João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

CEGUINHO

Por: | 28/11/2025

CEGUINHO

João Batista de Brito

Vista boa nunca tive. Na verdade, nasci míope. Um amigo brincalhão uma vez sugeriu que esta seria a razão pela qual não me recordo de minha vida intra-uterina. E concordei com ele.

Minha miopia congênita foi comprovada nos meus primeiros dias na escola elementar – Grupo escolar Antônio Pessoa, ali na B. Rohan. A professora logo notou como eu fazia careta para ler o que estava escrito no quadro negro. Franzia o rosto e copiava errado, ou simplesmente não copiava.

Uma solução temporária foi me transferir para uma carteira na primeira fila da sala, pertinho do quadro. De todo jeito, os meus pais foram alertados, e daí a pouco, com sete ou oito anos de idade, já estava eu no oculista, fazendo exames.

Lembro a primeira vez que vi o mundo por lentes corretoras. De óculos novinhos na cara, eu saíra do consultório médico – ali no prédio do antigo Ipase – e me dirigia à Lagoa, para tomar o ônibus. E simplesmente me surpreendi, deslumbrado com a beleza das árvores, as folhas e galhos verdinhos e brilhosos como nunca estiveram, tudo com uma nitidez espantosa. O mundo era muito mais bonito do que eu imaginava.

Nunca mais tirei os óculos da cara e, sem eles, estou perdido. Viraram uma extensão do meu corpo, ou talvez, mesmo do meu cérebro. No colégio, vez ou outra, me chamavam de ´ceguinho´, mas isso nunca me abateu.

Na vida adulta, fiz duas cirurgias de catarata que diminuíram a miopia, mas de uns tempos pra cá, me apareceu um glaucoma de família, no olho direito. Em outras palavras, continuo ´ceguinho´.

Por sorte, isso nunca me impediu de ler. Ao longo de toda minha vida, fui sempre um leitor viciado, e a miopia nunca me atrapalhou nesse mister, até por que, como se sabe, o míope enxerga melhor de perto que de longe. Sim, fiz as grandes leituras, esperáveis na minha profissão, de professor e de crítico. Assim como fiz outras, nada profissionais.

Pra ficar no terreno da ficção, acho que posso dizer que li os principais grandes livros que tornaram a humanidade mais humana e mais bela. Homero, Dante, Camões, Dostoievsky, Tolstoi, Balzac, Flaubert, Eça, Machado, Rosa, Garcia Marques, e obviamente, Shakespeare e toda a sua vasta companhia...

Porém, com a idade, a dificuldade se acentua, sobretudo se o livro tem letra miúda. Não sei se vocês já notaram, mas hoje em dia quase tudo que se publica é em letra minúscula, geralmente tamanho 11, no máximo 12. Ninguém pensa no pessoal da terceira idade, ou pensa e descarta. Eu mesmo estou descartado de grandes livros que gostaria de ler ou reler.

Outro dia, fuçando títulos clássicos numa livraria da cidade, me bateu uma vontade danada de reler “Crime e castigo”, romance que havia lido na inconsistência da juventude, e a ele, confesso com culpa, nunca retornei. Sim, bateu-me o desejo masoquista de sofrer de novo com aquele Raskolnikov atormentado pela culpa, fazendo deduções drásticas de suas crises existenciais. Pois, tomei o exemplar na mão, acariciei-o, folheei as primeiras páginas e, simplesmente, devolvi-o à estante. Devolvi-o por constatar que a leitura desse calhamaço está fora de minhas possibilidades visuais. Com certeza, a letrinha miúda – tamanho 10 ou 11 – não me permitiria passar da terceira página; se passasse correria o risco de cegar de vez.

Na mesma prateleira estavam outros calhamaços cujas releituras me interessavam: “Os miseráveis” e “Mobydick”, por exemplo. Sim, do memo modo, ocorreu-me o desejo de reviver a longa e penosa história daquele coitado Valjean, que um dia roubou um pão e passou o resto da vida pagando por um crime nunca perdoado. Assim como tive vontade de experimentar de novo, a doída aventura do marinheiro Ismael, metido na insensata viagem marítima do comandante Ahab, um poderoso navegador amalucado, perdido no encalço de uma monstruosa baleia assassina.

Como fiz antes, folheei os dois livros e, recoloquei-os na estante. Não tinha jeito: as mesmas letrinhas microscópicas.

Pedras no caminho das minhas retinas tão fatigadas...

Pois é, prezado amigo, se você por acaso me enviou o seu último livro publicado, e eu nada comentei, ou se não escrevi sobre, como você esperava, não foi por indiferença ou má vontade; foi só porque não consegui lê-lo. Da próxima vez, brigue com seu editor por um tamanho de letra maior, se possível maior que o 12, e, deste modo, inclua, entre seus apreciadores, não apenas eu, mas toda uma cambada de leitores da minha desemparada faixa etária.

Abraço forte do ceguinho.


FONTE: Facebook - Acesse

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