João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

FÉRIAS

Por: | 28/12/2025

F É R I A S

João Batista de Brito


Quem teve a ideia? Ele ou ela? Não importava.

Importava que os dois assumiram o projeto de bom grado. Estavam com trinta anos de casamento nas costas e simplesmente decidiram que precisavam de algo diferente, algo novo que lhes arrancasse a sensação de rotina mofada.

Assim, as próximas férias seriam num hotel fazenda, um em que nunca estiveram. E com um grande diferencial. Cada um faria sua reserva, cada um pagaria sua parte, e cada um se acomodaria em seu próprio quarto. Dois desconhecidos: esta era a proposta.

Durante os quinze dias de férias, nesse novo hotel fazenda, o combinado é que não se falariam, não se aproximariam, não se procurariam. Total suspensão conjugal.

E assim fizeram.

No salão do café da manhã nem se viam. Acostumada a madrugar, ela ia mais cedo, e ele, dorminhoco, um pouco mais tarde.

Durante a manhã, curtiam a piscina do hotel, mas não debaixo da mesma sombrinha. Ele na dele, ela na dela. Ele com seu copo de whiskey e seu celular; ela com sua taça de vinho e seu livro.

No almoço sentavam em mesas distantes, e, no meio dos comensais famintos, mal se avistavam. E quando se avistavam, discretamente tiravam a vista.

À noite, sempre havia música e dança no pátio do hotel, e eles, como a maior parte dos hóspedes, desfrutavam o clima de animação, cada um na sua mesa. Sem interessar que música tocasse, um não tirava o outro para dançar, já que desconhecidos não tiram desconhecidos para dançar. Dançavam soltos, ou, eventualmente, com outros parceiros.

Perfeitos estranhos. Até que um dia, numa certa manhã de sol, ela ia saindo da piscina, quando escorregou na rampa e torceu o pé. Saiu mancando, o rosto contorcido de dor. Ele, por acaso, viu o acidente. Ficou em dúvida sobre o que fazer, mas decidiu. Foi até ela e perguntou:

- A senhora está bem?

- Estou bem, obrigada.

- Não quer uma ajuda?

- Agradeço, se o senhor puder me levar até meu quarto.

Segurando-lhe o braço, ele a conduziu até o quarto, ajudou-a a deitar-se e ligou para o setor de primeiros socorros do hotel. A telefonista perguntou o nome da pessoa acidentada, e ele, naturalmente, foi obrigado a perguntar a ela qual era o seu nome, e, ela, claro, lhe deu o nome fictício com que fizera sua reserva: Estela.

Ao que ele, por sua vez, com um “muito prazer”, adiantou o seu nome de férias, igualmente fictício: Renato.

No jantar daquela noite, ele viu que ela estava melhor do tornozelo, já se movendo sem problemas, e ficou aliviado. Ela chegou a passar na sua mesa para agradecer a ajuda.

Aquela noite, na seresta, os dois, sorrindo, se entreolharam, e ele teve a ousadia de ir até a mesa dela e convidá-la para dançar. Afinal, já não eram completamente desconhecidos. Ela topou e dançaram mais de uma música.

Você vem sempre aqui? Ele perguntou.

- Não. É minha primeira vez, mas estou gostando muito.

- Eu também.

E a conversa se estendeu sobre coisas privadas. Era viúva, confidenciou ela; o marido tinha falecido no terceiro ano de casamento, e ela nunca quis casar de novo.

Ele foi contando que era divorciado, que o casamento não dera certo e que, como ela, preferia mesmo a vida de solteiro.

Num clima de intimidade cada vez mais franca, dançaram a noite toda, e, finda a dança, embriagados de desejo, foram dormir na mesma cama, a dela. Vindo não se sabia de onde, um fogo lhes queimava o corpo, cobrando o corpo do outro. Fizeram um amor selvagem, como nunca haviam feito, e, a partir de então, sempre como Estela e Renato, gozaram esse amor enlouquecido até o último dia de férias.

Findas as férias, Estela e Renato se despediram e, cada um tomou o seu rumo de volta pra casa.

Ele chegou em casa antes dela. Desfez as malas, tomou um banho, deitou-se para relaxar. Esperou um bom tempo, e nada da esposa. Mais tarde, o telefone deu sinal. Era uma mensagem no whatsapp:

Querido Renato, mudei-me para um Apart-hotel na orla. Se quiser me procurar, ficarei feliz. Assinado: Estela.


FONTE: Facebook - Acesse

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