Bruno Gaudêncio: a bibliofilia militante
Francisco Gil Messias
gmessias@reitoria.ufpb.br
Uma coisa é gostar de livros, ao modo de um leitor contumaz comum, outra é transformá-los em paixão, ao ponto de tê-los como referência central da existência. A estes últimos costuma-se chamar de bibliófilos, ou seja, aqueles que cultivam a arte de colecionar livros. Arte que às vezes se confunde com loucura, bem sabem os que sofrem e gozam com tal hábito (ou será mania?).
Bruno Gaudêncio, nosso escritor campinense, é um assumido bibliófilo. Vive para os livros. Literalmente. Ele e a esposa, Thuca Kércia, também escritora. E tanto é visceralmente ligado aos livros que dedicou aos mesmos seu mais recente livro, A pele da minha casa, bonita edição da Editora papel da palavra (Campina Grande, 2025), com ilustrações da artista Samara Romão. A obra, de aproximadamente 130 páginas, reúne textos que versam sobre o colecionismo literário, seus prazeres e suas angústias, constituindo, afinal, uma singular e bela declaração de amor aos livros, à literatura e aos autores.
O título da publicação foi retirado de uma frase de Jorge Carrión, escritor e crítico literário espanhol, que diz o seguinte: “A biblioteca é a pele da minha casa, é memória de leituras e de viagens, é um termômetro emocional. Necessito dela para recordar quem sou e quem quero ser.” Bruno incorporou tão intensamente estas palavras que adotou-as como título de seu livro. E ele caiu muito bem, pois, como perceberá o leitor da obra, as estantes do autor paraibano revestem não só as paredes de seu lar, como também as de sua alma.
A Paraíba tem dado alguns bibliófilos importantes. Hildeberto Barbosa Filho, com seus mais de vinte mil volumes, é um deles. E também escreveu sobre o tema em Os livros (a única viagem). Mas outras bibliotecas podem ser citadas, como a dos professores Humberto Nóbrega, Jackson Carvalho e Mirabeau Dias, por exemplo. Se não chegaram ou chegam a ser a pele da casa de seus donos, nem por isso deixaram e deixam de constituir respeitáveis coleções, cultivadas com zelo e amor. No Brasil, é incontornável o nome do paulista José Mindlin, maior colecionador de livros do país, cuja valiosa biblioteca passou a pertencer à Universidade de São Paulo após a sua morte. De modo que podemos afirmar que o nosso Bruno Gaudêncio está em ótima companhia em sua arte e em sua paixão.
Outra referência do bibliófilo paraibano é o argentino Alberto Manguel, famoso por seus livros sobre a leitura e as bibliotecas. É outra vida inteiramente dedicada aos livros e à literatura, alguém cujas estantes também formam a pele da casa. A Manguel, Bruno dedicou um capítulo de seu livro, para destacar a doação da biblioteca de aproximadamente quarenta mil volumes que o argentino fez recentemente à cidade de Lisboa. Sobre esse desprendimento material e subjetivo reflete o nosso autor, talvez já se inspirando quanto ao futuro de sua própria coleção.
O capítulo sobre a biblioteca pessoal de Jorge Luís Borges, a partir de um artigo publicado pelo citado Alberto Manguel na Folha de S. Paulo, traz-nos informações curiosas. Manguel, lembre-se, foi, quando jovem, secretário de Borges, e nessa condição conheceu de perto a coleção de livros do mestre de A biblioteca de Babel, o que, por si só, constitui uma experiência que vale por uma vida inteira. Segundo o ex-secretário, não era vasta a biblioteca borgeana, pois a restrição do espaço no modesto apartamento do escritor em Buenos Aires não permitia grandes expansões. E outro detalhe pitoresco: dela não faziam parte os livros do próprio Borges, para quem suas obras eram “eminentemente esquecíveis”, Vejam só.
Outra visita que Bruno faz, levando-nos junto, é à biblioteca de Montaigne, tão célebre que, por si mesma, incorporou-se à celebridade do filósofo dos Ensaios. A propósito, escreveu o nosso ensaísta: “Uma biblioteca não é meramente um armazém de livros. Para muitos, como eu (e imagino que para Michel de Montaigne, inclusive), ela representaria o que defendo nestes textos: a biblioteca como uma espécie de pele, sendo, portanto, um verdadeiro marco sensível de memórias e pensamentos que moldam a personalidade de seu proprietário.” Sim , é isso, de fato.
“Você já leu isso tudo?”, é a pergunta que muitos fazem ao dono quando adentram uma biblioteca particular. Só esta indagação já mostra que a pessoa não é do ramo, pois quem é sabe perfeitamente que toda coleção inclui livros ainda não lidos, tão reveladores do proprietário quanto os que já foram percorridos. Esses livros não lidos formam o que alguém chamou de “antibiblioteca”. Também disso trata Bruno Gaudêncio, com sabor.
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