
VOLTO JÁ
A CIDADE QUE ME HABITA
Há cidades que a gente habita, e há cidades que nos habitam.
João Pessoa é essa segunda morada que levo nas costas, num canto macio da alma como se houvesse em mim uma rede invisível, sempre pronta para ser armada entre dois coqueiros, à beira de qualquer desilusão.
A vida, essa roteirista dramática e genial, me aprontou reviravoltas que nem o cinema ousou filmar. Casei sob o sol de um verão Lisboeta, acreditando que o “para sempre” era um contrato de alvenaria. O divórcio mais tarde foi um terremoto. Da alvenaria, restou pó. E do pó, restaram apenas um passaporte cheio de carimbos e uma mala vazia de certezas.
Viajei.
Mudei.
Fui muitas versões de mim: física, mental e geograficamente.
Morei em cidades que sussurram e em metrópoles que gritam. Vivi em um apartamento minúsculo em Berlim, onde o frio congelava até as palavras não ditas. Passei por Buenos Aires tentando aprender o tango da resignificação mas tropeçando, sempre, nos meus próprios passos.
Em cada lugar, um sabor novo.
Uma receita como curativo para uma saudade que eu ainda nem sabia nomear.
E os livros… esses sim eram pátria portátil. Chegavam comigo, empilhados no braço, como pequenos alicerces para quando o chão ameaçava sumir. Na cozinha alheia, eu buscava reconstruir a casa perdida: o refogado com cheiro de infância, o bolo que lembrava afeto. Foi então que entendi gastronomia é arqueologia emocional. Cada prato, um pedaço da gente desenterrado.
Entre todas as mudanças, entre todos os “quis ficar, fiquei”, e os amores que foram como estações… havia um ímã constante: João Pessoa.
Porque João Pessoa não é cidade de chegada.
É cidade de retorno.
Ela não cobra medalhas nem lamenta derrotas.
Ela apenas existe e me permite existir também.
O sol nasce primeiro lá, como se todos os dias alguém acendesse o farol da esperança. O mar e os coqueirais conversam num português antigo, repetindo sem pressa: desacelera.
E toda vez que eu partia, levando na mala um pouco do seu sol e muita da sua paz, eu dizia olhando pelo retrovisor da alma:
“Volto já.”
Promessa, despedida e oração.
Um pacto comigo mesma.
E eu voltava.
Sempre.
Não importa o número de aeroportos, carimbos ou línguas atravessadas ao descer no calor úmido daquela pista, a sensação era a mesma: o tempo segurou minhas coisas para que eu não perdesse o reencontro.
Voltava com livros novos agora marcados por outros mundos e com receitas reinventadas. Uma vez cheguei obcecada por um strudel vienense, tentando ensiná-lo aos ingredientes locais. O resultado foi um doce híbrido, tão resignificado quanto eu.
A cidade aceitou.
Doce e destino.
Porque ela sabe eu sou desses amores que partem levando a chave de casa no bolso.
João Pessoa me acolhe sem interrogatórios, sem auditoria emocional. Apenas abre os braços.
E eu, depois de tantas batalhas, viagens, quedas e recomeços, finalmente entendi:
Alguns lugares são endereço.
João Pessoa é abraço.
E para um abraço assim, a gente nunca diz adeus.
Diz apenas com a convicção de quem já voltou mil vezes para si:
Volto já.
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