Alessandra Del`Agnese
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Alessandra Del`Agnese

A CIDADE QUE ME HABITA


Foto de Zezita
Por: | 16/12/2025

VOLTO JÁ  

A CIDADE QUE ME HABITA

  Há cidades que a gente habita, e há cidades que nos habitam.

João Pessoa é essa segunda morada que levo nas costas, num canto macio da alma como se houvesse em mim uma rede invisível, sempre pronta para ser armada entre dois coqueiros, à beira de qualquer desilusão.

 A vida, essa roteirista dramática e genial, me aprontou reviravoltas que nem o cinema ousou filmar. Casei sob o sol de um verão Lisboeta, acreditando que o “para sempre” era um contrato de alvenaria. O divórcio mais tarde foi um terremoto. Da alvenaria, restou pó. E do pó, restaram apenas um passaporte cheio de carimbos e uma mala vazia de certezas.

Viajei.

Mudei.

  Fui muitas versões de mim: física, mental e geograficamente.

Morei em cidades que sussurram e em metrópoles que gritam. Vivi em um apartamento minúsculo em Berlim, onde o frio congelava até as palavras não ditas. Passei por Buenos Aires tentando aprender o tango da resignificação mas tropeçando, sempre, nos meus próprios passos.

  Em cada lugar, um sabor novo.

Uma receita como curativo para uma saudade que eu ainda nem sabia nomear.

E os livros… esses sim eram pátria portátil. Chegavam comigo, empilhados no braço, como pequenos alicerces para quando o chão ameaçava sumir. Na cozinha alheia, eu buscava reconstruir a casa perdida: o refogado com cheiro de infância, o bolo que lembrava afeto. Foi então que entendi gastronomia é arqueologia emocional. Cada prato, um pedaço da gente desenterrado.

 Entre todas as mudanças, entre todos os “quis ficar, fiquei”, e os amores que foram como estações… havia um ímã constante: João Pessoa.

Porque João Pessoa não é cidade de chegada.

É cidade de retorno.

Ela não cobra medalhas nem lamenta derrotas.

Ela apenas existe e me permite existir também.

  O sol nasce primeiro lá, como se todos os dias alguém acendesse o farol da esperança. O mar e os coqueirais conversam num português antigo, repetindo sem pressa: desacelera.

  E toda vez que eu partia, levando na mala um pouco do seu sol e muita da sua paz, eu dizia olhando pelo retrovisor da alma:

“Volto já.”

Promessa, despedida e oração.

Um pacto comigo mesma.

E eu voltava.

Sempre.

 Não importa o número de aeroportos, carimbos ou línguas atravessadas ao descer no calor úmido daquela pista, a sensação era a mesma: o tempo segurou minhas coisas para que eu não perdesse o reencontro.

 Voltava com livros novos agora marcados por outros mundos e com receitas reinventadas. Uma vez cheguei obcecada por um strudel vienense, tentando ensiná-lo aos ingredientes locais. O resultado foi um doce híbrido, tão resignificado quanto eu.

A cidade aceitou.

Doce e destino.

 Porque ela sabe eu sou desses amores que partem levando a chave de casa no bolso.

João Pessoa me acolhe sem interrogatórios, sem auditoria emocional. Apenas abre os braços.

  E eu, depois de tantas batalhas, viagens, quedas e recomeços, finalmente entendi:

Alguns lugares são endereço.

João Pessoa é abraço.

  E para um abraço assim, a gente nunca diz adeus.

Diz apenas  com a convicção de quem já voltou mil vezes para si:

Volto já.



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