João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

JOÃO PESSOA EM CHAMAS

Por: | 01/11/2025

JOÃO PESSOA EM CHAMAS

João Batista de Brito

Férias de verão, 1963. Tempo livre pra tudo, inclusive cinema. No Plaza, o filme em cartaz, “55 dias em Pequim”, superprodução com Charlton Heston e Ava Gardner, eu não podia perder. E não perdi. Mas não vi o filme inteiro, nem eu nem ninguém mais, naquela confusa sessão de sala quase lotada.

Naqueles tempos, era comum a fita quebrar e a sessão ser interrompida por alguns minutos. Mas, desta vez, a coisa era mais séria. De repente, a tela do cinema apagou e não se acenderam outras luzes. Estávamos na metade da projeção e o normal seria uma explicação da gerência. O que estava havendo? Seria um blackout?

Era, mas não era só isso. Com suas lanternas, os apressados funcionários do cinema encaminhavam os espectadores às portas de saída, de onde vinha um mínimo de claridade, a claridade da tarde. O normal seria mandarem aguardar enquanto a energia elétrica não voltasse, mas não: a ordem urgente era sair, ir embora sem ver o resto do filme e sem ter direito à devolução de ingresso. Como era possível? No alvoroço, ninguém entendia nada e quem indagava recebia respostas confusas ou estranhas.

Intrigado como todos, saí, e mais intrigado fiquei ao chegar à calçada do cinema. Foi quando vi, pasmo, o que uma multidão atordoada lá fora estava vendo: o fogo. Ali bem perto, o Posto de gasolina da Praça 1817 ardia em labaredas, que não só tomavam o posto inteiro, como o bar que ficava na parte superior do Posto, o tão conhecido “Noite de Natal”. Era um inferno só.

Nas ruas, o alvoroço era grande. As pessoas corriam de um lado pra outro, feito baratas tontas. Sem saber o que fazer, pensei em correr pra casa e, ao me dirigir à esquina da Padre Meira, calçada do prédio Nações Unidas, tomei mais um susto: lá adiante, a Lagoa (meu Deus do céu, como era possível?) também exibia feias chamas. Nesse momento, minha cabeça deu um nó: então era o centro todo de João Pessoa que estava pegando fogo?

De repente, o que eu tinha visto na tela se confundia com a realidade. O filme visto era uma aventura épica cheia de canhões explodindo, batalhas, mortes de milhares e desespero coletivo, e, na minha cabeça de adolescente, as coisas se misturavam. Na tela, havia Charlton Heston pra nos salvar do perigo, mas, aqui, cadê Charlton Heston? Era cada um por si, e que Deus nos acudisse...

Com medo e tudo, desci a Padre Meira, dobrei na Treze de Maio, e corri em direção ao meu querido Jaguaribe, onde esperava que tudo estivesse em paz. No meio do caminho, percorrendo as curvas da Alberto de Brito, tive a ideia de parar pra descansar e tomar água na casa de um colega de ginásio, cujo nome não menciono por não estar autorizado.

Bati palmas, entrei, contei tudo à família do amigo, misturando o fogo do Posto com o da Lagoa e tudo mais que tinha visto. Tiveram dificuldade de seguir meu linguajar atrapalhado, mas seguiram, e se espantaram.

Bem entendido, a mãe e a irmã de meu amigo, sim, porque ele mesmo, ao invés de se espantar, ficou fascinado com a calamidade, e, sem querer, ou querendo, soltou um “Arretado!”. E, pior, não fez só isso: me puxou pelo braço, adiantando, ansioso, “vamos lá, quero ver também!” E nem os protestos da mãe e da irmã nos impediram de retornar ao foco do perigo. Eu, temeroso, mas sem querer me render à súbita bravura do amigo.

Aos poucos o entusiasmo do amigo me contagiou e lá íamos nós, por um atalho que nos conduziu direto à Praça João Pessoa, local que, segundo supomos, nos daria uma melhor visão do desastre. E dava mesmo. Por sorte, no caminho, já foi alívio saber, de um transeunte, que o fogo no Parque Solon de Lucena fora ocasionado por um dos caminhões inflamados que um motorista, em gesto heroico, conduzira e despejara na Lagoa

Ali na Praça João Pessoa, a essa altura, o Corpo de Bombeiros já havia estendido uma longa faixa, impedindo a aproximação das pessoas. Estas, porém, já acostumadas com a ideia do incêndio, queriam ver tudo mais de perto e pressionavam a faixa, ou simplesmente a atravessavam. Isto até o estouro de um novo tanque de gasolina, que fazia com que todos recuassem às carreiras, muitos rindo, divertidos. A catástrofe havia virado espetáculo e eu e meu amigo éramos dois desses irresponsáveis espectadores.

Enfim, “55 dias em Pequim”, o filme que não terminei de ver naquela confusa matinée do Plaza foi, na minha cabeça de adolescente, parcialmente abafado pela impressionante imagem de uma João Pessoa em chamas.

Ao chegar em casa, naquele comecinho de noite, entre o prato de sopa e a xícara de café com pão servidos por minha mãe, eu tinha muito mais a contar a meus irmãos do que as aventuras chinesas de Charlton Heston e Ava Gardner. E não me fiz de rogado...


FONTE: Facebook - Acesse

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