João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

CORPO DA PAZ

Por: | 12/12/2025

CORPO DA PAZ

João Batista de Brito

Nos tempos da ditadura militar, o que fazia um cidadão americano no Brasil? E se o lugar visitado era o sertão paraibano? São perguntas que nos traz o filme do cineasta paraibano Torquato Joel, “Corpo da paz”, recém exibido nesta vigésima versão do Fest-Aruanda 2025.

Naturalmente, nessa cidadezinha do interior paraibano todos se afetam com a presença de um estrangeiro. Ele veio como pesquisador do Peace Corps, mas e daí?

Espécie de guia do gringo, o senhor Gentil se entusiasma e não poupa demonstração. O filme já se abre com seus cuidados faciais para parecer uma estrela de Hollywood, fazendo questão em, de si pra si, citar uma famosa fala cinematográfica, e, ao som de jazz, o faz em inglês: “I am big. The movies got small”, no caso, voz da atriz Norma Desmond, em “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950).

Nem todos, porém, simpatizam com essa presença estrangeira e estranha. A antipatia é franca, por exemplo, da parte do garotinho Teobaldo, que tem seus brinquedos chutados por esse Gregory sempre misterioso e hostil. Aliás, embora de forma sutil, quase todo o enredo do filme é construído na oposição entre esses dois personagens, e nisso reside o seu melhor efeito.

Há a mãe do garoto, Aurora, preocupada com o destino dos filhos; há o pai, inquieto com a situação do país; há o irmão Lavor, que volta pra casa depois de atuação no movimento de esquerda, quando chegou a ser preso e torturado; há a inocente plantadora de algodão, que ignora as razões que o gringo tem para, tão obsessivamente, pesquisar o solo de sua lavoura. Mas, a linha narrativa do filme nos chama a atenção para esse contraste improvável: um inocente garoto de onze ou doze anos, e um americano adulto cuja missão no lugar é uma incógnita para todos.

Incógnita? Não por muito tempo, ao menos para o espectador. Esse Gregory enigmático que passa quase todo o seu tempo na área rural, com seu sofisticado aparelho para detectar a presença de metais – e para outros fins menos claros - só pode ter vindo a mando de autoridades de seu país, com visíveis intenções exploratórias. Ora, num dos telegramas por ele enviado aos States, mostrado ao espectador em close, lê-se claramente os termos: “maybe uranium”, ou seja, “talvez urânio”. Como se sabe, aquele elemento que já fora importante na construção da bomba atômica.

Um outro telegrama divisado pelo olho da câmera vem a demonstrar que, por sua vez, nem o próprio Gregory está tranquilo com a situação em seu país. Esse telegrama inesperado comunica a morte do seu irmão na guerra do Vietnam. E, sutilezas narrativas do filme, no instante em que o gringo perde o irmão, o irmão mais velho do garoto aparece – ironias de um filme construído a capricho.

Em cenas mais privadas – de noite na cama, ou mais tarde, no confessionário - ficamos conhecendo a inquietação dos pais do garoto, mas como dito, a linha narrativa sustenta a oposição já mencionada: garoto vs gringo, lhes dando um tempo de tela especial, aquele em atividades lúdicas e/ou reflexivas, este no seu ofício de pesquisador obsessivo do solo local.

Como fechar um filme desse, com dois personagens tão diversos. No meu entender, Torquato Joel encontrou, no desenlace, a melhor solução possível, uma solução lúdica, imaginativa, e sobretudo, lírica. Se o filme começara com o culto ao imperialismo, ele termina com o contrário disso. No seu gesto inocente de montar uma pequena armadilha para o gringo, o garoto, afinal de contas, faz, simbolicamente, o que os brasileiros da época por ventura desejariam fazer: cavar uma cova para o imperialismo americano.

Inevitavelmente, o desenlace do filme, me remeteu, de minha parte, a alguns clássicos que terminam assim, com finais simbólicos e sem resolução conceitual. Revejam os cachorrinhos na rua, em “Meu tio”; o mar como limite em “Os incompreendidos”; o sorriso da prostituta em “Noites de Cabíria”.

Torquato Joel sempre praticou um cinema mais abstrato, menos fabulatório e menos conceitual. Sem abrir mão de seu capricho com a plasticidade, ou seja, com a composição minimalista da imagem, aqui ele se rende um pouco ao narrativo... e se sai muito bem. Para dar um só exemplo, vejam como a cena mais assumidamente conceitual do filme, a longa e esclarecedora conversa do padre com a mãe do garoto, é toda composta de closes envoltos em sombras.

Vale ainda dizer que, finda a exibição, os dois termos do título do filme (´corpo´ e ´paz´) perdem o sentido denotativo e histórico, e ganham, ambos, uma preciosa ressignificação. O primeiro em relação ao desabrochar sexual do garoto (Conferir sua curiosidade sobre o pênis, e seu uso público da vela ereta, respingando cera). O segundo em relação ao programa americano de impor a “paz” (sentido agora irônico) na América do Sul. E um adendo: não seria demais considerar a atualidade da temática do filme, nesta época nossa em que os States vivem exibindo suas garras poderosas.

Premiado no último Festival de Brasília, pela fotografia, edição de som, trilha sonora e edição de arte, penso que o filme de Torquato Joel merecia mais.

Enfim, torçamos para que “Corpo da paz” entre em circuito de exibição, se não comercial, ao menos no pessoense Cine Bangüê e no campinense Cine São José. Os cinéfilos da vida agradeceriam.


FONTE: Facebook - Acesse

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