Mirtzi Lima Ribeiro
Estamos em uma época de choques culturais, ideológicos e civilizacionais. Transitamos em uma zona de turbulência, onde há conceitos equivocados que foram absorvidos outrora no viés de narrativas unilaterais, portanto capciosas, que continuam no imaginário de muitos, sendo alimentados por crendices e medos infundados. Monstros se formam a partir deste imaginário e despertam temores cruciais que gestam e nutrem ódios em proporções alarmantes.
Sabemos que o binômio medo e ignorância no sentido de falta de conhecimento, podem gerar posicionamentos assim como comportamentos radicais, desarrazoados e violentos. Do mesmo modo, se grupos de indivíduos são submetidos a grande escassez e miséria por muito tempo, isso gera revolta.
Um observador imparcial e atento vê sem os olhos da paixão, portanto pode enxergar os graus de incongruência e de senso irreal que ideias radicais carregam. Podemos ver o ódio destrutivo nos olhos de quem abraçou essa vertente, cuja origem vem de um medo avassalador e irracional. Entretanto, esse medo doentio alimentado por conteúdos que o reforçam, estão alicerçados sobre pântanos imaginários, que tomam vida e carimbam o objeto de seu temor como destruidor fatal dos valores que eles reputam como primordiais.
Por esses dias, considerei inteligente uma pessoa por sua trajetória profissional, currículo e ideias inovadoras para adaptação e aplicação à realidade atual em determinado segmento. Pela postura inovadora dele e ao mesmo tempo por defender pressupostos conservadores, eu lhe disse que eu via nele o conservador mais progressista que eu já havia conhecido.
Tomado de espanto pela minha constatação, ato contínuo, ouvi dele o jargão amplamente repetido e difundido por conservadores: “mas eu não abro mão de três valores fundamentais, que são Deus, família e propriedade”.
Não fui tomada de surpresa porque ele já havia dado sinais claros do repúdio a pressupostos progressistas, embora estivesse trazendo ideias inovadoras. Mas não deixei de perceber que esse slogan jorrou dele quase como um vômito inconsciente com vistas a demarcar seu espectro político.
É bom afirmar categoricamente que no mundo atual, quer alguém esteja focado no espectro político de esquerda, centro-esquerda, socialista, progressista ou até comunista, ninguém tem como ideal destruir famílias, usurpar propriedade alheia ou abdicar do conceito de uma inteligência ou de uma ordem cósmica que baliza os universos e a vida (grandeza à qual muitos chamam de Deus, Javé, Iavé ou Jeová).
Até ateus entendem que a ordem e o caos no universo seguem certas leis físicas que pressupõem inteligência superior, mesmo que não saibam explicá-la e evitem adentrar nesses temas.
No passado, aspectos muito peculiares motivaram levantes das massas humanas que sofriam pela fome, pelo frio extremo sem ter como se aquecer e outras penúrias muitas vezes mortais, como foi o caso que culminou na revolta bolchevique.
Espera-se que nos dias de hoje, camponeses ou pessoas em pobreza extrema, não passem fome a ponto de morrerem sob a neve e que os sobreviventes não sejam obrigados pelas circunstâncias a comer cadáveres cozidos porque não teriam mais nenhuma outra alternativa alimentar, pelos solos varados por densa neve, campos sem vegetação e nenhum nutriente à vista por quilômetros de distância.
Enquanto esse povo morria de fome e miséria, na bela capital, o Kzar (espécie de monarca russo), junto com sua alta sociedade vivia de festas nababescas, regadas a bebidas e farta alimentação, esbanjando opulência.
Alguém imagina como fica um povo que passa por isso meses a fio, anos consecutivos sem ter nenhuma esperança? A população aceitou o apelo, o levante bolchevique, porque já estava morta por dentro, vivendo em uma miséria sem precedentes.
Quem leu a história pela narrativa dos dois lados, sabe porque aquela situação culminou naquele momento e levante pungente. A adesão do povão ao movimento bolchevique se deu porque pela primeira vez se abria uma luz no fim do túnel para eles que viviam em uma vida de penúria e miséria sem precedentes na história russa.
Coisa semelhante ocorreu com a “Queda da Bastilha”, na França, marco inicial da Revolução Francesa, em razão da fome extrema em um contexto de penúria do povo, comparado ao absolutismo de seu Rei e sua vida de alto luxo junto à corte de nobres franceses.
Espera-se que esse tipo de contexto, dos níveis colossais de desigualdade nunca mais ocorra. Espera-se que haja uma redução na desigualdade social com vistas a manter equilíbrio, justiça social e ordem no mundo.
Entretanto, atualmente temos fato semelhante sendo observado em Gaza, com o agravante das bombas e da obstrução para que cheguem medicamentos, alimentação e água potável aos inúmeros feridos e famintos. É um cerco cruel, uma atrocidade que vem matando e massacrando civis, especialmente crianças, mulheres e idosos.
Pelo que aqui foi descrito e pelo que a história demonstra, todo levante sangrento da sociedade se deu dentro de contextos de extrema pobreza do povo enquanto uns poucos que detinham o poder estavam nadando em privilégios e pompas.
Voltando à pecha do amigo sobre “não abrir mão da propriedade”, no Brasil quem tem invadido terras atualmente são os grileiros, que geralmente já são latifundiários ou são mercenários, ou são integrantes de garimpo ilegal. Quem toma e leiloa propriedades e casas são os bancos em função de inadimplência por empréstimos que foram contraídos tendo por garantia o referido imóvel.
A grilagem se refere à falsificação de documentos com o objetivo de se apropriar ilegalmente de terras, ou alteração de limites de propriedade à revelia do vizinho e dono. Tais fatos afetam geralmente áreas de preservação ambiental e terras indígenas, para perpetrar desmatamento, com perda de biodiversidade e com criação de inúmeros conflitos sociais.
Logo, para esse trinômio verbalizado e defendido por conservadores, já existem no Brasil, leis que os asseguram. Portanto, tais medos desmedidos não são pertinentes, não são reais e não deveria fazer parte de seus argumentos para nenhuma hipótese. São medos infundados e ideias inconsistentes.
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