UMA VOZ
João Batista de Brito
Sou hoje uma velha murcha e cansada, mas naqueles bons tempos eu estava na flor dos meus vinte e dois anos, e, modéstia à parte, era uma moça bonita. Solteira, sim, mas não por falta de pretendentes. Vários já haviam tentado, e eu, para preocupação da família, dizia não. Me chamavam de “moça velha” e eu nem aí.
Eu sabia que quando aparecesse aquele que coubesse no meu modelo de homem perfeito, eu me entregaria.
Naquela idade, eu já terminara meus estudos e era funcionária contratada do IBGE, ou seja, tinha independência financeira. As colegas de curso estavam todas casadas, lavando bunda de bebê, enquanto eu me divertia em passeios, retretas, festas e sessões de cinema.
Foi nesse tempo que comecei a receber aqueles telefonemas.
Um cavalheiro ligava para a repartição, e pedia para falar comigo. Segundo dizia, fora um dia ao IBGE resolver um problema, me vira e se encantara. Naquela época, sessenta anos atrás, telefone privado era coisa de gente rica. Eu não tinha um em casa, e acho que ele tampouco. Suponho que devia me ligar de telefone público, ou mesmo do trabalho.
De início, não me interessei por esse desconhecido que interrompia meu expediente para falar de coisas vagas e impossíveis. Falava do quanto me admirava e o quanto sonhava em um dia nos conhecermos e, quem sabe, ficarmos juntos. Esse papo me parecia leviano, porém, logo fui fisgada por um detalhe. E o detalhe era a única coisa que eu conhecia de sua pessoa: a voz. Sim, a voz mais bela que eu já ouvira em toda a minha vida. Masculina, rouca, vibrante mas suave, uma voz sensual, eu diria, erótica.
E assim, os telefonemas se sucediam. Acertamos o horário mais conveniente para as ligações - o intervalo da tarde - e trocávamos confidências praticamente todos os dias da semana. E os fins de semana, em casa, se tornavam insípidos.
Esse namoro por fio demorou meses e passei a sonhar com ele, lhe dando um corpo inteiro, da cabeça aos pés - um corpo de príncipe onde, não apenas a voz, tudo era belo. O rosto, por exemplo, era encantador, um misto de Robert Taylor e Cary Grant.
Tal era o meu encantamento, que chegava a sonhar com meu desconhecido. Nos sonhos, trocávamos beijos espetaculares, mais ousados que os dos filmes, e não era raro que acordasse ofegante e umedecida.
Finalmente, decidimos que já era tempo de nos conhecermos de perto, nos vermos e conversamos sobre nós mesmos, de modo mais concreto e consequente. Marcamos um lanche no Pavilhão do Chá, numa alegre e luminosa tarde de primavera.
Ansiosa, mas também envergonhada, optei por chegar atrasada. Ao entrar, olhei em torno e não o vi. Havia algumas pessoas na lanchonete, três jovens tomando sorvete, duas senhoras conversando, e, mais reservado, lá adiante, um homem sozinho numa mesa afastada. Mas nada dele. Confusa, ia procurando um lugar para me acomodar, quando o tal homem me acenou. Então aquele homem era ele?
Aproximei-me, cumprimentei-o com um sorriso incerto, enquanto ele se levantava para saudar-me.
Foi então que divisei o seu rosto. Não podia ser ele. Se era, a voz mais bela do mundo pertencia ao homem mais feio do mundo. Olhos ligeiramente esbugalhados, nariz grosseiro em formato de bola, orelhas maiores que a média, a cabeça metida nos ombros sem nenhum ensaio de pescoço, o sorriso mostrando dentes entramelados...
Quis sair dali correndo, mas educadamente, me contive. Confesso que nunca tomei um café tão amargo em toda a minha vida.
Não recordo nada do que conversamos naquela tarde interminável, no Pavilhão do Chá. Sei que nos despedimos com um vago aperto de mão. Ele quis deixar marcado um novo encontro e inventei mentiras escapatórias, alegando que, por enquanto, nos falaríamos por telefone.
No próximo telefonema, mal falei. Nos seguintes, fui me mostrando cada vez mais evasiva... Até que, num dia difícil, pedi um tempo para tomar decisões. Acho que ele entendeu, pois nunca mais ligou. E nunca mais o vi.
Depois disso, passei uns tempos mal, meio depressiva, me sentindo culpada. Por vezes me ocorria haver exagerado minha má impressão, afinal, ele não era nenhum Quasímodo, e eu também não era nenhuma Esmeralda. Com o passar da vida, graças a Deus, fui esquecendo a culpa. Mas, engraçado, nunca esqueci a aquela voz.
Quem não gosta dessa minha lembrança é meu marido, que é charmoso, mas tem voz chinfrim.
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