João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

DESFORRA

Por: | 02/01/2026

DESFORRA

João Batista de Brito


Fui, desde jovem, um apaixonado por poesia. De Bandeira a Quintana, lia os poetas brasileiros e me encantava. Um dia – pensava – serei um deles. Afinal, sou uma pessoa sensível, de emoção à flor da pele, uma criatura talhada para a poesia.

Sim, lia poesia e não via por que não podia praticá-la eu mesmo. E me entreguei ao ofício com gosto.

Primeiro, rabiscava meus poemas em cadernos caseiros, sem mostrar a ninguém. Nunca ocasião especial, tomei coragem e mostrei a um amigo mais próximo, que achou tudo “uma merda” (expressão dele) e me aconselhou a desistir.

Ora, meu amigo era um cara sem formação literária e, assim, com um pouco mais de coragem, procurei alguém da área. Fui atrás de um ex-professor de língua e literatura que me ensinara no colégio e que eu muito respeitava. A reação foi quase a mesma do meu amigo, apenas com um pouco de verniz educado.

Não me dobrei e continuei escrevendo e, pacientemente, engavetando os meus preciosos escritos. Um dia a humanidade conheceria - e reconheceria - a obra ímpar de um grande poeta.

Mas, a verdade é que não queria morrer anônimo. E assim, fiz amizade com os poetas da minha cidade, os editados e os inéditos. Me enfiei no pretensioso círculo, e mantive com eles uma relação aparentemente desinteressada. Tive o zelo de sempre ir lendo os seus poemas, com o cuidado de elogiá-los, para poder – quem sabe? – um dia receber o troco.

Não tinha troco: a poetada toda, me recebia bem, tomava o whisky que eu pagava, me tratava com cordialidade, mas, com relação aos meus escritos, todos eles se limitavam a comentários desviantes e superficiais.

Confesso que essa indiferença – ou fosse o que fosse - começou a me irritar. E decidi, então, parar de tentar opiniões alheias. E voltei a escrever só para mim mesmo. É verdade, que, um dia, com a ajuda de um parente de boa vontade, cheguei a publicar uns poemas meus na Revista de Cultura da Prefeitura. Com ansiedade, aguardei as reações. E nada. Silêncio completo. Não tinha jeito. Tudo indicava que, como Augusto, eu ia mesmo morrer sem reconhecimento e, quando morresse, um Bilac local iria dizer que eu estava melhor morto.

Foi quando me deparei com o milagre. E tudo mudou.

O milagre tem nome e se chama Inteligência Artificial. Acontece que, num dia providencial, uma sobrinha minha, que estudava Ciências da Computação, me ensinou a usar essa maravilha da tecnologia.

A partir daí, no meu computador caseiro, eu simplesmente pedia à I. A. um poema e o resultado era uma obra prima.

Tudo o que eu tinha a fazer era: sugerir uma temática (por exemplo: o Ser diante do indecifrável mistério do universo), acrescentando ao pedido metáforas relativas, por exemplo, às forças naturais (fogo, ar, terra, água...), ou aos grandes mitos da humanidade (Ícaro, Prometeu, Édito...). Sim, e até o estilo podia ser uma escolha, por exemplo, o discurso contido de um Cabral, ou o modo mais solto de um Drummond... Enfim, o que eu quisesse.

E a I. A. me dava textos maravilhosos. Cada um diferente do outro, pois, claro, para cada texto, eu ia variando os meus pedidos temáticos, formais e estilísticos. Uma beleza. Dados os poemas, era só operar uns pequenos ajustes mais pessoais e... copiar e colar. Resultado: juntei, todos esses belos poemas, num livro só, mandei imprimir, e lancei num evento todo especial.

Foi um sucesso estrondoso, e logo, a crítica local, e até a nacional, foi obrigada a reconhecer que ali estava um poeta maior, a quem até então vinha se fazendo injustiça. De repente, até a minha poesia anterior à I. A. foi vista com um pouco mais de boa vontade.

Hoje em dia vivo dando autógrafos a fãs bajuladores, e uma aluna da Universidade já demonstrou a intenção de defender tese de mestrado sobre minha obra poética.

Finalmente, fui indicado e eleito para membro da Academia de Letras do meu Estado, e, no momento, estou redigindo o meu discurso de posse. Nele vou relatar toda a minha sofrida trajetória, e a luta insana pelo domínio de uma voz poética.

Evidentemente, não vou me referir ao papel da I. A. no meu processo criativo, pois isso não interessa a ninguém, senão ao meu eu profundo.

Vai ser um arraso. Já ouço os aplausos.


FONTE: Facebook - Acesse

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