Por: | 09/11/2025
MATINÉE ESCOLAR
Já não sou mais o espectador assíduo que fui, mas, vez ou outra, dou um pulinho nos cinemas. Semana passada fui ver “O bom bandido” (um bom filme), no Mag Shopping, e – sensação estranha! - assisti ao filme sozinho. Mas não é isso que interessa contar.
Interessa contar que, contrariamente ao vazio da minha sala, ainda na entrada para o hall do cinema, tive dificuldade de entregar o meu ingresso ao bilheteiro porque, de
outra sala, estava saindo uma verdadeira multidão de espectadores, todos jovens, todos fardados e formando filas. Eram adolescentes levados pelo corpo docente de uma escola para ver “Mauricio de Sousa – o filme”. Eram tantos que ocupavam o hall do cinema inteiro, por isso tive que aguardar que saíssem para poder entrar.
Fiquei impressionado com a quantidade – acho que uns 80 alunos – e mais ainda, com a disciplina: sorrisos sim, mas nada de barulho, nada de gestos impróprios, nada de zorra, nada de celulares, todos, rapazes e moças, organizados em quatro filas, dentro da maior ordem. Nenhum deles tinha jeito de “filhinho/a de papai” e, assim, deduzo que seriam alunos de escola municipal, ou estadual. Simpáticas e também sorridentes, as quatro ou cinco professoras nem precisavam gritar; davam as suas ordens sem insistência, como se tudo tivesse sido treinado de antemão, ainda na escola, com o maior rigor. Ouvi-as dizer que os dois ônibus já estavam nas imediações do Shopping esperando e que, portanto, se mantivessem em filas até o embarque. E assim, perfilados, saíram do cinema em direção à escada rolante.
Ultimamente, vocês sabem, na imprensa e fora dela, quando se ouve falar em escolas brasileiras, o motivo é quase sempre a desordem, a bagunça, e, com mais frequência ainda, a violência. De modo que, confesso, me emocionei ao me deparar, num hall de cinema, com aquela turma de adolescentes tão conscientes e bem comportados, numa atividade de lazer, que amarrava o laço entre o dentro e o fora de sala de aula.
Pela referência aos ônibus, deduzi que não eram de João Pessoa. Não resisti à curiosidade e perguntei a uma das professoras de onde eram. E mais me emocionei com a resposta: de Santa Rita.
E tive motivos pessoais para a emoção.
Como se sabe, sou nascido em Santa Rita. Sem coincidência, no meu novo livro, PÃO COM SABOR DE POESIA, a primeira crônica trata de minha cidade natal, onde descrevo a idílica Santa Rita da minha infância, que, tristemente, na mesma crônica, fui forçado a contrapor à Santa Rita de hoje em dia, segundo estatísticas oficiais, a trigésima cidade mais violenta do país.
Ora, definitivamente, o que vi naquela matinée não batia com essas estatísticas.
Outra coisa. Fui, eu mesmo, professor no Colégio Estadual de Santa Rita. Naquele tempo de ditadura braba, anos setenta, o professor nem precisava impor disciplina em sala de aula: o próprio regime militar o fazia. E isso, se era cômodo, era muito triste. Nos cinco anos em que lá ensinei, sempre experimentei a sensação incômoda de que, por trás do silêncio e do bom comportamento dos meus alunos, pairava o medo, não tanto de mim, mas do que eu, na condição de professor, sem querer representava: o autoritarismo do regime.
Ora, o que vejo agora, nesse hall de cinema do Mag? Em plena democracia, uma turma enorme de adolescentes que, sem maiores problemas, seguem de bom grado, sorridentes e alegres, as regras da escola que lhes proporciona um instante de diversão e de cultura.
Talvez esteja me iludindo com aparências, mas passei o resto do dia acreditando que o Brasil tem jeito.
Sei lá se tem, porém, enquanto me for permitido, vou me agarrar à doce lembrança dessa tão promissora matinée escolar que tive a sorte de testemunhar.