João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

UM PROBLEMA DE JOELHO

Por: | 21/11/2025

UM PROBLEMA DE JOELHO

João Batista de Brito

Pense num homem elegante, fino, educado, discreto, correto. Era o nosso Tio Romero. E além do mais, religioso. Devoto de Nossa Senhora da Penha: missa aos domingos e outros serviços em dias santos. Até certa idade, a família achava que ele nem casar ia. Mas casou. Com moça igualmente devota e fina

O que nós, sobrinhos menores, não entendíamos era por que um homem caridoso daquele recebera aquele castigo, coitado, de ter que se mover apoiado numa bengala. E mais estranho: a queda sofrida fora, justamente, na escadaria da Praia da Penha, quando pagava promessa. Pura injustiça.

Ele mesmo não reclamava de sua sina de semi-aleijado e só a mencionava como “um problema de joelho”, sem nunca referir-se à causa, acho que para não ferir Nossa Senhora da Penha.

Nós, sobrinhos admiradores de sua finura, passamos toda a infância compadecidos de Tio Romero, que os vizinhos maldosos apelidavam de Tio Roma, uma crítica ao seu catolicismo exagerado.

A nossa impressão de Tio Romero só mudou um pouco no dia em que ele completou sessenta anos e a família lhe deu uma grande festa. Do Rio de Janeiro veio um primo dele – que só conhecíamos de nome.

Ao contrário de tio Romero, o primo Jaime era um típico “bon vivant”, cheio de gingas e gracejos. Pois foi o primo Jaime que, depois da festa, meio embriagado e às escondidas dos adultos, nos deu uma versão completamente diferente do “problema de joelho” de tio Romero. Segundo o maldoso primo Jaime, nada a ver com a escadaria da Penha. Teria sido assim:

Naquela época remota, anos cinquenta, a família morava ali no comecinho da Rua da República, bem perto da Ponte Sanhauá e do Cinema Astória. De modo que não se estava assim tão longe da Maciel Pinheiro, rua desejada de todos os adolescentes da época, inclusive de tio Romero.

Segundo garante o primo Jaime, tio Romero fazia planos secretos pra ir lá, mas nunca ia adiante. Faltavam coragem e grana. Por fim, um dia apareceu uma graninha extra e tio Romero pôde ir, com alguns amigos, ao famoso Cabaré de Hosana. Bem entendido, não houve nada: apenas tomaram umas cervejinhas e conversaram, mas, de todo jeito, a trilha ficou aberta.

O fato é que tio Romero voltou lá sozinho, e não foi uma única vez.

Na ocasião em que lá estivera com os amigos, tio Romero notara uma mocinha que o olhava o tempo todo, e ele retribuía. Isso, até chegar o freguês dela, um marmanjo com físico de estivador, suado, mal vestido, de cara feia.

Pois, num outro dia, lá estava ela, completamente livre. Ao avistar tio Romero sozinho, a moça veio logo à sua mesa, onde ele, meio nervoso, tomava uma cerveja para estimular. Conversaram, mas, claro, a conversa foi curta: subiram para o primeiro andar, onde ficavam os quartos.

O fato é que a coisa virou vício. E uma espécie de afeição foi brotando entre os dois. Ele só queria com ela, e ela, por coincidência ou não, estava sempre disponível no dia em que ele aparecia.

Dentro desse clima de afeição mútua, ela um dia teve o cuidado de confessar que gostava de estar com ele, mas que tinha seu “homem fixo”, de quem dependia e que a protegia. Era aquele que ele tinha visto em sua primeira vinda ao cabaré. A moça teve o bom senso de acrescentar que o homem era terrivelmente ciumento e muito estouvado, e que, se soubesse que ela tinha um “freguês regular”, quebraria a cara dele, ou lhe enfiaria uma bala no peito. Informação oportuna, para tio Romero, que, como é sabido, não era nada de briga.

Pois não deu outra. Uma noite em que o casal desfrutava da gostosa privacidade de um dos quartos do primeiro andar, uma colega de trabalho da moça, subiu as escadas correndo, apressada, pra avisar que o homem dela tinha acabado de chegar e se aprontava pra subir. Na urgência do momento, tio Romero, com as calças na mão, foi empurrado pra fora, pela janela.

O problema é que o tal quarto, que dava para os fundos do cabaré, ficava, como dito, no andar superior, e tio Romero teve que se equilibrar numa sacada estreita, ao lado da janela, toda a parte traseira do corpo colada na parede. Ficou assim, imóvel, suando frio, quase sem respirar, por horas, a fitar o nada convidativo chão escuro lá embaixo. Até que, sem outra saída, juntou coragem e pulou. A sorte é que a rua não era calçada e tio Romero se esparramou na areia, feito um saco de batatas, e fraturou apenas o joelho direito.

Da família escondeu a dor o quanto pôde, mas chegou um momento em que foi forçado a procurar um médico amigo, que, mesmo guardando segredo do ocorrido, lhe prescreveu o uso obrigatório da bengala.

Dúvida nossa: devíamos acreditar naquela história, ou o primo Jaime a inventara?


FONTE: Facebook - Acesse

Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário