Aloísio Lobo
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Aloísio Lobo

Como fazer um cavalo folhear um livro


Por: | 02/12/2025

Como fazer um cavalo folhear um livro 

Descobri, num banco de espera de uma consulta médica, que a vida cabe inteira dentro de uma revista de caça-palavras. Enquanto o ponteiro do relógio mastigava os minutos com a paciência de um monge tibetano ruminando o tempo, eu tentava encontrar “esperança” entre letras que se escondiam como políticos em dia de CPI. Achei “desistência”, “cansaço”, “remédio”, “fila”. “Esperança”, não.

E fiquei pensando: afinal, para que serve uma revista de caça-palavras? Serve para matar o tempo, diriam os apressados. Mas o tempo, esse bicho arisco, não morre nunca – apenas muda de sela. Serve para distrair a cabeça, diriam os médicos da pressa urbana. Mas a cabeça, frequentemente, se distrai sozinha, sobretudo do que importa.

A revista de caça-palavras serve mesmo é para nos ensinar o exercício mais raro da modernidade: procurar. Procurar com paciência. Procurar sabendo que a palavra existe, mesmo quando não aparece de imediato. Num mundo em que tudo é entregue por algoritmo, ela obriga o dedo a errar, o olho a voltar, a mente a insistir. É um pequeno manifesto contra a pressa. Um artesanato da atenção.

Enquanto eu caçava palavras, um senhor ao lado me observava com a curiosidade de quem vê alguém domar o invisível. Usava chapéu de feltro, mãos de lavrador e um olhar que misturava ironia e ternura. De repente, soltou a frase que virou esta crônica:

— Isso aí é mais difícil do que ensinar cavalo a folhear livro.

Ri. Mas a frase ficou pastando dentro de mim.

Como fazer um cavalo folhear um livro? Primeiro, imaginei, é preciso aceitar que talvez o cavalo nunca vá ler. E tudo bem. O erro está menos no cavalo do que na nossa mania de impor ao outro aquilo que só faz sentido para nós. Ainda assim, visualizando mentalmente, segui: colocamos o livro diante dele, abrimos na página certa, apontamos com o dedo, levantamos a voz como professor de alfabetização dos anos 50. O cavalo pisca, balança a cauda, e continua sendo cavalo — digno, imenso, inapreensível.

De algum modo, tentamos ensinar cavalos a folhear livros todos os dias. Fazemos isso quando explicamos política a quem só quer o escândalo, quando falamos de ciência a quem prefere o milagre, quando mostramos dados a quem já decidiu a opinião antes da vírgula.

Foi então que me veio à cabeça uma notícia, 

dessas que passam quase “despercebidas” no fluxo das redes: o filho 04 de Bolsonaro informou que havia presenteado o pai com livros de caça-palavras. Nenhuma câmera registrou a cena. Nenhum gesto, nenhum sorriso, nenhum constrangimento público. Apenas a informação jogada ao vento, como se fosse piada, como se fosse afeto, como se fosse política.

E ali, justamente na ausência da imagem, a metáfora ficou mais perfeita ainda: um ex- presidente sem foto, um presente sem registro a um presidiário e futuro ex-capitão, palavras sem contexto. Um cavalo invisível diante de um livro que ninguém sabe se foi aberto. As palavras, todas embaralhadas, esperando para serem encontradas. Bastava paciência. Bastava método. Bastava, sobretudo, vontade de procurar algo além do óbvio. Mas quem vive de respostas prontas raramente se dispõe ao esforço da busca.

A revista de caça-palavras, nesse sentido, é mais revolucionária do que parece. Ela exige silêncio. Exige tempo. Exige humildade diante da própria limitação. Coisas perigosas para qualquer projeto de poder.

No fim da espera, encontrei “esperança”. Estava torta, escondida numa diagonal improvável — como quase tudo que importa. O senhor de chapéu se levantou, desejou boa sorte e saiu com passos lentos. Fiquei com a sensação de que ele havia deixado ali, além da frase, uma aula inteira sobre pedagogias impossíveis.

Talvez a revista de caça-palavras sirva exatamente para isso: para nos lembrar que algumas palavras querem ser encontradas. E que, por mais que tentemos, há cavalos que nunca folhearão livros — não por ignorância, mas por escolha. O problema começa quando quem se recusa a procurar passa a governar quem ainda insiste em encontrar.

(*) jornalista


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