Ensaios Irreverentes
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O VERÃO CHEGOU

Por: Clemente Rosas | 16/11/2025

O VERÃO CHEGOU

                                             Clemente Rosas

Há uns quatro dias, ao ver, da minha varanda, o mar na primeira luz da manhã, como sempre costumo fazer para meus prognósticos, tive uma grata surpresa: soprava um vento brando, do nordeste, pondo termo aos mais de três meses de ventanias do sul-sudeste, carregadas de chuva e de frio. Enfim, acabava o desconforto da visão de um mar encapelado, fosco, hostil a banhistas e pescadores.  

Convém-me observar que essa história de quatro estações não é aplicável ao Nordeste brasileiro, sobretudo ao chamado Saliente Nordestino, que exclui Maranhão e Piauí.  Só temos mesmo o inverno, que vai das “águas de março” às ventanias de agosto, e o verão, entre setembro e fevereiro. Este, portanto, fazia-se tardar, talvez pelo descontrole climático que vem afetando o nosso planeta.

E agora é que, contrariamente ao anúncio das “promessas de vida” da bela canção de Tom Jobim, podemos contar com as benesses do estio: “beijos do sol, abraços do mar”, caminhadas, convivência mais intensa com os amigos, contemplação mais serena do espetáculo do nascer de uma lua cheia quase rubra, “emergindo do mar como a cria do ventre materno”, no dizer de um poeta meu amigo.

A Praia Formosa, apesar de ser a mais antiga estação de veraneio da Paraíba, e de ter acolhido, no passado, gente ilustre como José Lins do Rego, Celso Furtado e Órris Soares (biógrafo e “revelador” de Augusto dos Anjos), mantém sua vocação: a maior parte de suas casas permanece desocupada no resto do ano, ao contrário das outras praias.  Só nós – eu e alguns parentes – nos fixamos aqui, em definitivo, e nos tornamos cabedelenses. Mas ansiamos pela chegada do verão, quando o resto da família e amigos aparecem, para as festas de fim de ano e as confraternizações nos terraços.

E como não enaltecer o verão?  Do alto da minha varanda, de onde o horizonte se alarga, posso ver o mar uniformizar-se na cor azul, pressinto a tepidez da água, o calor bem comportado do sol - que nunca vi ir além dos 32 graus – as redes dos banhistas armadas entre coqueiros, em busca do aconchego efêmero das suas sombras. Tudo convidando a uma curtição de amizades, amores, exaltações, alegrias. 

Rubem Braga, em sua inesquecível crônica sobre a viagem de Yúri Gagárin ao espaço sideral, e a observação do astronauta sobre a cor  da terra, vista lá de cima, proclamou que o fato deveria ser transmitido a todos os terráqueos tristes e desalentados: “irmãos, a terra é azul, é toda azul”. Parodiando o grande cronista - embora consciente da desproporção do caso - proponho a todos os amigos, que têm, numa postura bem compreensível, uma visão sombria sobre o presente e o futuro do nosso país, e mesmo da biosfera terrestre, uma trégua em suas reflexões e inquietudes.  Apenas uma pausa, para abrir espaço a um lampejo de otimismo.

 Amigos, o verão chegou.


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