Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

ELA, DE CARNE E VERSO

Por: | 26/12/2025

Ela, de Carne e Verso

 Ela não desce de um pedestal. Desce do ônibus, com sacolas de mantimentos e um resto de cansaço nos ombros. Traz nas solas do sapato a poeira do caminho, e nas palmas das mãos, o mapa de texturas que a vida desenhou: um corte de faca, o calo da caneta, a suavidade ao acariciar uma testa febril.

 Sua beleza não é um quadro estático. É a maré: às vezes cheia, transbordante de riso que ecoa na cozinha. Outras vezes baixa, revelando a paisagem íntima das pedras, os pensamentos arredondados pelo tempo, as algas dos segredos úmidos e verdinhos. Tem dias que seu corpo é templo, outros é trincheira. E sempre, sempre, é lar.

 Seu rosto tem a geografia verdadeira. As linhas ao redor dos olhos não são apenas rugas; são sulcos por onde regou sonhos, é o riso que se fossilizou em luz. A curva dos lábios guarda histórias não contadas e palavras gentis que nutriram almas. A franja que insiste em cair sobre a testa, o fio grisalho que brilha prateado como uma constelação particular insígnias de um tempo vivido, não apenas passado.

 Ela é a mulher que planta alecrim num vaso na varanda e acredita, profundamente, no milagre das pequenas raízes. Que queima o arroz e salva o dia com uma piada. Que guarda no bolso do casaco um lenço, uma chave e uma inquietação delicada. Sabe o peso de um silêncio e a fórmula exata de um abraço que reconstrói.

  Não é feita de porcelana, mas de terra fértil e tempestade. De ciclos lunares internos, de sangue e intuição. De coragem que se veste de ação simples: levantar, seguir, cuidar.

  Ela é real. Não a perfeição, mas a presença. Não a musa distante, mas a autora da própria história, escrevendo com gestos cotidianos, com escolhas silenciosas, com amor teimoso e resistente.

 É múltipla. É uma só. É sagrada no seu humano comum. É poesia que não está nos livros, mas no modo como arruma a mesa, olha para o horizonte e persegue, incansável, um fragmento de beleza no ordinário.

  Honremos essa mulher. A de carne, osso e alma. A que habita a si mesma, inteira e complexa. A real que é, talvez, a mais extraordinária de todas as obras de arte




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