- Você está tentando se identificar comigo, fazer meu trabalho. Será que você não desejou ultrapassar os homens em seu trabalho? Humilhá-los com seu sucesso?
– Na verdade, não. Eu ajudo os homens constantemente com seu trabalho, faço sacrifícios por eles. – Eu os encorajo, admiro, aplaudo. Não, Allendy está muito errado.
Ele diz:
- Talvez você seja uma daquelas mulheres que são amigas, e não inimigas do homem.
- Mais do que isso. Meu sonho original era me casar com um gênio e servi-lo, não ser um gênio. Quando escrevi o livro sobre Lawrence, quis que Eduardo colaborasse comigo. Agora mesmo sei que ele poderia ter escrito um livro melhor, só que sou eu que tenho a energia, o impulso.
Allendy:
- Você conhece o complexo de Diana, a mulher que inveja o homem por sua força sexual.
- Já senti isso, sim, sexualmente. Gostaria de poder possuir June e outras mulheres bonitas.
(...)
Penso em minha insegurança com mulheres, incerta do papel que quero desempenhar. Num sonho é June que tem um pênis. Ao mesmo tempo, admito a Allendy que imaginei que uma vida mais livre seria possível para mim como lésbica porque eu escolheria uma mulher, a protegeria, trabalharia para ela, a amaria por sua beleza, enquanto ela poderia me amar como se ama um homem, por seu talento, seu desempenho, seu caráter. (Eu me lembrava de Stephen em O poço da solidão, que não era belo, que chegou a ficar com uma cicatriz na guerra, e que era amado por Mary.) Isto seria um alívio do tormento da falta de confiança em meus poderes de mulher. Eliminaria toda preocupação com minha beleza, saúde ou potência sexual. Isto me faria confiante porque tudo dependeria de meu talento, criatividade, genialidade, nos quais acredito.
Trecho do livro Henry & June: Diários não expurgados de Anaïs Nin (1931-1932), de Anaïs Nin, L&PMPOCKET, Porto Alegre, RS, 2014 – fragmentos das páginas 127, 128 e 129.
Para os homens, há algo mais delicado do que conviver com mulheres: falar sobre elas. Principalmente das que, hoje, buscam reconhecimento de competência profissional e, mais, artística. Porque, entre profissionais, artistas estão entre os mais apreciados – e invejados; principalmente quando conquistam sucesso no reconhecimento público dos valores de seus trabalhos (embora o próprio artista já possa sentir ter obtido sucesso quando da prazerosa apreciação de sua obra, mesmo sem ninguém ter ciência dela), já que, mais que qualquer profissional, eles têm maiores oportunidades de livremente se expressar, dando mostras de elevada inteligência no exercício da criatividade e, quando intelectuais, do senso crítico; enquanto apurado observadores dos sentidos da Vida na leitura do que foi imposto “valioso” no mundo; e mais: quando observador de sua própria vida.
Evidentemente, por ser artista, uma pessoa não é necessariamente melhor que outra, embora possa ser reconhecida superior em criatividade, não sendo por isso superior enquanto pretenso humano. Pois há artistas desumanos servidores do Mal com suficiente inventividade à construção de conceitos e artefatos que servirão a destruições de tudo que é inequivocamente reconhecido bom, belo e necessário.
Infelizmente, pra nossa necessária autocrítica (e justo repúdio das mulheres), é inevitável dizer que a esmagadora maioria dos que fazem males está entre os machos da espécie que genericamente reconhecemos “humana”, embora também tenha sido quem, ao longo dos milênios, desenvolveu bens; quer na iniciação ideológica do Abstrato – quando especulam, pensam, filosofam, idealizam a saber ou definir valores à civilidade (aquém dos “divinos”) ao aprimoramento do caráter (sic); quer quando, depois, muitas vezes sacrificando o convívio com a família, dedicam suas vidas ao estudo, à pesquisa, às experimentações e comprovações que, um tanto submissas as intuições, os tornam aptos à objetivação de obras capazes de gerar conforto para o corpo e alento para a alma – estando as mulheres ainda alegando que não participaram disso porque, por preconceitos machistas patriarcais, lhes foram e são negadas oportunidades para tanto.
Mesmo sendo maioria entre nós, as mulheres são ou se mostram minoria entre artistas. Mas também é minoritária a quantidade dos homens que produzem artes, sendo mais reduzido o número dos que, homens ou mulheres, produzem Literatura, havendo distinções entre conteúdos na literatura masculina e feminina – embora as mulheres que escrevem se oponham a essa ideia. Pois expressões artísticas são espécies de reflexos de espelhos: se os espelhos refletem qualquer coisa que se lhes ponha na frente, as obras de artes refletem boa parte da essência da vida dos artistas que as produzem, sempre de acordo não apenas com suas naturezas originais (quando do sexo masculino, feminino ou se homossexuais) e/ou das idiossincrasias da cultura onde foram e são criados (se orientais ou ocidentais, considerados negros, brancos, pardos ou amarelos), mas das épocas quando viveram e vivem.
Dessa forma, é relativamente simples identificar características de uma literatura produzida por mulheres, cuja característica básica é a criativa variação de seu tema preferido: investigações da condição sociológica humana feminina, expressa raramente em ensaios filosóficos[1], muitos poemas, algumas crônicas e contos, embora produzindo poucas novelas e romances que, normalmente, versam sobre suas relações com seus “dominadores” e as consequências de sua solidão e abandono; às reivindicações do afeto masculino enquanto primária expressão do amor[2], parecendo isso claro nos trechos do texto da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977), transcrito do livro supracitado, cujo conteúdo é considerado partes de seu diário e sobre o qual se discute “o quanto de ficção e fantasia ele contém – o que não tira em nada a força do texto de Anaïs; somente reforça a questão: não será a própria Anaïs a mulher misteriosa e complexa que a atraiu em June?[3]”.
Mais que isso, a parte do texto que transcrevi a título de introdução desse comentário – sem que se desconsidere todo conteúdo do livro[4]– sintetiza o leitmotiv das vidas, não apenas das mulheres francesas, mas do universo feminino em geral. Pois entre mulheres, embora menos do que preocupações com a superação de complexos individuais[5], parece haver certa “inveja” dos poderes da masculinidade; não necessariamente uma “inveja do pênis”, como Freud disse que têm[6], mas de toda compleição orgânica e psicológica da masculinidade; não inveja de todos[7] os homens, mas dos mais admiráveis (como também nós temos) e, consequentemente, desejáveis[8], sendo acusadas de fazerem avaliações superficiais sobre as múltiplas dimensões da Vida e das artes – talvez a razão pela qual, enquanto escritoras, elas andam com seus nomes ausentes da lista dos que são indicados ao Prêmio Nobel de Literatura. E mesmo que, em observações dos valores masculinos, Anaïs Nin, exemplificando o profundo sentimento feminino, cite o caso de “Stephen”, personagem do livro O poço da solidão, “que não era belo, que chegou a ficar com uma cicatriz na guerra, e que era amado por Mary”. Pois, contrário a Mary, mesmo quando dotados de certa profundidade investigativa, devemos nos confessar incapazes de “amar” mulheres cujos dotes físicos não nos atraiam primeiro!
Claro que, como escrevi antes, obras de artes refletem boa parte da essência e da vida cultural dos artistas que as produzem.
Assim, tendo Anaïs Nin nascido em 1903 e vivido até 1977, mesmo sendo europeia – estando europeus milênios a nossa frente em ousadas conquistas socioculturais (principalmente entre mulheres francesas, mesmo estando muitas escritoras ainda afeitas à produção de um “libertária literatura erótica”[9]- pode-se atribuir as preocupações e interesses de Anaïs enquanto característica das mulheres de seu tempo; mesmo que, como observei, povos mais antigos tenham já se desenvolvido mais do que ainda pretendemos! Pois se fizermos pesquisa sobre o que escrevem mulheres, veremos que a esmagadora maioria das escritoras de todas as épocas e nações tem o mesmo “mote” à produção de textos; como observei antes, havendo exceções encontradas nos livros de escritoras como a polonesa naturalizada norte-americana Doris Lessing[10], cujo motivo de sua produção literária extrapolou os limites do que normalmente se pode identificar “literatura feminina” e fê-la produzir livros de ficção-científica antropológica repletos de especulações metafísico-sociais[11]; algo tão caracteristicamente masculino (sic) que o jornalista e crítico Paulo Francis a considerou digna de ser reconhecida entre melhores “escritores”; menos por ironia do que pelo reconhecimento de sua transcende[12]masculina verve criativa.
[1] Entre os mais conhecidos, O segundo sexo, da feminista francesa Simone de Bouvair.
[2] E mais quando expresso no ato sexual, onde se pode demonstrar, por intermédio de carinhos, todo amor que dizemos sentir.
[3] Transcrito do texto da contracapa do livro.
[4] Com 256 páginas.
[5] Estando explícito quando ela escreveu “Penso em minha insegurança com mulheres, incerta do papel que quero desempenhar”.
[6] Embora apenas provavelmente para sintetizar todas as características que despertam a inveja feminina.
[7] Embora não tenha sido raro ouvir de muitas mulheres que ser homem (qualquer um) é melhor que ser mulher.
[8] Explicitado no trecho “admito a Allendy que imaginei que uma vida mais livre seria possível para mim como lésbica porque eu escolheria uma mulher, a protegeria, trabalharia para ela, a amaria por sua beleza, enquanto ela poderia me amar como se ama um homem, por seu talento, seu desempenho, seu caráter”.
[9] Como a escritora Anne-Marie Villefranche (1899-1980) e seu livro Contos eróticos de Paris: 15 textos selecionados (Edições BestBolso, Rio de Janeiro, RJ, 2013), segundo The Observer, “Um tributo erótico a Paris do início do século XX que vai encantar os leitores modernos”, cujo conteúdo decorre de “um de seus passatempos preferidos e secretos: escrever sobre as aventuras amorosas dos amigos e conhecidos”, tendo sido tais relatos entregues à sua neta depois de sua morte.
[10] Escrevi “escritoras”, mas confesso que nunca li nenhuma outra que tenha tido interesse de escrever sobre o que Doris Lessing escreveu.
[11] Como sua série Canopus em Argos, cujo título do primeiro livro é Shikasta, série que dizia representar o melhor que já escrevera.
[12] Transcendente não apenas na consideração da qualidade de seu universo imaginário, mas por ter superado o que normalmente caracteriza a literatura feminina.
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário