mexeu” com Vera. Selou o cavalo, com a ajuda dos pais e Seu Gonzaga da Cacimba, no pinote em direção a São Paulo. Deu o bote certeiro no pensamento... Passou a perna em Vera e, num cangapé, trincou a honra do Seu Gonzaga, como se diz aqui no Nordeste, quando não voltou para casar. 

Três anos de angústia, de espera. Não veio cumprir a promessa sagrada da palavra empenhada sem registro no cartório. Tirou o passaporte para o Céu ou o Inferno quando as notícias com fotos do casório com outra, em São Paulo, causaram uma tempestade de ódio. Baldeando, azucrinando e espezinhando, com a desfeita, o juízo de Gonzaga da Cacimba, por meio do piu de plantão dos fuxiqueiros/as costumeiros/as das esquinas e janelas da cidade. Nas universidades e em todas as repartições públicas ou privadas, os especialistas em fuxico se batem nos corredores. 

Há pessoas que juram de pés juntos que Gonzaga da Cacimba foi a São Paulo várias vezes para cobrar a conta, pagar o caixão de Fernando e oferecer a mortalha de presente. Nunca o encontrou. Gonzaga da Cacimba decidiu, então, matar a família de Fernando. Cobrar a promissória da família, vingar para lavar a honra, baseado no Código de Honra que mutila ou mata milhares de mulheres no Brasil de dentro a fora, pela cultura da posse. Em 29 de junho de 1979, dia de São Pedro e São Paulo, as fogueiras enfeitam as ruas e o milho aguarda o sapecado, o aluar, a canjica para a festa em homenagem aos santos. Gonzaga da Cacimba ajeita o candeeiro, quando a lua prateada, no lugar do sol, lança no mundo a cor da sua beleza. Engoma o revólver e, decidido, ruma em direção à casa da família de Fernando, o autor da desonra. Mata na mesa do jantar, na hora sagrada, José Alves de Almeida e mais seis pessoas, a esposa e os cinco filhos. Antes do ato cruel, hediondo, indefensável, ordena que uma prima de Fernando, de nome de Maria do Socorro Alves, se retire do local. Gonzaga da Cacimba se transforma no Mata Sete de Princesa, e 24h por dia a imprensa nos assusta, causando pavor e medo do sertão à capital João Pessoa. 

Mostram os sete mortos dos caixões, transformando o dia de São Pedro e São Paulo no carnaval macabro que a mídia faz com qualquer um na busca por audiência. Um crime de repercussão nacional. Após três anos fugindo, o grande final. Em março de 1981, o cerco policial é feito. Gonzaga da Cacimba não se entrega e, nos últimos momentos da vida, nos ensina não com o assassinato cruel da família, mas na afirmação “morro como homem, como um ser humano que não é um bandido”. Gonzaga se recusou a morrer apodrecendo em um presídio, exposto nas vitrines da morte que caracterizam a situação dos apenados. Enfrentou a polícia a bala, no maior tiroteio localizado que já houve por lá. Reagiu e foi fuzilado. Há quem diga que o barulho dos tiros acordou a princesa Isabel na cova, figura ilustre que a cidade homenageia com a graça.


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