Aloísio Lobo
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Aloísio Lobo

O DIABO A QUATRO

Por: | 14/12/2025

O DIABO A QUATRO

por Aloísio Lôbo (*)

Por que será que insistimos em culpar o capeta por tudo que não temos coragem de assumir? A cada esquina, lá vai alguém dizendo que o diabo atende por telefone fora de área enquanto tenta justificar o erro que nasceu dentro de casa mesmo. Nossa cultura luso-brasileira fez do tinhoso uma espécie de animador de auditório das tragédias diárias: quando algo dá errado, é obra do coisa-ruim; quando dá certo, aí sim foi a nossa competência, claro.

  Nas relações sociais, não é raro que o sujeito, ao perder a paciência, mande o outro pro diabo que o carregue, só para, cinco minutos depois, pedir desculpas dizendo que “foi o cão que atentou”. As relações afetivas seguem o mesmo roteiro: basta uma briga para alguém acusar o parceiro de estar com o demônio no corpo, quando, na verdade, é apenas ciúme velho de guerra. Há quem sofra um romance tão doído que parece se desnutrir com o pão que o diabo amassou; e outros que, no meio da discussão, se perguntam, exaustos: que diabo é isso?, como se a resposta viesse com cheiro de enxofre. Quando o amor resolve virar guerra, o casal sai pela casa com o cão nos couros, cada um mais inflamado que o outro.

  No cenário político, então, o demônio faz plantão. O centrão, por exemplo, vive naquele ritmo de sai desse corpo que não te pertence, mas o corpo continua pertencendo sempre aos mesmos. Falam em governabilidade como quem invoca santo, mas agem como quem consulta cartomante para saber quantos cargos podem arrancar; quando não conseguem, culpam o diabo escondido nos detalhes. Brasília adora atribuir ao inferno o que brota, tão humano, da esperteza e da ambição. Vez ou outra, algum parlamentar perde a compostura e surge com o cão incorporado, irritado porque suas emendas não foram liberadas. É nesses momentos que o país inteiro parece viver na antessala do inferno, observando o espetáculo de longe, com receio de entrar.

  Quando o assunto migra para a política internacional, o vocabulário diabólico ganha passaporte. Diz-se que certas potências botam o cão na disputa, que outras vendem a alma ao diabo por um acordo comercial, que algumas economias vivem tentadas pelo demônio do protecionismo. Nas reuniões diplomáticas, todos garantem que querem a paz, mas não hesitam em atirar o diabo a quatro para defender o interessezinho de fronteira. Há conflitos que parecem preparados no espeto do cão, tamanha a ardência que provocam no planeta.

  E nós, observadores desse circo inflamado, seguimos usando nossas expressões como quem sacode sal grosso linguístico. Dizer que alguém parece o demônio quando acorda pode até ser afeto torto; afirmar que uma situação é obra do satanás é quase diagnóstico cultural; e dizer que o mundo anda um cão virou descrição meteorológica.

  Resta a pergunta: será que o diabo tem mesmo tanto trabalho assim, ou fomos nós que transformamos nossas sombras em personagem folclórico para aliviar a consciência? Enquanto não respondemos, seguimos repetindo nossas frases, girando entre culpas e desculpas, como quem tenta botar ordem nesse inferno cotidiano — sem perceber que quem atiça o fogo, quase sempre, somos nós mesmos. Ou o cão quer é ver o circo pegar fogo?

Cruz credo!...

(*) jornalista


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