F R E V O (para Zezita Matos)
João Batista de Brito
Novato no Jornal, Dailson fora incumbido de uma tarefa importante, mas nada fácil. Estava perto de fazer um ano do falecimento de Capiba e o editor geral queria uma matéria de capa.
Como bom recifense, Dailson era fã de Capiba, claro. O problema é que, naquele tempo – meados de 1997 - a internet ainda era coisa precária, e as fontes de pesquisa não eram tantas. Para piorar, na ocasião da morte do compositor, um ano atrás, a imprensa do país inteiro já havia feito uma cobertura geral, e dizer algo novo agora, ficava difícil.
A matéria deveria estar pronta antes de 31 de dezembro – data do falecimento do compositor - e lhe restavam poucas semanas. Sem nada em vista, que não o óbvio, Dailson já estava se acomodando à opção de deixar a originalidade de lado.
Foi quando, de volta do trabalho, Dailson avistou aquele flanelinha na Rua do Hospício. O rapaz o abordou, perguntando se queria lavar o carro. Mas foi a camisa gasta e suja que vestia que fez Dailson arregalar os olhos. Apesar da sujeira, dava para se distinguir muito bem as palavras “Viúvas de James Dean”, tomando toda a parte frontal da camisa.
Acontece que aquelas palavras – Dailson sabia muito bem - eram trecho de um frevo de Capiba, grande sucesso do carnaval de 1956, que falava de um baile num clube de Recife e fazia referência a um bloco feminino que tinha aquele nome, sim, “Viúvas de James Dean”, justamente porque, em setembro do ano anterior, o ator americano falecera, deixando fãs chorosas em todo o planeta. Dizia o frevo: “Quanta mulher bonita tem aqui neste salão / parece até desfile de modelos de verão / até as viuvinhas do artista James Dean / vieram incorporadas / hoje a coisa está para mim...”
Que camisa era aquela, e por que o flanelinha a vestia? Curioso, Dailson alegou que era fã do ator americano e, por isso, estava interessado em saber onde o rapaz adquirira a camisa. O rapaz achava que fora a mãe que ganhara dos patrões. A mãe trabalhava de faxineira em Boa Viagem, e vez ou outra, a patroa lhe dava roupa velha, que não queria mais.
O rapaz morava numa das favelas da periferia e Dailson não hesitou em perguntar se podia ir com ele até lá, conversar com sua mãe. Mesmo estranhando, o rapaz não viu nada de mal nisso, concordou e assim foi feito.
Achando tudo engraçado, a mãe do rapaz confirmou o que o filho já dissera e se prontificou a ajudar. Dailson queria comprar a camisa, mas ela lhe deu de graça. Segundo ela, a tal camisa viera no meio de um monte de roupa velha de que o pessoal da casa queria se desfazer. E por fim, forneceu o endereço da patroa sem problemas.
Com a tal camisa embrulhada debaixo do braço, máquina fotográfica e gravador a tiracolo, no dia seguinte Dailson foi bater no endereço indicado – um apartamento de luxo num prédio chique de Boa Viagem.
A dona da casa lamentou não poder ser de grande ajuda, pois aquilo não era coisa do seu tempo. As roupas doadas à faxineira haviam pertencido à sua sogra, que só quando enviuvou é que veio morar com ela e o esposo, e, na mudança, trouxe aquele monte de troço velho, que terminou indo para o quarto de despejo. E, por fim, acrescentou que a sogra tinha Alzheimer, e que, portanto, não ia lembrar nada, nem o seu próprio nome sabia mais. Dailson insistiu - gostaria pelo menos de ver essa senhora. De má vontade, a dona da casa conduziu-o ao quarto da enferma.
Dailson explicou-se à velha senhora na sua cadeira de rodas, mas ela, meio alheia, não parecia entender do que se tratava. E a camisa mostrada não teve efeito algum.
Cansado, depois de muitos esforços inúteis, Dailson já estava desistindo da empreitada, quando teve uma ideia: começou a solfejar o frevo de Capiba. De repente, a senhora passou a acompanhá-lo, cantando também a música, com todas as palavras da letra. A camisa, antes ignorada, agora era afagada com comoção. Mexendo-se na cadeira como se quisesse dançar, o rosto iluminado por uma lágrima, aquela senhora idosa começou a balbuciar sua história: um lento, escorregadio e quase inaudível relato de um certo carnaval recifense, todo narrado em partes, com idas e vindas repetidas.
Ela e suas amigas, contou, eram enlouquecidas pelo artista James Dean, e, comovidas com sua morte súbita, tiveram a ideia de homenageá-lo, desfilando, no salão do clube Caxangá, como suas viúvas no carnaval de 1956. Primeiro pensaram em blusas com o seu nome, depois optaram por camisas bem largas, frouxas e sem botões, mais de acordo com a irreverência do carnaval. O bloco “viúvas de James Dean” fez sucesso, tanto que terminou gerando o frevo de Capiba – o que, para ela e suas amigas, foi uma honra sem igual.
No dia 31 de dezembro de 1998, a matéria do Jornal do Commercio estampou o título: “Capiba e James Dean nos carnavais de outrora”. Entre as fotos, o de uma camisa velha e sua dona.
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