Ensaios Irreverentes
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AMIGAS QUE SE VÃO

Por: Clemente Rosas | 01/11/2025

AMIGAS QUE SE VÃO

                                              Clemente Rosas

Há algum tempo, nesta Revista, publiquei a crônica “Nossos Amigos Suicidas”, falando das perdas que sofremos em determinadas  circunstâncias, e do nosso desconforto em considerar que talvez pudéssemos, com alguma interferência, ter evitado aqueles trágicos desfechos. Não poderia imaginar então que tão brevemente iria voltar ao tema, lembrando o tom elegíaco do poeta romântico Álvares de Azevedo, naquela “voz sombria como a do vento à noite nos cemitérios, cantando a nênia das flores murchas da morte”.

Mas a vida sempre nos traz surpresas. Por gentileza de um amigo, fui incluído num grupo de WhatsApp, ao lado de intelectuais de vários Estados – Rio, São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás – e foi por um deles que tive a notícia da morte de Isa Guerra, de quem tinha perdido a pista há muitos anos.  Cheguei a duvidar de que seria a mesma paraibana que chegou a ser personagem marcante do livro de Márcio Moreira Alves, “Torturas e Torturados”, logo nos primeiros anos da Ditadura Militar. Mas era mesmo.

Sobre ela, transcrevo trecho do meu livro “Praia do Flamengo 132 – Crônica do Movimento Estudantil nos Anos 1961-1962”, lançado em 1992:

“Isa era uma pessoa notável.  Originária de Campina Grande, onde moravam seus pais, alojava-se, em João Pessoa, num pensionato de freiras do velho mosteiro de São Bento.  Inteligente, charmosa e comunicativa, liderava naturalmente o bloco feminino, enquanto deslumbrava os seus coleguinhas do outro sexo. Se fosse, de fato, minha adversária, seria das mais temíveis.  Mas era mesmo uma fraterna amiga, desde a minha breve experiência de “jucista”, no primeiro ano de Faculdade...”

Desde então, só tive dela vagas notícias. Deslocou-se para o Rio, sofreu prisão com um noivo católico, exilou-se no Canadá, de onde voltou casada com um franco-canadense, ex-religioso, e enfim, após os anos de chumbo - como só agora fiquei sabendo - voltou a atuar na sua área de assistência social, tendo tido participação efetiva em programas educacionais do Governo da República.

Nesse meio tempo, teve breves passagens pela Paraíba.  Encontrei-a num fim de semana na praia de Camboinha, na casa de uma amiga, esposa de um militar da Marinha que não exigia folha-corrida dos seus convidados. E depois, na minha Praia Formosa, na companhia de um casal de franceses que, deslumbrados com a cor e a tepidez do nosso mar, passavam o dia em roupa de banho, só achando tempo para pintar aquarelas, com que nos brindavam. Soube que ainda despertou paixões, e abalou casamentos. Depois mergulhou na bruma da distância e do esquecimento - até agora, no momento em que para mim ressurge, com a sua morte.

Ainda mal refeito do impacto, sou surpreendido com outra morte. O amigo João Rego me telefona para dar notícia de Teresa Sales, que, na véspera, me havia ligado para conversar sobre o AVC que ela havia sofrido recentemente, e eu, cinco anos atrás. Disse-lhe como havia voltado a fazer caligrafia para recuperar minimamente a escrita, e como havia praticado fisioterapia, por três meses, para poder usar a mão direita nas refeições e na minha higiene pessoal. E lembrei que, para redigir textos mais longos, a digitação não exige mais que dois dedos.  Rimos muito, descontraídos das nossas mazelas, e não lhe notei nenhuma limitação, mental ou física. Pode-se imaginar uma morte mais inesperada?

E posso dizer que, dentre os seus amigos, sou o de conhecimento mais antigo.  Conheci Teresa ainda estudante, quando já tinha sido presa no congresso frustrado da UNE em Ibiúna, e namorava com José Hamilton, engenheiro formado no ITA e colega da SUDENE. Formávamos um grupo de casais com afinidades partidárias e formações variadas: médico, professora de história, arquitetos, advogado. Às vezes nos encontrávamos nos fins de semana numa casa para os lados do Forte de Itamaracá, sem luz nem água encanada, e acesso improvisado pelo meio do coqueiral. Segundo ouvi de Hamilton, foram os melhores anos de sua vida, e ele se lamentava de não poder revivê-los.

Depois, casados, Teresa e Hamilton mudaram-se para São Paulo. Prosperaram, criaram dois filhos, Teresa foi professora em Campinas, esteve algum tempo nos Estados Unidos, e foi autora de duas obras marcantes: “Cassacos e Corumbas”, estudo sobre os trabalhadores da cana de açúcar, fixos ou temporários, e “Brasileiros Fora de Casa”, sobre imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. O amor deles sobreviveu a todos os obstáculos, distâncias e dificuldades, culminando com a doença de Hamilton, que o levou à morte. Só então Teresa resolveu voltar ao Recife, como opção definitiva. E presidiu o Centro Josué de Castro, publicou novos livros, foi fundadora da Revista “Será?” e grande motivadora das nossas reuniões. Apagou-se agora, como, aos nossos olhos, parece apagar-se uma estrela cadente.

Que mais se pode dizer para nosso consolo, numa hora dessas? Evocar Fernando Pessoa, que em seu “Livro do Desassossego”, afirma: “Tudo o que se passa no onde vivemos é em nós que se passa.  Tudo o que cessa no que vemos é em nós que cessa.  Tudo o que foi, se o vimos quando era, é de nós que foi tirado quando se partiu”.  E conclui ainda: “Foi uma parte vital, porque visual e humana, da substância da minha vida”.  Lembrar também Jorge Amado, que fala do país de Aiocá, terra mística da felicidade e da liberdade sonhada pelos africanos em cativeiro, donde não se volta nunca. Enfim, recorrer à bela frase de Petrarca: “un bel morir tutta la vita onora”. E reconhecer que, como bem observou o pensador John Donne, dobram os sinos por nossas amigas que se foram, mas também por nós, que ficamos. Quousque tandem?


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