Por: | 06/01/2026
LETRA LÚDICA
Hildeberto Barbosas Filho
Cyelle em outros mapas!
Mapa arbitrário é o título do livro. “Brisa”, “Verão”, “Ressaca”, À deriva”, “Inverno”, “Remo”, “Tempestades” e “Tábua de marés” são as partes. Falo da coletânea de poemas, de Cyelle Carmem, publicado pela Editora A União, em 2025.
A considerar a cadeia semântica das palavras, vejo-me como que diante de uma escrita aquática, tecida a partir de elementos naturais que se confrontam, dentro da correnteza metafórica que percorre os caminhos da obra poética, com os chamados vitais da coisa emotiva; aflições, perplexidades, percepções, sentimentos que se movem no jogo dos textos.
Renata Escarião, também escritora contemporânea, acerta em cheio ao tocar, em breve prefácio, no cotejo entre norma e transgressão, ao decodificar a ambiguidade do título. Sua companheira de geração, a poeta e compositora Bianca Rufino, por sua vez, na sutileza do posfácio que escreve, evoca o poder do silêncio enquanto motivo subjacente à fluidez dos poemas, assim se expressando: “Muitos são os silêncios que habitam esse livro, mas não falo dos silêncios silenciosos, falo dos silêncios de quem guarda artilharias e gritos por dentro”.
Eis, portanto, já apontados, dois ingredientes desse mapa lírico, desenhado com as cores mais sutis de outra geografia. A geografia, não a física, dos acidentes visíveis e delimitados, porém, sobretudo, a geografia da alma, com sua fauna e flora submersas, móbeis, indefiníveis, inexploradas. De um lado, fronteiras demarcadas pela cultura e pela ideologia; de um outro, zonas abertas, trilhas sinuosas, ilhas ambivalentes por onde ecoa a voz da enunciação lírica, na arbitrariedade poética de outro mapa.
Em “Embarcada”, poema da primeira parte, essa tensão axial se entremostra nos dois versos finais, a saber: “Viver é fingir ter controle das águas e deixar-se ∕ navegar enquanto mira o horizonte”. A tensão se torna mais aguda e mais intensa nos dois poemas seguintes, isto é, “Água de benzer” e “Exceção”.
Movimento e fluidez, leveza e sensibilidade, certa contensão vocabular, certas intuições perceptivas demarcam a estrutura dos versos. O lirismo de Cyelle Carmem é de índole expressiva e não teme as armadilhas da subjetividade. Fala exatamente, no aquático de sua palavra lírica, das inquietações da criatura humana perante pressões e cercanias, conceitos e preconceitos, convenções e previsibilidades.
Às vezes as palavras usadas não me parecem as melhores nem me parecem estar no melhor lugar possível. Certamente Coleridge, o poeta do romantismo inglês, não aprovaria algumas incursões de sua lavra criadora. No entanto, não são poucos os momentos em que as palavras, cedendo ao apelo mágico da estesia, se unem e se atritam para compor a poeticidade dos motivos, estimulando, assim, o prazer estético da leitura.
Tal ocorre sobremaneira nos poemas mais curtos, naqueles em que, um, dois ou três versos possuem o poder de revelar realidades inapreensíveis; de cristalizar, no verbo e no substantivo, o critério indispensável da beleza. “Nebulosa”, o último poema do volume, me parece exemplar neste sentido, senão vejamos:
Embora eu tentasse atrasar o tempo,
eu via nuvens crescerem
no lugar dos meus cabelos.
É bom ler e reler outros poemas. “Observação”, “Desde o fim”, “Gota”, “A palavra solta”, “Isenta”, “Fuga”, “Castigo”, “Nem tudo é dano”, “Intervalos”, “Força bruta” e “Ampulheta” constituem peças poéticas sustentáveis e que demonstram o talento e a sensibilidade da autora.
Cyelle Carmem é paraibana, da capital. Poeta e romancista, vem, desde os anos de 2010, participando ativamente da vida literária local, estando, assim, inserida numa ampla vertente artística que vem modificando a cena cultural da Paraíba. Penso, aqui, sobretudo, em certas vozes femininas, a exemplo, entre outras, de Débora Gil Pantaleão, Ana Apolinário, Lua Lacerda, Jenifer Trajano, Aline Cardoso, Ana Lia Almeida, Janaína Araújo, Lindjane Pereira, Bianca Rufino, Renata Escarião e Isabor Quintiere.