Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

DEZEMBRE-MO-NOS

Por: | 26/12/2025

Dezembre-mo-nos 


    O Natal me tocou. Lembrei da minha família que me trouxe ao mundo, mergulhando na memória de um móvel, que me marcou e que nem sei se ainda existe ou por onde anda, assim como o Natal. Por onde anda? 

  Parece que não é tão universal como fazem parecer. Sinto que, quando chega a época das luzes piscantes, quando ele mostra a cara em verde e vermelho, não visita a todos indiscriminadamente, rua por rua, casa por casa. Não. Ele é seletivo, ele escolhe. Ou, mais precisamente, é escolhido pelas condições materiais que permitem sua entrada. Em algumas casas, chega com a mesa farta, risos sincronizados e embrulhos vistosos. Noutras, passa pela calçada oposta, fingindo não ver o prato vazio, a geladeira desligada, o silêncio constrangido que substitui a ceia.

 Vivemos em um mundo cronicamente adoecido. A doença não é apenas econômica, embora ela seja brutal. É também moral, política e simbólica. O Natal virou uma vitrine de normalidade em um sistema que já desistiu de ser normal. Uma data que pede alegria obrigatória enquanto naturaliza a desigualdade como paisagem.

 O menino que nasceu na manjedoura virou logomarca. A manjedoura, um item decorativo. A pobreza, um detalhe inconveniente que se resolve com campanhas pontuais e discursos bem-intencionados. O Natal, assim, se transforma em anestesia coletiva: por algumas horas, suspende-se a culpa, distribuem-se migalhas e reza-se para que janeiro demore a chegar.

  Mas o adoecimento do mundo não é silencioso. Ele grita nas filas do SUS, nas cozinhas sem gás, nos corpos que trabalham até o esgotamento para sustentar a fantasia de prosperidade alheia. Grita também na política capturada por interesses que celebram o lucro enquanto criminalizam a miséria. Um mundo doente não se cura com pisca-pisca.

 Ainda assim, a esperança insiste. Não a esperança ingênua, embrulhada em papel dourado, mas a esperança dialética, que nasce do conflito. Aquela que reconhece a ferida antes de falar em cura. A que entende que o Natal, se quiser voltar a fazer sentido, precisa deixar de ser evento e virar processo.

 Talvez o verdadeiro Natal não esteja na árvore montada, mas na recusa em aceitar que a exclusão seja regra, como faz o cavaleiro Lancellotti - não o da távola redonda, o das ruas da cidade de São Paulo. O Natal só deve acontecer quando a fome deixar de ser estatística e passar a ser vergonha pública. 

Quando a solidariedade não for sazonal e a justiça não depender de datas comemorativas.

 O Natal que não visita indiscriminadamente revela mais sobre o mundo do que gostaríamos de admitir. Mas é justamente dessa constatação incômoda que pode nascer a transformação. Um Natal menos decorativo e mais insurgente. Menos promessa e mais prática. Um Natal que, em vez de passar, permaneça.




Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário