Waldemar José Solha
Waldemar José Solha
Waldemar José Solha

O SALÁRIO DA MORTE

Por: | 29/11/2025

teve três roteiros. O primeiro foi meu, a pedido de José Bezerra Filho, autor do romance “Fogo!”, que o queria na telona e fundou, comigo e com o povo de Pombal, a Cactus Produções Cinematográficas Ltda, convidando, para dirigir esse primeiro longa-metragem de ficção paraibano, em 35 mm, Linduarte Noronha, célebre autor do “Aruanda”, documentário que, conforme Glauber, mostrara ao país como se podia fazer cinema “com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Maravilha. Mas... em João Pessoa, na época, havia três artistas-e-intelectuais com grande liderança: o Prof. Juarez da Gama Batista, o escritor Virginius da Gama e Mello, e o maestro Pedro Santos que, contratado para a trilha sonora, leu meu roteiro e, sob sua influência, Linduarte disse que com meu script “ganharíamos a palma de ouro em Cannes, mas o fracasso de bilheteria seria tão grande, que nunca mais faríamos outro filme”. Daí que eu e Bezerra escrevemos um segundo roteiro, aprovado pelo Linduarte, mas também abominado pelo maestro, que nos disse às claras: “Por que não confiam isso a quem é do ramo – como Jurandy Moura e Antonio Barreto Neto?” Daí o terceiro e definitivo texto, ... que me apavorou. O Sindicato do Crime – nas manchetes da época, mas não no romance - entrara na história, e o final grandioso, com o caminhão-tanque explodindo na casa dos vilões ( daí o título "Fogo!" ) sumira. Mais: a influência do cinema francês fora tão grande, que chegara a aflorar num novo título – “O Salário da Morte” – claramente derivado d“O Salário do Medo” ( “Le Salaire de la Peur”, de Clouzout, 1953), onde - paradoxalmente - um caminhão que leva nitroglicerina, ... explode. Preservou-se - do Le Salaire - a palavra que marca o final do nosso filme: "Inflamável" no caminhão com que o musculoso personagem do Walderedo Paiva chega, prometendo-se, com isso, uma tragédia de dimensões épicas... que não saiu do livro. Tentei discutir a coisa toda com Linduarte, mas ele me disse, rude, que “a produção não deve se meter na realização”. Exigi - sendo o maior acionista - uma reunião de todos os envolvidos, naquela noite, o que se deu em torno de uma mesa literalmente redonda, no subsolo do Theatro Santa Roza. E aconteceu o inesperado: terminada minha falação, Bezerra disse que eu não tinha razão: “O novo roteiro é uma obra-prima.” Bem, minha decisão de – apesar de tudo – levar a coisa em frente se deveu, muito, a uma frase de Macbeth, segundo o qual quem está numa travessia como aquela, recuar é o mesmo que ir em frente. Meu prejuízo foi total, mas - OK - o filme foi feito e, hoje, mais de meio século depois , é – parece - o que importa.

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( Da auto b/i/o grafia que, em certos momentos, é um martírio )


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