Quando eu deixar de ser eu, não adianta me procurar, se ainda aqui estiver, procura-me, ficarei eternamente grato pela sua visita.
Quando eu me ausentar desse torrão sublime, deixar de ouvir o gorjear dos pássaros, o coaxar dos répteis no riacho, o mugido do novilho saindo do curral e o cantar do galo nas madrugadas frias. Acalenta-te ao lado da tua puberdade e louva aos céus pela longevidade da minha estada aqui na terra. Pois, crescemos juntos, vivemos próximos por anos a fio. Debelamos procelas, desafiamos grandes desafios e continuamos a desbravar as estradas deste mundão que não tem fim. Mas a nossa história é tal qual a história de quem vai e de quem vem. É idêntica à trajetória dos nossos ancestrais que atravessaram o além-mar nos porões dos navios negreiros.
Quando eu não mais puder sobreviver à essência do poder das palavras, de perder a força que me ascende ao domínio do pêndulo da vaidade, afrouxa as cordas da liberdade, pois chegou a hora da minha viagem. Antes de tudo, vista-me com um lençol de algodão que trago guardado naquele velho armário que herdei da minha genitora quando da hora da sua travessia. Tão somente isso. Do contrário, partirei decepcionado com as suas decisões.
Quando eu deixar de ser eu, não adianta me procurar, se ainda aqui estiver, procure-me, ficarei eternamente grato pela sua visita.
Caldas
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