Areia de pote
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Beauvoir queria, mas Camus, não

Por: Francisco Gil Messias | 07/12/2025

Beauvoir queria, mas Camus, não


Francisco Gil Messias

gmessias@reitoria.ufpb.br


A Mirabeau Dias,

admirador de Camus.

A senhora Sartre não deve ter gostado nem um pouco. Insinuou-se para o amigo Albert Camus e ele esquivou-se, recusando a dádiva. Para os brios de uma mulher, qualquer mulher, ser recusada não é fácil; imagine-se para uma voluntariosa como Simone de Beauvoir, acostumada a conquistas fáceis, facilitadas menos por seus dotes físicos que pelos intelectuais, estes sempre fascinantes na França dos literatos e filósofos. Tão fascinantes que até um feio por excelência como Sartre atuou durante anos como um verdadeiro Dom Juan entre alunas e admiradoras.


Alguém se surpreende com a oferta da romancista e a recusa do pensador? Creio que não. Afinal, na Paris de meados do século passado (e até antes) já vigorava uma liberdade de costumes que só aos poucos se ampliaria para o resto do Ocidente. Além do mais, era notória a abertura da relação Beauvoir/Sartre, de modo que já tinha se banalizado, pelo menos para os parisienses mais intelectualizados, a permanente disponibilidade amorosa do célebre casal. Para este, certamente deveria parecer burguesa ou pequeno-burguesa essa tal de fidelidade compulsória entre os amantes. E tudo que ambos não queriam ser – ou parecer – era burgueses, naqueles dias revolucionários – ou quase.


Imagino como deve ter se sentido a Beauvoir rejeitada. Terá levado na esportiva, com filosófico savoir vivre, ou terá se magoado em seu orgulho de fêmea acostumada a ganhar e não a perder nos jogos de Eros? Todo mundo conhece o rancor que costuma dominar as mulheres que são trocadas por outras, principalmente se estas são mais bonitas e jovens. Esse rancor não raro chega a ser assassino, se não em ato, pelo menos em pensamento. Os tribunais são testemunhas desse ódio feminino, um ódio devastador, às vezes até suicida em sua fúria destruidora. Os homens, quando descartados por suas companheiras, parecem, em geral, bem menos ferozes. Por que será?


Talvez por conta da maior probabilidade de conseguirem companhia, já que é mais longo o prazo de validade dos atributos masculinos. Principalmente nestes tempos de tadalafila sem receita médica. Gozando de boa saúde e de razoável aspecto, o homem consegue estar no mercado afetivo até, digamos, os setenta e cinco anos. A partir daí, só se for gorda sua conta bancária, capaz de comprar até amor verdadeiro, segundo Nelson Rodrigues. Com as mulheres, sabe-se, as dificuldades são maiores. As possibilidades de se manterem atraentes a partir dos setenta são menores, pois, geralmente, a natureza costuma ser menos generosa com elas. Há exceções, claro, mas a regra é essa. Entretanto, voltemos à senhora Sartre.


Sabe-se que foi mulher de muitos amores, masculinos e femininos, ao que parece com igual índice de preferência da parte dela, o que prova sua versatilidade. Se não era propriamente bonita, não chegava a ser feia; se não era rica, não chegava a ser pobre, e para além de tudo havia o charme do brilho intelectual, que na França tem o seu valor, o que explica o poder de sedução de um Sartre baixinho e vesgo. O casal de escritores, a partir do pós-guerra, tornou-se célebre em Paris e no exterior, o que, de certo modo, justifica o fato de ter se tornado objeto de assédio erótico por parte daqueles e daquelas que gostariam de incluí-lo no currículo amoroso, como uma medalha. Acostumada, portanto, a ser cortejada, Beauvoir deve ter ficado no mínimo perplexa com a resistência de Camus ao seu avanço.


E Camus, o que terá pensado de tudo isso? Como se sentiu nessa delicada situação? Uma possibilidade é que tenha ficado mais incomodado que vaidoso; afinal, tratava-se da companheira de um amigo (ou quase amigo), e talvez ele não quisesse trair essa amizade, mesmo sabendo da liberalidade do casal nessas questões. Constrangido, por não estar a fim de envolver-se com a Beauvoir? É bem provável, pois ele sabia (ou deveria saber) o quanto sua recusa magoaria a mulher.  Enfim, uma verdadeira saia justa para ele, qualquer que fosse sua reação. E há uma terceira hipótese, igualmente razoável: o deliberado desejo de não se deixar apanhar na rede de conquistas da escritora, sendo apenas mais um no cardume, assim como não quis ser tido como mero discípulo de Sartre, guardando uma certa independência intelectual e política relativamente ao filósofo.


Vejamos o que escreveu o norte-americano Ronald Aronson sobre a posterior reação de Beauvoir e Camus ao caso que não houve entre eles: “Ela mais tarde se queixou de que ele era rude e impaciente com ela, talvez, suspeitou, porque era um homem de mulheres mediterrâneas que não a achou atraente, e que não podia aceitá-la como alguém igual intelectualmente”. Duas razões, portanto, para ressentimentos da mulher. E quanto a ele, eis o que teria comentado  com um amigo, o escritor Arthur Koestler: “Imagine o que ela diria no travesseiro depois. Que chatice seria – tagarela, uma completa sabichona, insuportável”. Vê-se aqui que pode ter pesado contra a Beauvoir sua intelectualidade, pois o argelino/francês não estava a fim de papo-cabeça depois do amor. Vejam só. 


De qualquer modo, seja como tenha sido, o affair (ou não affair) Beauvoir – Camus é um curioso episódio da vida intelectual do século XX. Mostra-nos um pouco da mulher e do homem por trás dos mitos, se é que esta palavra é cabível. E uma pergunta cavilosa se insinua agora em meu pensamento: Terá sido essa corajosa recusa mais um motivo para se admirar Camus?  



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