AMIGAS
QUE SE VÃO
Clemente Rosas
Há algum
tempo, nesta Revista, publiquei a crônica “Nossos Amigos Suicidas”, falando das
perdas que sofremos em determinadas circunstâncias, e do nosso desconforto em considerar
que talvez pudéssemos, com alguma interferência, ter evitado aqueles trágicos
desfechos. Não poderia imaginar então que tão brevemente iria voltar ao tema,
lembrando o tom elegíaco do poeta romântico Álvares de Azevedo, naquela “voz
sombria como a do vento à noite nos cemitérios, cantando a nênia das flores
murchas da morte”.
Mas a vida
sempre nos traz surpresas. Por gentileza de um amigo, fui incluído num grupo de
WhatsApp, ao lado de intelectuais de vários Estados – Rio, São Paulo, Minas,
Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás – e foi por um deles que tive a notícia
da morte de Isa Guerra, de quem tinha perdido a pista há muitos anos. Cheguei a duvidar de que seria a mesma
paraibana que chegou a ser personagem marcante do livro de Márcio Moreira
Alves, “Torturas e Torturados”, logo nos primeiros anos da Ditadura Militar.
Mas era mesmo.
Sobre ela,
transcrevo trecho do meu livro “Praia do Flamengo 132 – Crônica do Movimento
Estudantil nos Anos 1961-1962”, lançado em 1992:
“Isa era
uma pessoa notável. Originária de
Campina Grande, onde moravam seus pais, alojava-se, em João Pessoa, num
pensionato de freiras do velho mosteiro de São Bento. Inteligente, charmosa e comunicativa,
liderava naturalmente o bloco feminino, enquanto deslumbrava os seus
coleguinhas do outro sexo. Se fosse, de fato, minha adversária, seria das mais
temíveis. Mas era mesmo uma fraterna
amiga, desde a minha breve experiência de “jucista”, no primeiro ano de
Faculdade...”
Desde então,
só tive dela vagas notícias. Deslocou-se para o Rio, sofreu prisão com um noivo
católico, exilou-se no Canadá, de onde voltou casada com um franco-canadense, ex-religioso,
e enfim, após os anos de chumbo - como só agora fiquei sabendo - voltou a atuar
na sua área de assistência social, tendo tido participação efetiva em programas
educacionais do Governo da República.
Nesse meio
tempo, teve breves passagens pela Paraíba.
Encontrei-a num fim de semana na praia de Camboinha, na casa de uma
amiga, esposa de um militar da Marinha que não exigia folha-corrida dos seus
convidados. E depois, na minha Praia Formosa, na companhia de um casal de
franceses que, deslumbrados com a cor e a tepidez do nosso mar, passavam o dia
em roupa de banho, só achando tempo para pintar aquarelas, com que nos
brindavam. Soube que ainda despertou paixões, e abalou casamentos. Depois
mergulhou na bruma da distância e do esquecimento - até agora, no momento em que
para mim ressurge, com a sua morte.
Ainda mal
refeito do impacto, sou surpreendido com outra morte. O amigo João Rego me
telefona para dar notícia de Teresa Sales, que, na véspera, me havia ligado
para conversar sobre o AVC que ela havia sofrido recentemente, e eu, cinco anos
atrás. Disse-lhe como havia voltado a fazer caligrafia para recuperar
minimamente a escrita, e como havia praticado fisioterapia, por três meses,
para poder usar a mão direita nas refeições e na minha higiene pessoal. E
lembrei que, para redigir textos mais longos, a digitação não exige mais que
dois dedos. Rimos muito, descontraídos
das nossas mazelas, e não lhe notei nenhuma limitação, mental ou física.
Pode-se imaginar uma morte mais inesperada?
E posso
dizer que, dentre os seus amigos, sou o de conhecimento mais antigo. Conheci Teresa ainda estudante, quando já
tinha sido presa no congresso frustrado da UNE em Ibiúna, e namorava com José
Hamilton, engenheiro formado no ITA e colega da SUDENE. Formávamos um grupo de
casais com afinidades partidárias e formações variadas: médico, professora de
história, arquitetos, advogado. Às vezes nos encontrávamos nos fins de semana
numa casa para os lados do Forte de Itamaracá, sem luz nem água encanada, e
acesso improvisado pelo meio do coqueiral. Segundo ouvi de Hamilton, foram os
melhores anos de sua vida, e ele se lamentava de não poder revivê-los.
Depois,
casados, Teresa e Hamilton mudaram-se para São Paulo. Prosperaram, criaram dois
filhos, Teresa foi professora em Campinas, esteve algum tempo nos Estados
Unidos, e foi autora de duas obras marcantes: “Cassacos e Corumbas”, estudo
sobre os trabalhadores da cana de açúcar, fixos ou temporários, e “Brasileiros
Fora de Casa”, sobre imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. O amor deles
sobreviveu a todos os obstáculos, distâncias e dificuldades, culminando com a
doença de Hamilton, que o levou à morte. Só então Teresa resolveu voltar ao
Recife, como opção definitiva. E presidiu o Centro Josué de Castro, publicou
novos livros, foi fundadora da Revista “Será?” e grande motivadora das nossas
reuniões. Apagou-se agora, como, aos nossos olhos, parece apagar-se uma estrela
cadente.
Que mais se
pode dizer para nosso consolo, numa hora dessas? Evocar Fernando Pessoa, que em
seu “Livro do Desassossego”, afirma: “Tudo o que se passa no onde vivemos é
em nós que se passa. Tudo o que cessa no
que vemos é em nós que cessa. Tudo o que
foi, se o vimos quando era, é de nós que foi tirado quando se partiu”. E conclui ainda: “Foi uma parte vital,
porque visual e humana, da substância da minha vida”. Lembrar também Jorge Amado, que fala do
país de Aiocá, terra mística da felicidade e da liberdade sonhada pelos
africanos em cativeiro, donde não se volta nunca. Enfim, recorrer à bela frase
de Petrarca: “un bel morir tutta la vita onora”. E reconhecer que, como bem
observou o pensador John Donne, dobram os sinos por nossas amigas que se foram,
mas também por nós, que ficamos. Quousque tandem?
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