Waldemar José Solha
Waldemar José Solha
Waldemar José Solha

UM DOS ITENS MAIS MÁGICOS DAS ARTES: SUSPENSION OF DISBELIEF. SUSPENSÃO DA DESCRENÇA:

Por: | 18/12/2025


A Wikipédia diz:

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A ideia encontra-se na introdução do livro Uma história verdadeira, do poeta satírico Luciano de Samósata – que nasceu por volta do ano 125,na província romana da Síria, e morreu pouco depois de 181, talvez em Alexandria. A expressão – Suspension of Disbelief - foi registada em 1817 pelo poeta inglês Coleridge.

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Suspensão de descrença, de descrédito, da incredulidade ou ainda "suspensão voluntária da descrença" refere-se à disposição natural de um leitor ou espectador de aceitar como verdadeiras – no contexto apresentado – os lances da ficção, por mais fantásticos, impossíveis ou contraditórios que eles sejam na vida real.

Comovemo-nos com Jesus Cristo Superstar, mesmo jamais tendo ouvido dizer que ele cantava. O balé A Morte do Cisne deslumbra, mesmo que saibamos o tempo todo que estamos ante uma jovem – não de uma ave - que “morre” dançando ao som de tristíssima música de Saint-Saëns. E não há quem assista ao Cidadão Kane e sinta falta de cores.

Uma das criações maiores de Shakespeare, na minha opinião, é o Prólogo de “Henrique V”, desnecessário, pois sempre se viu teatro sem que se precisasse exortar a plateia a usar a imaginação, mas genial, porque ele torna essa magia... consciente:

- (...) Perdoai, gentis expectadores, ao espírito raso e pouco exaltado que ousou neste indigno palco apresentar tão grandioso tema. Pode esta arena conter os vastos campos da França? Podemos nós amontoar dentro deste pequeno O de madeira todos os elmos que até o ar assustaram em Azincourt? Oh, perdoai! Mas já que um zero pode atestar um milhão em pouco espaço, deixem que nós, as cifras desta conta, acionemos sua força imaginária.

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O teatro, principalmente, por suas limitações, força autor e encenador a saídas impensáveis. Quando fui montar A Verdadeira Estória de Jesus, em 88, por exemplo, me vi com quatro pessoas no elenco, tal como são quatro os evangelistas canônicos, mas seus nomes eram Jorge, Tião, Dema e... Melânia. E eis um improviso salvador: na primeira fala da peça, ela passa a dizer:

- Vou apresentá-los pelos codinomes de que temos nos servido. Este é Mateus, judeu, versado nas Escrituras. Este é João, grego, filósofo especializado em Platão. Este é Marcos, teatrólogo romano. E eu sou Lucas.

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Da penumbra do Santa Roza vi que a plateia aceitara aquela mulher como evangelista... sem problema, sob efeito da suspensão da incredulidade ... e suspirei, aliviado.


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