Areia de pote
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Dividindo ao meio - A Germano Romero

Por: Francisco Gil Messias | 08/08/2025

Dividindo ao meio


Francisco Gil Messias

gmessias@reitoria.ufpb.br



A Germano Romero



Pessoas podem ser divididas das mais diversas maneiras, infinitas maneiras, na verdade. Cada qual escolhe o critério divisor que quiser, o que pode trazer revelações mais sérias ou apenas diversão. Os antigos fãs de Marlene ou de Emilinha Borba, por exemplo. Ou a cisão entre criacionistas e evolucionistas. Pensando um pouco sobre o assunto, concluí que também é possível dividi-las entre as que apreciam o Adágio for Strings (Adágio para cordas), de Barber, Samuel Barber, compositor norte-americano (1910 – 1981), e as que não. Para mim, um critério tão válido quanto qualquer outro, um critério suficiente para distinguir as pessoas, de modo a identificar, só com ele, quem é quem; ou melhor, como é cada qual, sua maneira de ser, pois, no caso, é o “como” que importa mais.


Um psicanalista, imagino, faria grandes avanços interpretativos só com essa divisão que proponho. Quanto revelariam as respostas dos pacientes sobre seu temperamento e sensibilidade! No divã analítico essas informações valem muito, desenham um perfil. Seria útil, portanto, já na primeira sessão, perguntar logo ao paciente quais as suas preferências, e, a partir daí, construir um projeto específico de análise para aquele caso. Ouso até dizer mais, na condição de leigo: é possível que a escolha entre as opções apresentadas diga praticamente tudo que interessa sobre o paciente e sua personalidade, derivando daí tudo o mais. 


De fato, há uma distância e uma diferença imensas entre alguém que aprecia o adágio e outro que não; entre alguém que sabe contemplar a chuva e outro que não. São quase opostos um ao outro, com tudo que disso decorre. São modos distintos de encarar o mundo e de senti-lo. Representam maneiras diversas de viver a vida e conduzi-la. Isto, claro, não implica e não pode implicar em nenhum juízo de valor apriorístico sobre os sujeitos, mas é já um indício para uma eventual avaliação, o qual pode ser posteriormente confirmado ou não. Em todo caso, que ninguém seja condenado por não gostar de Samuel Barber – ou de qualquer outro. Não estamos a falar disso. 


Imagino que há grande chance de o paciente não conhecer o tal adágio, pois ninguém está obrigado a tal. Então, será (seria) o caso de o analista colocar o paciente para ouvir em silêncio a peça musical, a fim de colher sua opinião sobre ela. Haverá quem goste e quem não. Haverá os que a achem muito triste, depressiva até, e por isso a rejeitem. Haverá os que a achem belíssima, tocante e reflexiva, e por isso a aclamem. Mas não haverá, estou certo, indiferença. É impossível, dada a impressão que o adágio causa nos que o escutam, sensíveis ou não. Pois é obra única, avassaladora.


O adágio de Barber me faz lembrar a trilha sonora do filme Morte em Veneza. É uma composição de Gustav Mahler, se não me engano, compositor austríaco (1860 – 1911). O fundo musical das cenas iniciais da película, quando o protagonista vem chegando, de barco, a Veneza, impõe-nos o mesmo silêncio respeitoso que a peça de Barber.  Possui a gravidade e a beleza de um réquiem. No filme em questão, tal música é perfeita, pois, sabe-se, tem tudo a ver com o enredo e seu trágico final. Mas não pense o leitor que se trata de algo pesado e mórbido. Só um ignorante pensaria assim. Ao contrário, é beleza em estado puro, com a capacidade de elevar  e enlevar os ouvintes. 


Tudo isso me convence então de que faz algum sentido dividir as pessoas entre as que gostam do adágio de Barber e as que não. Não para discriminá-las, como disse, mas apenas para conhecê-las um pouco mais. Da mesma forma que as conhecemos melhor quando escolhem entre Florença e Orlando. São indícios simplesmente, e é com eles que traçamos não o rosto mas a alma dos semelhantes. 


Bem sei que estou a meter-me em domínios que não são os meus, se é que os tenho. Melhor seria (será) pedir a Germano que escreva sobre o tema, com a sua ciência musical e seus múltiplos talentos. Saberá ele, certamente, decodificar para os leigos tanto Barber quanto Mahler, nas obras aqui referidas. E aí sim, quem sabe, possamos melhor classificar as pessoas, verificando se se justifica a minha classificação.


E se “de tudo faz-se a crônica”, como escreveu Drummond, do nada fez-se esta.



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