Olhos nos olhos
Por Aloísio Lôbo (Jornalista)
Sabemos que existe um instante exato em que a verdade pede passagem pelo rosto. Ela sobe pelos ombros, atravessa a garganta, vibra nos lábios, mas morre antes de nascer quando os olhos se desviam. É nesse pequeno desvio que o mundo começa a mentir oficialmente.
Vivemos a era das frases enviadas, não ditas. Do “te amo” digitado com o polegar trêmulo, do “desculpa” em áudio acelerado, do “está tudo bem” acompanhado de um emoji sorridente. Dizemos tudo, menos o essencial. Porque o essencial exige olhos. E olhos exigem coragem.
Quando não nos podemos olhar nos olhos e dizer, alguma coisa grave aconteceu no caminho. Pode ter sido o medo. Pode ter sido o orgulho, que é o animal de estimação da modernidade. Pode ter sido o excesso de telas criando uma espécie de miopia moral: vemos tudo, menos o outro de frente.
Casais se separam por mensagens longas, bem pontuadas, gramaticalmente corretas, afetivamente covardes. Filhos anunciam mudanças de rumo por aplicativos como cancelasse uma assinatura. Políticos governam por notas frias, sem sustentar o peso do próprio discurso na retina do povo. Perdões enviados por intermediários, como se o perdão também sofresse de fobia de palco.
Olhar nos olhos é um ato político. É por isso que se evita tanto. O olho não aceita edição. Não permite rascunho. Não tem botão de “apagar”. Ele denuncia a dúvida, a mentira mal ensaiada, o amor que pede socorro, a culpa que tenta se esconder atrás de palavras bonitas. Os olhos são o último território não colonizado pelo discurso.
E talvez por isso estejamos todos tão cansados. Cansados de explicar sem confessar. De conversar sem tocar. De prometer sem sustentar. De pedir perdão sem ajoelhar o orgulho.
Quando não nos podemos olhar nos olhos e dizer, sobra o eco. E o eco sempre volta deformado.
Sei que o silêncio também comunica. Mas não redime. O silêncio apenas adia. E o que é adiado nos sentimentos costuma cobrar juros altos.
O amor, quando não é dito olhando, vai murchando como planta sem sol. A amizade, quando não encara o confronto de frente, vira cordialidade educada. A verdade, quando não encara o espelho do outro, vira versão.
Talvez o grande desafio desses tempos não seja aprender a falar melhor, mas reaprender a sustentar o que se diz no campo minado do olhar. Porque o olho é onde a alma não consegue mentir por muito tempo.
E quando tudo o mais falhar — os discursos, as desculpas, as versões cuidadosamente ensaiadas — restará apenas isso: dois rostos frente a frente e a pergunta que sempre chega atrasada:
“Por que você não teve coragem de me dizer olhando?”
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