Areia de pote
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A presença cultural de Irani Medeiros

Por: Francisco Gil Messias | 31/10/2025

A presença cultural de Irani Medeiros


Francisco Gil Messias

gmessias@reitoria.ufpb.br


Irani Medeiros não é um neófito. Já há algum tempo é uma presença na cena cultural pessoense. E não se contenta apenas em ficar na plateia, mas sobe ao palco: publica livros,  comparece aos eventos literários da aldeia, frequenta sebos e livrarias, e cultiva a boa conversa intelectual, seja onde for. Participa, enfim. E participar não é pouco.


Nascido em Pombal e radicado na capital, conserva o sentimento telúrico dos sertanejos autênticos, uma gente valorosa que quando sai do sertão, carrega-o sempre na alma - e no pensamento. Isso certamente explica um pouco o seu interesse, como pesquisador e autor, pela cultura popular paraibana e nordestina. É um genuíno homem da terra, reverenciando-a sempre que pode e como pode. Quem o conhece, sabe-o discreto, quase silencioso, mais de ouvir que de falar, como costumam ser os que pertencem ao Brasil profundo, homens e mulheres econômicos na palavra e em tudo o mais, menos no acolhimento, cauteloso inicialmente e logo a seguir derramado sem reservas. 


A produção de Irani transita por vários gêneros, o que prova sua versatilidade. Em ensaios, contos, romances, biografias e poemas, ele se comunica com o leitor, dá o seu recado. Porque literatura antes de mais nada é isso: comunicação, o bom uso da palavra escrita para levar às pessoas pensamentos e sensibilidades. Agora o autor nos apresenta o seu Pássaros da Liturgia (Edição do Autor, São Paulo, 2025), reunião de poemas, exatamente cento e seis, mais curtos que extensos, mostra de sua capacidade de síntese.


No prefácio, Hildeberto Barbosa Filho registrou o seguinte: “Irani Medeiros me parece um poeta inquieto e inquietante, na medida em que, convicto dos mágicos poderes dos vocábulos e de sua intrínseca energia reveladora, mergulha, fundo, na ilogicidade secreta que fundamenta a presença das coisas, o idioma da natureza, o hieróglifo dos fenômenos, os pastos de dor e alegria por onde caminha, solitário e misterioso, o destino dos bichos e das pessoas.” Eis o poder de interpretação e de expressão do nosso crítico, que também é poeta – e dos maiores. 


Nos livros de poemas sempre identifico aqueles que me tocam mais de perto. Geralmente mais pelo tema que pela forma. Nesta obra de Irani separei especialmente dois poemas. O primeiro é Alforges, e me tocou por seu indisfarçável conteúdo memorialista:


o algodão florescia na infância,

o vento fazia galope

trazendo os pássaros.


a heráldica da tarde

  tinha gravuras

e a brevidade dos rios.


nos parcos alforges

carregava esperança

cantando a vida

na varanda da casa antiga.


menino de aves nos olhos,

o latifúndio era prisão,

a fome na garganta

e a boca seca de aboiar.


o avô quase centenário 

via nos moinhos o tempo passar

nas crinas de eternos cavalos.


Vê-se, pois, que o poeta dispensa as rimas fáceis (ou difíceis), para se deter na essencialidade das palavras em si mesmas. O conteúdo importando mais que a forma ou tanto quanto. E o velho ascendente acima evocado retorna de corpo inteiro no poema Meu avô, que também me toca, em minha orfandade avoenga:


meu avô com dedos mágicos

traçou meu destino

ante os olhos da existência.


meu avô desenhou

a batalha das reticências

e a alvenaria dos meus dias.


meu avô com dedos magros

escreveu a geografia inexorável

da desventura humana.


meu avô com olhar terno

fez louvor à Aldebarã

e encantou-se numa tarde de verão.


Eis uma pequena amostra do labor poético de Irani. Sua poesia não é hermética, mas também não é óbvia. Ela requer do leitor uma leitura atenta e sem pressa, para que se alcance plenamente o sentido nem sempre explícito de cada poema. 


E assim o poeta pombalense vai marcando cada vez mais sua presença na cultura da cidade. Sem barulhos nem espalhafatos, como convém a um sertanejo da gema, mais afeito ao silêncio. Aos poucos, ele constrói a sua obra. E se impõe ao respeito aldeão. 


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