Areia de pote
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O mais novo passeio poético de Ed Porto

Por: Francisco Gil Messias | 21/11/2025

O mais novo passeio poético de Ed Porto


Francisco Gil Messias

gmessias@reitoria.ufpb.br


Com esse recente Passeante (Editora Ideia, João Pessoa, 2025), o poeta Ed Porto chega ao seu 21º livro de poemas. Não é pouco. E revela a perseverança do autor em seu ofício e sua permanente disponibilidade ao chamado da poesia, após vários anos de batente. Com esse tempo de serviço e seu currículo, é um nome hoje considerado na cena literária paraibana, a despeito da discrição com que seu dono transita pelo mundo. Uma discrição, diga-se, que mais suponho do que afirmo, só de observá-lo à distância – e também pelo suave tom de sua voz -, conforme constatei em recente encontro, no lançamento de A pele da minha casa, de seu conterrâneo Bruno Gaudêncio.


Parece não ter pressa Ed Porto, nem como homem nem como poeta. Talvez por ser esse o seu jeito de ser, desde sempre, talvez por já ter atingido aquela sabedoria de vida que o tempo e a experiência nos trazem, mesmo sem pedirmos, cabendo-nos apenas recolhê-la com humildade, o que também é sapiência. É o que depreendo da leitura de seus novos poemas, a exemplo de “A Casa”, que transcrevo a  seguir, para que o leitor possa ou não concordar com meu juízo:


Ir pra casa é melhor

Zanzar pelo incerto

é coisa do passado

fardo que não carrego mais


O cão me abana o rabo

O chão é seco e seguro


A casa acolhe meu pensamento

Por dentro, acalma e aquece

Lá fora só breu e deserto

Mais certo é embaixo da asa


Ao mundo incerto e áspero, o poeta prefere a casa e seu sossego, o cão fiel que lhe balança o rabo, acolhendo-o sob a asa protetora, qual galinha que cuida dos frágeis pintinhos. Sim, a casa é isso – ou deveria ser. Se na realidade nem sempre é assim, tomemo-la idealmente, como esse refúgio protetor, bálsamo para os males existenciais. E sabê-lo não é para todos, à vista de tantos que peregrinam sem nunca chegar, que não têm a ventura de encontrar onde repousar a cabeça, finalmente. Essa calma ciência poderá parecer aos sôfregos e aos eternos inquietos uma acomodação; e mais ainda: uma capitulação. Mas sabemos que não é necessariamente isso, pois também pode ser mais, muito mais. É o caso, penso eu.


O poeta parece ter alcançado aquele ponto minimalista da existência em que se satisfaz com pouco, com o que os dias lhe mostraram ser essencial, uma sabedoria que tem o seu quê de oriental no desprendimento do que é supérfluo. Isso é o que vemos no poema “Um sopro”, que segue a mesma linha filosófica do poema transcrito acima, prova da coerência do pensar e do sentir do bardo:



Um vinho, um vento frio, um cobertor

e a pouca luz que acalma


A vida vem como um filme

que se passa às pressas


Um sopro, um sentimento de que

o vento, o vinho e a luz me bastam


E o poema “Colágeno” segue a mesma direção:


Prefiro perder o colágeno que o juízo, a visão e o

dedão do pé

Colágeno é a vida fazendo sua arte, é a minha

profissão de fé

Ele é insubstituível, se se põe algo em seu lugar,

  vê-se o ser

desfigurando, peleando em sua luta de rochedo

contra amar-se

Assim, sigo murchando e marchando com meus

cabelos brancos


Estes três poemas dão uma ideia do que seja a atual poética de Ed Porto, seu pensar e seu sentir. E também a sua forma de fazer, pois o leitor atento deve ter percebido seu estilo personalíssimo em que a pontuação é usada (ou não usada) com mais liberdade do que a recomendada pelos gramáticos. Mas, ora, sabemos que nem só de gramática são feitos os poemas; às vezes, para fazê-los é preciso exatamente ignorá-la, como bem mostraram os modernistas de 1922. 


São apenas 44 poemas, mas suficientes para a fruição da boa poesia que Ed Porto oferece. Sempre “coloquial, sintético e antiacadêmico”, como já observaram outros analistas de sua obra, o poeta, mesmo apaziguado, segue em processo, para o alto, sempre. Acompanhemo-lo.



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