
Amor nos tempos dos algoritmos
por Aloísio Lôbo
Eles se conheceram como quase todo mundo hoje em dia: não foi no bar, não foi na faculdade, nem na fila do pão, nem tropeçando um no outro na calçada. Foi num anúncio invisível patrocinado pela solidão. Um “curtir” tímido, uma foto com filtro cor de pôr do sol, dois algoritmos otimistas e pronto: a mais recente história de amor do planeta estava inaugurada.
Ele morava em Lisboa. Ela em Fortaleza. Mas isso, para a internet, é detalhe geográfico de pouca importância. Quase uma maledicência cartográfica. Em três dias já conversavam como se dividissem o mesmo travesseiro. Em uma semana, juravam afinidades espirituais. Em quinze dias, estavam brigando por causa de um “visto às 22h37”.
O amor moderno começa com emojis e termina com prints. O coração ainda bate, mas agora vibra dentro do bolso.
Ele se chamava Artur na vida real e ReiDoMar_77 nas redes. Ela, Maria das Dores no registro, mas no Instagram era DoceTempestade. Nenhum mentiu completamente. Apenas lapidaram a verdade com ângulos generosos. Artur era solteiro nas fotos; casado na realidade. Maria não era surfista; só posava perto do mar. Ambos eram profundamente sinceros naquilo que fingiam ser.
Conversavam sobre política mundial, espiritualidade, traumas de infância e até sobre o fim das abelhas. Nunca falaram da conta de água ou do preço do dim-dim gourmet.
Quando decidiram se encontrar, meses depois, foi como uma reunião de cúpula afetiva. Hotel neutro, território diplomático. Ao se verem sem filtro, sem luz de ring, sem edição, experimentaram o susto mais antigo da humanidade: eram humanos.
Artur descobriu que Maria roncava. Maria descobriu que Artur usava meia social com sandália no quarto. O algoritmo não tinha previsto isso.
Duraram três dias. Tempo suficiente para promessas eternas e uma discussão final sobre um post antigo mal interpretado. Voltaram a se seguir por educação, se silenciaram por vingança e se bloquearam por saúde mental.
Hoje, cada um vive uma nova “história definitiva” com outra pessoa que nunca viu ao vivo. Mas continuam espiando um ao outro discretamente, feitos dois arqueólogos do próprio fracasso.
O amor, o analógico, resiste com dificuldade na era do Wi-Fi. Agora ele precisa de senha, confirmação em duas etapas e aprovação social. Antes se perguntava “você me ama?”. Hoje é “por que você não curtiu minha foto?”.
Vivemos tempos de afetos com nuvem: tudo está lá em cima, flutuando, acumulado — mas basta cair a conexão para desaparecer.
Nunca houve tanta comunicação e tanta dificuldade de dizer o essencial. Nunca se mandaram tantos corações para tão poucas pessoas reais. Nunca se falou tanto de amor e se tocou tão pouco.
No mundo inteiro, homens e mulheres atravessam oceanos digitais para sentir algo que, no fundo, ainda mora na velha geografia do corpo. Mas insistem nas telas como quem tenta matar a sede lendo rótulos de garrafa.
O problema talvez não seja a tecnologia. Seja, sim, esse antigo medo humano de estar inteiro diante do outro, sem filtro, sem legenda, sem edição. Amar, fora da tela, ainda exige aquilo que mais escasseia no nosso tempo: presença.
E presença, definitivamente, ainda não tem aplicativo.
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