O Sonho da Biblioteca Compartilhada
(Por Alessandra Del Agnese)
Quem não sonha com isso? Quem não fantasia, nos recessos mais íntimos da alma, encontrar alguém que, em vez de te apresentar para a família, te convidasse para organizar, juntos, as prateleiras da vida?
Não uma estante qualquer, de enfeite. Mas uma biblioteca. Aquela que se constrói tijolo a tijolo, livro a livro, silêncio a silêncio. Alguém que olhasse para a sua coleção caótica de traumas, manias, histórias truncadas, livros de capa gastas e páginas sublinhadas à lápis, e dissesse, com um sorriso sutil: “Temos espaço para mais. Vamos catalogar isso juntos?”
Eis o sonho supremo: ser aceito não apesar do seu acervo particular, mas por causa dele. As edições raras da sua dor, os best-sellers dos seus dias felizes, os poemas esquisitos que só você entende, os pesados volumes de filosofia existencial que você carrega nos ombros. Alguém que não tentasse reescrever seus capítulos, nem rasgar as páginas que dão vergonha, mas que se sentasse ao seu lado no chão empoeirado, folheasse, perguntasse, escutasse.
Mas aí, meu caro, esbarramos no paradoxo trágico do amor moderno. Desejamos ardentemente esse arquiteto da nossa biblioteca interior, mas quando ele aparece e aparece sempre com suas próprias obras incompletas, suas lombadas quebradas, suas dedicatórias a outros amores – nós fugimos. A primeira edição defeituosa que vemos, o primeiro silêncio que não deciframos, a primeira mancha nas páginas imaculadas da nossa fantasia… e fechamos o livro. Para sempre.
Por quê?
Ah, a resposta é dolorosa e óbvia. Porque não suportamos nossas próprias imperfeições. Vivemos numa era do “curriculum afetivo”: queremos exibir apenas os títulos gloriosos, as capas brilhantes, os resumos bem-comportados. Nós mesmos não temos coragem de entrar fundo nos nossos porões, de ler nossas próprias narrativas de raiva, de solidão, de mesquinharia. Como então vamos aceitar o lado sombra do outro?
Amar as imperfeições alheias é um luxo de quem fez as pazes com as próprias. É um ato de coragem. Você só pode acolher o caos organizado do outro se você já tiver, nem que seja um pouco, domesticado o seu. Do contrário, a sombra do outro será sempre um espelho repugnante daquilo que você esconde a sete chaves em si mesmo.
O grande empecilho não é o outro “não ser o que queríamos”. O grande empecilho é nós mesmos não sermos quem achamos que deveríamos ser. Criamos uma ficção sobre nós, um romance heróico, e quando o outro esse leitor íntimo começa a notar as falhas do enredo, os buracos na trama, nós o acusamos de não saber ler. Não, pior: nós o trocamos por uma nova edição, mais barata, mais superficial, que não exija tanta verdade.
Formar uma biblioteca com alguém é um projeto de uma vida inteira. Exige pó, traça, reorganizações, livros perdidos e achados. Exige a doce melancolia de saber que você nunca lerá todas as histórias daquela pessoa, mas terá o prazer infinito de tentar. Exige ver a pessoa dormindo no sofá, com um livro aberto no peito, e entender que aquele é o volume mais precioso do seu acervo comum: o corpo, a respiração, a presença.
No fim, a busca por quem queira “formar uma biblioteca” com você é, no fundo, a busca por alguém que tenha a mesma coragem de se encarar. Porque só quem olha de frente para as próprias páginas em branco, os rabiscos, os erros de ortografia da própria história, pode pegar na mão do outro e dizer, sem medo: “Que bagunça maravilhosa. Vamos ler juntos?”
Até lá, continuaremos a ser leitores solitários, assinando contratos afetivos de aluguel, trocando livros de capa bonita, mas com o coração fechado à leitura mais profunda. A biblioteca do ser é construída a dois. Mas o primeiro tijolo esse, você tem que assentar sozinho, em paz com todos os seus volumes imperfeitos e amados.
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